quarta-feira, abril 16, 2008

II - Maio de 1968: a minha tese.

(...)

Continuemos, pois, a transcrição da, em minha opinião, actualissima, quanto interessante, carta de AJS para Óscar Lopes.

"3.ª fase - o momento crítico (29 e 30 de Maio). A CGT e os outros sindicatos, com grande indignação dos estudantes, aceitam negociar com o governo e o patronato o fim das greves. Mas a base rejeita os acordos propostos pelos chefes sindicais. Há o pânico. O PCF decide politizar oficialmente as greves; a CGT organiza uma grande manifestação reclamando [um governo popular e democrático] de que os estudantes são excluídos (28 de Maio). No dia seguinte os estudantes, seguidos por muitos operários jovens e pela CFDT (autogestionária e de influência cristã...) organizam um comício em que se declara que a revolução está em marcha. Os políticos da oposição preparam um governo Mitterand-Mendés France, com participação do PCF. O De Gaulle partiu para Colombey (onde viria a falecer, mais tarde, depois de se retirar do Poder, em consequência da derrota que sofreu no referendum sobre Regionalização...). No dia seguinte golpe de teatro: o DE Gaulle declara num discurso trovejante que não sai (teria já assegurado apoio do general Massu - acantonado na Alemanha), dissolve o Parlamento, e mobiliza os gaulistas. Uma manifestação enorme dos gaulistas nos Campos Elisios (do grego: última morada dos heróis...)mostra que a guerra civil está à vista.

4.ª fase: O refluxo. Os políticos metem a viola no saco. Preparam-se para as eleições. O PC declara que é preciso ganhar as eleições. Os estudantes lançam o slogan 'elections-trahison'.Recomeçam as negociações dos grevistas com o governo, que os estudantes tentam impedir. No dia 7 de Junho a maior parte dos trabalhadores cessaram a greve. Mas há focos importantes (metalurgia, indústria automóvel, televisão).

Neste momento (8 de Junho), a polémica PCF-Estudantes atingiu o auge. Os estudantes tentam arrastar os grevistas restantes a bater-se com a polícia; l'Humanité chama-lhes 'provocadores'.

Este é o esquema, que te dá ideia das forças em presença: os 'revolucionários' (cujo núcleo é o movimento 22 de Março); o PCF, apoiado na maior parte dos sindicatos; e os gaulistas. Quanto aos 'políticos' da oposição burguesa, têm estado apagados.
As estratégias:Gaulismo: pretende reunir toda direita e centro (e os possíveis reformistas de esquerda) com o argumento de que uma ditadura comunista seria o desenlace de uma subversão do Estado. PCF: pretende tomar o poder pelas vias legais, com o apoio das classes médias de esquerda, convencendo a opinião de que é a única força capaz de manter a ordem contra os "enragés"; pretende por outro lado isolar os 'revolucionários'. Movimento 22 de Março e outros de extrema esquerda:esforçam-se por arrancar a base operária ao controle do PCF, lançá-la com os estudantes contra a força pública e provocar a formação de um 'poder paralelo' que substitua o poder existente (controle das máquinas por operários, etc, como já existe de facto o controlo da Universidade pelso estudantes). Os intelectuais, especialmente os cientistas e os artistas de cinema, têm tomado uma posição em flecha ao lado dos 'revolucionários'.

A Sorbonne, como te disse, é um meeting permanente. Não há aulas, nem exames. retratos de Mao-Tse-Tung, trotsky, Guevara, lenine. salas para os diversos grupos. Reuniões sobre todos os assuntos (problemas políticos, sexuais, artísticos, etc.) H, inclusivamente, uma sala reservada às 'minorités sexuelles'. Aberto a todo o público. Numerosos operários participam e tomam a palavra. Há comissões a trabalhar pela reforma das universidades. Os estudantes, exclusivamente, têm ali a responsabilidade da gestão, do 'entretien' e da ordem.

Personalidades: Só há duas: De Gaulle e o Cohn Bendit, um rapaz de 23 anos, anarquista. Foi expulso de França (é de nacionalidade alemã) mas dá conferências de imprensa na Sorbonne, perante milhares de pessoas.

Na Sorbonne e noutros sítios encontras uma literatura mural muito interessante, e para todos os gostos. A frase que me impressionou mais, e que dominava as paredes da Sorbonne nos primeiros dias é 'l'imagination prend le pouvoir'.

Logo que recebas esta, acusa a recepção e faz as perguntas que te apetecer.

Um abraço do Saraiva.

Acrescento que o começo disto foi, absolutamente, inesperado. Não havia agitação operária. recomeçava a expansão económica. Começava a reunir-se a conferência entre americanos e vietnamitas (a conferência de Paz para o Vietnam, entre americanos e vietnamitas, durou de 1968 a 1973). O De Gaulle preparava a viagem à Roménia."

Fim de citação

No entanto, ainda em Junho de 1968, em carta endereçada ao seu amigo de sempre Óscar Lopes, sobre o rescaldo do Maio, AJS, diz:

"Em resumo, o PCF (nas elições subsequentes ao Maio de 1968)perdeu perto de 3/4 dos deputados e cerca de meio milhão de votantes. A Féderation, ainda de Pierre Mendés-France (donde sairia o PSF de Mitterand, da rosa...)perdeu mais de metade dos seus deputados. Os gaulistas ortodoxos t~em a maioria absoluta. seguem-se-lhe, em número de deputados, os giscardianos (que estão à direita dos gaulistas, e não ao centro como dizem), o PCF, a Federação e os Centristas. Há um número considerável de gaulistas de esquerda. (...) O mais curioso é que o PCF perdeu uma parte do seu eleitorado nos seus bastiões tradicionais, como a chamada 'ceinture rouge' de Paris. Houve muitos operários que votaram gaulista. O operariado vota no PCF como um elemntoda ordem e não da revolução. (...) Não haja ilusões, a URSS, e com ela os PC's dos vários países, com poucas excepções, é um sistema burocrático e conservador. A idade mediana dso dirigentes políticos da URSS é (em termos cronológicos) a mais elevada dos dirigentes políticos do mundo. Um objectivo fundamental de um chefe político soviético é conservar-se no poder.
(...)O De Gaulle não se identifica com a burguesia nem com o exército. A ideia da participação dos operários nos lucros e na direcção efectiva das empresas (isto é na cogestão) é uma velha ideia dele que sempre teve a oposição do patronato e dos ministros. Desde os acontecimentos de Maio - este tem sido o grande temas dele. O Pompidou vai sair do governo porque se lhe opõe..."

Fim de citação.

Ora aqui estamos. Tenho muito pano para mangas, mas só vou começar o fato, amanhã.

JA

terça-feira, abril 15, 2008

Maio de 1968: a minha tese.

Sustento que, de algum modo, os acontecimentos de Maio 1968, em Paris e em França, foram um epifenómeno - não uma "marca" acontecimental, no sentido da historiografia de Paul Veyne.

Nâo deixou traços, nem sequer sulcos, nem culturais, nem estruturais,nem sociais, menos ainda nas instituições (salvo, talvez, nas Universidades..., que se massificaram, "democratizaram"!e, nas empresas, no território do exercício da democracia sindical e provocou, então, aumentos salariais!).

Deixou, isso sim, toda uma profusão de "mitemas" cultuados pelas "tribos" de esquerda, ao modo dos sobreviventes da Commune de Paris!Creio mesmo que menos ainda: há poucas marcas literárias, há poucas marcas poéticas, quase nada, ou mesmo nada, na música/canção, quase nada na filmografia e na dramaturgia!

Estive a reler a carta, datada de 8 de Junho de 1968,de Paris, que António José Saraiva enviou ao seu amigo Óscar Lopes, então no Porto e arreigado ao comunismo ortodoxo do PCP, na clandestinidade e, acho-a, do ponto de vista dos factos que então ocorreram - notável!

Começa AJS:

"Tenho estado a assistir a uma coisa que não se vê todos os dias: uma revolução (...)".

Mais adiante, continua ele, AJS, descrevendo as fases do processo: "1.ª fase: Os estudantes conquistam a Universidade [3 a 11 de Maio]. A entrada da polícia na Sorbonne provocou manifestações crescentes no Quartier Latin. Houve centenas de feridos, mas nem um só morto. O grupo que desencandeou isto é o [movimento do 22 de Março]m amálgama de anrquistasm trotsquistasm pro-chineses, guevaristas e'situacionistas'.

2.ª fase: as greves. Inicialmente o PCF condenou os 'excessos' dos estudantes. Mas como as barricadas emocionaram toda a população, a CGT e os outros sindicatos organizaram uma manifestação, a maior de que há memória em Paris [13 de Maio] e declararam a greve geral em paris por 24 horas. No dia 15, espontaneamente, começam grees nas grandes empresas metalúrgicas, que rapidamente se alstraram. Ao fim de 8 dias há em toda a França 10 milhões de grevistas. Mas logo se desenha uma oposição entre o PCF e os estudantes. Na Sorbonne não há aulas, mas comícios políticos permanentes. Os estudantes pretendem fazer a revolução total contra o [capitalismo e a sociedade de consumo]. A CGT por seu lado defende as [reclamações] operárias 'salários, securité social, liberdade sindical'. Há um conflito aberto. Os estudantes são impedidos de entrar nas fábricas pelso piquetes de greve. No entanto muitos operários jovens querem chegar à fala com eles. No dia 24 de Maio, em que o De gaulle propõe o referendum, há 2 manifestações, a dos estudantes e a da CGT. Os estudantes queriam provocar a junção das duas. O PCF evitou-a, alterando à última hora, o itinerário da manifestação da CGT. No dia 24 de Maio novas barricadas, em vários pontos de Paris, que o l'Humanité condena expressamente como sendo obra da pègre (escumalha)."

A carta já vai longa, mas ainda tem mais substância que eu considero fundamental para sustentar a minha tese e para rememorar os FACTOS, esses incontornáveis quanto decisivos no apuramento da VERDADE histórica e da história.

Amanhã voltarei à CARTA de AJS e à minha argumentação.

JA

segunda-feira, abril 14, 2008

"De la Bêtise"

Musil é, para meu prazer, um dos escritores "canónicos", cuja obra o "O Homem sem Qualidades" é de leitura, mais do que obrigatória!

Tenho à cabeceira, faz pouco tempo, um pequenino livro, traduzido para o francês e publicado pelas Editions Allia, "De la Bêtise".

Recomendo-o, vivamente!

Enquanto ele não se deixa ler por "outros", aqui deixo, hoje, um pedaço, amanhã, outros.

Como festejámos o Maio de 68 e a França d'então, deixo-o na lingua traduzida:

"Il n'est pas une seule pensée importante dont la bêtise ne sache aussitôt faire usage; elle peut se mouvoir dans toutes les directions et prendre tous les costumes de la verité. La verité, elle, n'a jamais qu'un seul vêtement, un seul chemin: elle est toujours handicapée. La bêtise dont il s'agit là n'est pas une maladie mentale; ce n'en est pas moins la plus dangereuse des maladies de l'esprit, parce que c'est la vie même qu'elle menace."

Robert Musil
JA

As efemérides são para serem festejadas?... Maio de 1968!

Sim e assumo-o, claramente, sem ademanes.

As razões?: TODAS elas são boas.

Mas, também, podemos querer NÃO as comemorar e/ou festejar.

Este ano comemora-se os 40 anos do Maio de 1968 que fez "estremecer" a França!

Ando a dar pequenos passos na arte/ciência (ainda persiste esta dicotomia...) que é a História. Paul Ricoeur diz que ELA é, a historiografia,uma NARRATIVA e do dominio da metafora!

Sendo um "apaixonado" da escola de Marc Bloch/Lucien Febvre "Les Annalles", considero, à moda do "meu" mestre José Mattoso (ele não sabe que eu sou seu discipúlo devoto...), que o "apport" dos positivistas actuais (em Portugal são: Vasco Pulido Valente,Maria José Bonifácio, Maria Filomena Mónica, etc...O maior de TODOS, falecido faz pouco tempo, Oliveira Marques!)é da maior importância, porque não diminuem o valor dos FACTOS.

Paul Veyne, o da Nouvelle Histoire, sustenta uma categoria "NOVA" e bem interessante: um fenómeno "ACONTECIMENTAL", o que faz caminho e formata a história!

A pergunta que eu deixo, hoje por aqui - é: Os acontecimentos de Maio de 1968, em Paris e na França (com sequelas em Berlim, Bélgica,Holanda, Portugal e etc...)foram um fenómeno ACONTECIMENTAL? Marcaram, de algum MODO, o DEVIR histórico?

Creio que NÃO!

Amanhã - começo a defender a minha tese!

JA

NB - Cheguei a Paris no dia 13 de Janeiro de 1968.
Em finais de Abril, de 1968, consegui um certificado de doença (num médico do PCF)e deixei de trabalhar para VIVER, intensamente, até ao dia 30 de Maio de 1968 (data em que fui preso em Flins, "à l'aube", quando "tentávamos" tomar de assalto a unidade da Renault de Flins, a mais moderna empresa, à data, do Grupo e pejada de imigrantes OS's)!

Tinha 21 anos quando fui testemunha e protagonista duma "revolução" falhada!

domingo, abril 13, 2008

Ainda & Sempre António Machado

LA SAETA

?Quién me presta una
escalera
para subir al madero,
para quitarle los clavos
a Jesús el Nazareno?
Saeta Popular.


!Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos,
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar!
!Cantar del pueblo andaluz,
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz!
!Cantar de la tierra mia,
que echa flores
al Jesús de la agonia,
y es la fe de mis mayores!
!Oh, no eres tú mi cantar!
!No puedo cantar, ni quiero
a ese Jesús del madero,
sino al que anduvo en el mar!"

António Machado

Poesias Completas
Colección Austral
Editorial Espasa Calpe

JA

A Senhora Ministra da Educação

Digo, desde logo, que detesto a palavra "educação", prefiro-lhe "escola" e acho graça a "instrução".

O simpático latinório ajuda-nos a perceber estes meus estados d'alma em relação a conceitos em relação aos quais, de tão usados, já quase ninguém se atarda neles.

Este meu discorrer vem a "despropósito" da presença da actual Ministra da Educação, na passada quinta-feira, 10 de Abril, na Brandoa (não na mítica dos Gatos Fedorentos...), mas na actual e bonita freguesia da Amadora, para inaugurar uma Feira do Emprego, organizada e promovida pela empresa municipal, Escola Intercultural, das Profissões e do Desporto.

O que quero destacar é:

1- A ausência dos grandes meios de comunicação social. Isto não é sequer uma critica, mas uma constatação;
2- A entrega de diplomas de 12.º ano, a adultos que aproveitaram "As novas oportunidades";
3- A ministra sublinhou a importância das autarquias no sucesso escolar, como agentes fundamentais da comunidade educativa (continuo a não gostar da expressão...) e das empresas (falararam, no acto inaugural, entre outros, o Director de Recursos Humanos da Siemens...);
4- A ministra, sublinhou a importância do Programa, pioneiro na Amadora (único no país...)de Formação Profissional para jovens, entre os 12 e os 15 anos, jovens que tinham abandonado o sistema oficial e obrigatório de ensino.

Hoje, lendo a reportagem da UNICA, sobre a Casa Pia ,percebi, finalmente, o interesse da ministra por este programa: ela foi casapiana, ganso!

E isto faz toda a diferença.

A ausência da comunicação social?...ponham-se no lugar deles: trocariamos uma atoarda, um ribombo, um foguetório do escuteiro Màrio Nogueira da FENPROF por um programa de sucesso, que visa "recuperar" jovens para o sistema de ensino e tirá-los da marginalidade e da deliquência? Claro que não.

Mas este programa de formação profissional, 12 - 15, aprovado pela ministra Maria de Lurdes Rodrigues, apoiado pelo Ministério, com professores, com curricula validados, teria ido p'ra a frente se, a Senhora Ministra da Educação, não tivesse sido casapiana?

Tenho a certeza que não!

Sempre me vem à cabeça, nestas, como noutras circunstâncias, o meu poema preferido, do sevilhano António Machado:"Caminante, son tus huellas/el camino, y nada más;/caminante, no hay camino,/se hace camino al andar./Al andar se hace camino,/ y al volver la vista atrás/se ve la senda que nunca/se ha de volver a pisar/Caminante, no hay camino,/sino estelas en la mar."

Não se pode ter medo dos caminhos nunca percorridos. O desafio é sempre o mesmo: demandar Indias por haver, sempre, esse é o destino e o desafio estratégico!

JA

sábado, abril 12, 2008

"Entre as brumas da memória"


Dum campo de nenúfares, d'entre as brumas da história, do passado,, emergem, poderosas, impressivas, as memórias duma lutadora, católica, que, nessa trincheira travou as lutas que entendeu dever cumprir, nas circunstâncias e no tempo que lhe foram dados viver.

Amigo comum chamou-me a atenção para o percurso civico da Joana Lopes, para o seu Blog e para o seu livro.

No Blog, tenho vindo a navegar faz tempo.

Do livro, que comprei ontem (encontrei-o na FNAC de Alfragide) já quase o devorei.

É um testemunho rico, valioso e que, para a historiografia do século XX, do Salazarismo, particularmente da década de 60 até ao 25 de Abril de 1974, deixa-nos vislumbrar que houve mais resistência ao fascismo para além da do PCP (que, de resto, como a própria autora o faz, TODA a gente reconhece...).

É, para mim, particularmente, interessante a deriva de muitos intelectuais portugueses, católicos militantes, empenhados, comprometidos com a Igreja Católica, que acreditaram, num primeiro momento, que podiam lutar contra o fascismo do próprio interior da Igreja Católica e das suas organizações de leigos: e fizeram-no com argúcia, inteligência e rigor taticisa.

Depois, o afastamento e a procura incessante duma solução "mistica", a partir de múltiplos exemplos de vida, em que não faltou mesmo a do padre guerrelheiro Camilo Torrres (nascido em Bogotá em 3/2/1929 e morto pelo exército colombiano em Santander, a 15/2/1996).

Ainda vou a meio do livro, mas já recordei bastante e aprendi outro tanto.

A "mitografia" dos comunistas, do "Partido", como única força organizada na resistência ao fascismo começa a ruir. Não vem mal, nem ao mundo, nem aos comunistas, que tal aconteça: é a VERDADE acontecimental no seu melhor que começa a esburacar os paredões da mistificação.

Ainda bem que a Joana Lopes conseguiu "roubar" tempo ao seu, dela, tempo, para nos brindar com o seu "testemunho". Que outros, até doutras áreas "ideologicas" o possam fazer.

Estou a gostar muito de a ler. Quando acabar voltarei ele, aqui neste Blog.

Agora, outra questão que me trouxe aqui, hoje, no 1.º Aniversário do Blog da Joana Lopes.

Quando o Professor Emidio Guerreio festejou os seus 100 anos, fizeram-lhe um homenagem, na sua Guimarães natal.

Quando o Edmudo Pedro (o mais jovem comunista a malhar no Campo de Concentração do Tarrafal) festejou os seus oitenta anos, fizeram-lhe uma homenagem na sua Lisboa de adopção.

Quando o antifascista e luareiro Herminio da Palma Inácio, fez oitenta décadas de vida, outra homenagem nacional estralejou.

Quando o médico, Fernando Valle, comemorou o seu centenário, outra homenagem nacional arrebentou.

E já nem estou a falar das homenagens e honrarias que o Estado e a Chancelaria das Comendas e Ordens lhes atribuiu, a cada um deles, pelas causas da Liberdade que abraçaram!

O que aqui quero deixar sugerido é:

1- Porque não aproveitar-se a efeméride próxima, de vida, da cidadã Joana Lopes e organizar-se-lhe uma homenagem, pública e, porque não?, nacional;

2- Nesta homenagem, simbolicamente, seriam honrados as élites católicas que, nos anos de brasa da década de 60 do século XX deram o corpo ao manifesto na luta contrra o fascismo lusitano.

E mais não digo.

JA

PS - Ainda não fui à bruxa nem, por pudor, lá irei...

Andoche Junot

Andoche Junot, maçon, entrou com as suas tropas em Lisboa. Vai fazer ou já fez 200 anos. Napoleão tinha sido coroado imperador pelo Papa da Igreja Católica, Apostólica e Romana. Maçon, Junot quis ser grão-mestre da maçonaria portuguesa, o que lhe foi recusado pelos maçons portugueses. Futuro rei de Portugal, como esperava e declara vir a ser, quis que na Maçonaria o retrato de D. João VI fosse substituído pelo retrato de Napoleão. A maçonaria portuguesa recusou. E que fez a Igreja Católica, Apostólica e Romana, perante este jacobino? Deu-lhe laudas e em pastorais dos seus bispos, aconselhou os fiéis a aclamaram-no, ajudando-o, denunciando e o mais que aprouvesse à hierarquia da Igreja. É Luz Soriano, na sua lucidez e rigor, que regista para o futuro as pastorais da ignomínia dos bispos-chave da hieraquia da Igreja Católica em Portugal. Recordemos alguns extractos. O cardeal patriarca de Lisboa, José Francisco de Mendonça, apela, na sua pastoral, a ler em todas as igrejas da cidade de Lisboa: "Não temais, amados filhos, vivei seguros em vossas casas e fora delas; lembrai-vos de que este exército é de sua majestade o imperador dos franceses e rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar e proteger a religião e fazer a felicidade dos povos: vós sabeis, o mundo todo sabe. Confiai com segurança inalterável neste homem prodigioso, desconhecido a todos os séculos; ele derramará sobre nós as felicidades da paz, se vós respeitardes as suas determinações, se vos amardes todos mutuamente, nacionais e estrangeiros, com fraternal caridade".
É raro ler um texto com tanta hipocrisia, quando todo um povo começava a ser violado e violentado e as igrejas saqueadas.
Também o bispo do Porto, António José de Castro ( embora mais tarde se arrependa da pastoral da ignomínia e adira à Junta Patriótica do Porto), divulga entre os fiéis do seu rebanho: "Estas tropas que aqui vedes entrar, são nossas aliadas e pacíficas, e quam as manda entrar tem sido prevenido e armado por Deus de poder e sabedoria para as fazer entrar e para as saber dirigir a fim da nossa felicidade, e devemos seguramente confiar no mesmo Senhor que não seja outro o seu destino. Sim, o Immperador dos franceses e Rei de Itália, o Grande Napoleão, não poderia de outro modo servir-se de nós para aumentar a sua glória verdadeira, senão fazendo-nos felizes. Não é crível que na grandeza sem igual do seu coração, no ardente desejo da sua glória, pudesse entrar em Portugal para outro fim. Este grande imperador, elevado sobre o trono dos seus triunfos, tem unido a eles a glória de fazer dominar a nossa santa religião nos seus estados (...)
Os templos estão cheios destes militares que edificam, e que por tudo nos poem interiormente na necessidade de os amarmos como próprios filhos, e exteriormente na obrigação de darmos este testemunho público da nossa satisfação e do seu merecimento. Esperamos que este testemunho fundado já na experiência e conhecimento destas tropas religiosas, pacíficas e bem disciplinadas, vá servir não só para desvanecer aos vossos ânimos qualquer receio que vos pudesse causar a sua entrada, mas também para mostrar a obrigação em que estamos todos de praticar com elas todos os bons ofícios da caridade e de hospitalidade, como se fossem nossas próprias, e ainda mais por se acharem fora do seu país".

Trata-se é certo de uma encomneda de Roma, vinda do Papa que consagrara Napoleão como Imperador. Mas também não era necessário tanto exagero...
Por último, leiamos a pastoral de inconsútil patriotismo do bispo titular do Algarve, José Mátia de Melo, confessor privativo da louca D. Maria I : " É necessário ser fiel aos imutáveis decretos da divina providência e, para o ser, devemos, primeiro que tudo, com coração contrito e humilhado, agradecer-lhes e tantos e tão contínuos benefícios que da sua liberal mão temos recebido, sendo um deles a boa ordem e quietação com que neste reino tem sido recebido um grande exército, o qual, vindo em nosso socorro, nos dá bem fundadas esperanças de felicidade.
Este benefício igualmenmte o devemos à actividade e boa direcção do general em chefe que o comanda, cujas virtudes são por ele há muito tempo conhecidas. Lembrem-se que este exército é de sua majestade o imperador dos franceses e rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar e proteger a religião e fazer a felicidade dos povos. Confiai com segurança neste homem prodigioso, desconhecido de todos os séculos; ele derramará a felicidade da paz, se respeitarem as suas determinações, e se amarem todos, nacionais e estrangeiros, com fraternal caridade. Deste modo a religião e os seus ministros serão respeitados, não serão violadas as clausuras de esposas do Senhor, e todo o povo será feliz, merecendo tão alta protecção".

O bispo do Algarve estava preocupadíssimo com a virtude das 'esposas do senhor' ( freiras em linguagem corrente). A subtância das três homilias tem uma raiz comum: a directriz do Papado para não molestar Napoleão, mesmo que Napoleão molestasse nações inteiras. A real politik do Vaticano consegue conciliar a conciliação com o Poder profano à hipocrisia da justificação do poder sagrado. Hoje como ontem...
Rogério Rodrigues

sexta-feira, abril 11, 2008

O cotejo do Decálogo hebraico com o da vulgata católica

Na actualidade, como se transmutaram os Mandamentos biblicos?

No Catecismo canónico, aprovado pelo Sinodo dos Bispos, assim se encontram eles:

"1 - Primeiro: Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas.
2- Segundo: Não invocar o Seu santo nome em vão.
3- Terceiro: Guardar os domingos e festas.
4- Quarto:Honrar pai e mãe (e os outros legitimos superiores).
Quinto: Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo).
Sexto: Não pecar contra a castidade (em palavras ou em obras).
Sétimo: Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
Oitavo: Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo).
Nono: Não desejarás a a mulher do próximo.
Décimo: Não cobiçarás as coisas alheias."

Cá estamos nós.

Observe-se,por exemplo,a "misogenia", desajustada aos nossos tempos, do Nono mandamento.

Se se consegue perceber o mandamento fundador, o hebraico, que inclui a mulher num listing determinante para a sobrevivência da comunidade, por inteiro, naqueles tempos de deserto,hoje não se consegue alcançar o objecto deste preceito.

JA

Os 10 Mandamentos...hebraicos, II.

Continuemos, pois,a "publicação" dos 10 Mandamentos, não os canónicos, mas os fundadores, fonte viçosa, em meu entender, de utilidade maior para os nossos dias e pedra angular para a "refundação" urgente da corrente cristica e salvifica que se transmutou, sobranceiramente em religião de estado e, ainda, CATÒLICA!

Tinhamos parado no 4.º.

Retomemos, então, a partir do 5.º.

"5- Honra o teu pai e a tua mãe, de modo que os teus dias se prolonguem sobre a terra que YHVH, teu Deus, te deu.

6- Não assassinarás [ou cometer homicídio, em hebraico lo tir cá.vit].

7- Não cometerás adultério [em hebraico lo tin-àf]

8- Não furtarás.

9 Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.

10 - Não cobiçarás [em hebraico, lo thahh.módh] a casa do próximo, nem a mulher do teu próximo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu touro, nem o seu jumento, nem qualquer coisa que pertença ao teu próximo..."

Fim de edição.

Um nota singular: os 10 Mandamentos, recebidos por Moisés, foram entregues no Monte Sinai ao povo hebreu, às tribos d'Israel, por Du's, através de Moshé, mas separadamente do restante da TORÁ (ensinamentos).

Em hebraico, o número de letras dos 10 Mandamentos (os originais) é igual a 613, igualando o número de ensinamentos da TORÁ e, somados entre si, 6+3+1=10!

Quem se interesse pela numerologia e pela simbólica dos números...tem aqui um imenso campo de especulação e de interpelações!

Os 10 Mandamentos estruturam-se e dividem-se em versículos. Flávio Josefo, o grande historiador do Povo Judeu, é o primeiro a dividir, a arrumar os versículos e, de certo modo, é o "inventor" do Decálogo Biblico. A sua proposta vai ser "revista" por outros, nomeadamente pelo futuro doutor da Igreja Cristica: Santo Agostinho. É esta divisão que há-de ser "canonizada" e presidirá, depois, à criação da vulgata católica, que, muitos de nós, aprendemos na "catequese"!

J.A.

quinta-feira, abril 10, 2008

Os 10 Mandamentos...hebraicos.

Mircea Eliade, personagem polémico, singular, mas incontornável para quem gosta e se dedica a estudar os fenómenos atinentes às religiões, enquanto "escrúpulo",à mitologia, ao verbo, enquanto signo, terá dito: "A religião é a moral dos povos".

Hoje, apetece-me discorrer um pedaço sobre os 10 Mandamentos, não os da vulgata católica, mas sobre os originais, os hebraicos, entregues a Moisés e que serviram para estabelecer a Aliança entre YHVH e as tribos de Israel na fuga da diáspora no Egipto.

Estes Mandamentos estão vertidos no livro biblico do Êxodo 20:2-17 e repetidos no Deuterónimo 5:6-21.

Moisés "recebeu" as Tábuas no monte Horebe, na peninsula do Sinai quando encaminhava as tribos para a terra prometida d'Israel.

Aqui ficam:
"1- Eu sou YHVH, teu Deus [Elo.hím], que te fez sair da terra do Egipto, da casa dos escravos. Não terás outros deuses que ME [o Deus de Abraão]desafiem.

2-Não farás imagem esculpida [em hebraico péshel, equivalente a ídolos],que se pareça com o que há em cima nos céus, nem na terra, nem na águas por debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes prestarás culto, porque eu, YHVH, teu deus, sou Deus zeloso "Deus que exige devoção exclusiva" ou "Deus ciumento"; em hebraico El qan,ná e em grego Theós zelotes], e que pune o erro dos pais nos filhos até à terceira geração e ainda sobre a quarta geração dos que me odeiam, mas que uso da benevolência até à milésima geração dos que me amam e que cumprem os meus Mandamentos.

3-Não usarás o nome de YHVH, teu Deus, em vão [ou "de modo fítil", blasfémia] pois YHVH não considerará impunes os que usarem o seu nome em vão.

4-Lembra-te do dia do Sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o Sábado [em hebraico, shab.báth]de YHVH, teu Deus.Nesse dia não farás trabalho algum. Nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está adentro das tuas portas. Porque em seis dias fez YHV o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há e ao sétimo dia descansou. Por isso o YHVH abençoou o dia do Sábado e o santificou."

Fico-me por aqui.

Amanhã continuarei até ao décimo.

Só YVHV é que laborou seis dias seguidos! Eu não posso tanto.

José Albergaria

quarta-feira, abril 09, 2008

O visual

Os blogs semelham muito cada um de nós.

Por vezes, ao acordar, mirando o espelho, não gostámos do que vemos.

Hoje, o Aqueduto Livre não gostou de se ver ao espelho.

Foi recauchutar-se e, com a promessa de, hoje em diante, discorrer, todos os dias, como soe dizer-se em "blogês": sobre o que lhe der na veneta.

José Albergaria

segunda-feira, março 31, 2008

Frases & poemitas

"Sou amigo de Platão, mas amo a verdade!" Aristóteles.
"Só sei que nada sei." Sócrates
"Eu, nem isso sei." Pirro de Eleia


POETA MAIOR
A António Machado, poeta, maçon, sevilhano, andaluz, 26 de Julho de 1875, Sevilha a 22 de Fevereiro de 1939, Collioune/França.

Poeta, irmão
A tua terra,
Feita de mar,
Cerzida de verdes,
Paleta d’ocres,
Bordada a branco,
Pontilhada de negro,
Desenhou-te!

Impressiva, marcou teu “poemar”!

Pela campina,
Andaluza,
Ruminam toiros pelos pastos,
Para,
Soberbos, telúricos,
Estrelarem,
Quais actores circenses,
Em tardes,
Humanas,
D’heroísmo gratuito!

A tua poesia,
Luzeira,
Préclara,
Solar,
Semelha uma tarde d’Estio!


António,
Viveste o sonho republicano.
Partiste, destroçado,
À deriva,
Pelos trilhos funestos
Do amargo exílio.


Carregando a dor,
No colo de tua mãe,
Sucumbiste
De tristeza e saudade,
Nos caminhos parados
De “Collioune” a francesa.

António, meu irmão,
A tua memória atravessa
O arco-Íris da Espanha
Toda!

A tua poesia, poeta, essa
Vive no coração da humanidade

Toda!

António Machado,
Em teu louvor,
Seja esse o meu fado,
Eu, caminheiro audaz e sem pudor,
Hei-de reverdecer os antigos trilhos,
Caminhando,
Incipiente e inseguro,
Em silêncio, pela tua poesia

Toda!


Agosto 2006

José Albergaria

terça-feira, março 25, 2008

A beleza

la belleza
solo está
en los ojos
de quiem mira.

(CampoAmor)

segunda-feira, março 17, 2008

liberdades

sou a favor das manifestações quando elas pretendem que algo se mude, para melhor, ou melhor dito, para uma melhoria. Sou a favor das manifestações que tudo recusam, rejeitam e reivindicam liberdades individuais e comportamentais, como proibido proibir, a praia no asfalto, a avaliação pelo sotaque.

Sou a favor das manifestações que querem mudar. Custa-me a compreender as manifestações que querem manter o que está, sabendo que o que está não está certo estar e que há anos atrás combateram por estar. Lembro-me das decisões do Cardia, enquanto ministro da educação e que agora são defendidas, 20 anos depois, depois de tão criticadas, na rua, nas paredes, no parlamento e nos jornais. L'air du temps dá destas coisas.

Lembro-me da "geração rasca" que foi adulterada neste modelo educativo.

Já me custa a compreender manifestações com o gato escondido com o rabo de fora. Manifestações de conteudo de classe ou casta, mnifestações reclamadas de reivindicações meramente profissionais, expressam-se nas palavras de ordem, na expressão mediática como meras manisfestações políticas, do inclemente bota-abaixo, sem uma alternativa, um aceno do bota-acima.

Já muitas vezes, em 30 anos de Democracia ( quase sempre mais formal que participativa, mas sufragada no voto secreto, muitas vezes em contramão ao voto da rua) assistimos a este paradoxo: a ilusão do poder acreditar-se poder real.

O PCP, por exemplo,domina a Fenprof, tem capacidade organizativa, alimenta-se do resentimento, bajula a facilidade, apela ao estômago mais do que à cabeça e ao coração, o PCP, hoje um "produto menor" --nas suas propostas e não no seu direito-- da Democracia ( e não se esquecem os seus contributos para uma resistência ao fascismo, mas que nós, que saibamos, não vivemos no fascismo e as gerações mais novas já foram criadas nos vícios e virtudes da democracia), tem sempre combatido mais os governos de esquerda que os governos de direita, sejam eles liderados por Soares, Guterres ou Sócrates.

Tentar alguém dizer que o PCP, por ele próprio, e pela CGTP não manipulou a manifestação dos professores ou é ingenuidade ou condição de avestruz. Nenhuma organização de classe poderia colocar no Terreiro do Paço 100 mil pessoas. Para o PCP terá sido uma espécie de Festa do Avante! para docentes e afins.

Os professores querem ser avaliados mas ainda não agora. As vitórias de Pirro são proclamadas como grandes vitórias e nem sequer se lemram da célebre frase do aristoircrat latifundiário siciliano de "O Leopardo" de Tommasi Lampedusa, quando diz: " `E preciso mudar qualquer coisa para que tudo fique na mesma".
O que é que a Fenprof e o PCP conseguiram mudar? A qualidade do ensino? A qualidade dos professores? A sua dignificação pedagógica? A sua maior intervenção na comunidade? Ou tratou-se de uma mera reivindicação laboral escondida numa não muito trasparente reivindicação à avaliação, híbrida nas suas vertentes pedagógica e salarial?

( Zé, não sei como é que isto vai chegar ao blogue, pois perdi a primeira versão e não sei se esta chega emcondições. Coisas de aprendiz de blogue. Com o treino vamos lá).
Pedro Castelhano




quarta-feira, março 12, 2008

O sal e a pimenta

Contrariamente a um mito instalado, o sal e a pimenta não têm, ab initio, a intenção de fornecer sabores acrescidos aos alimentos.


A sua importância situava-se, antes da congelação e dos frigorificos, na necessária, quanto vital, urgência na preservação dos alimentos.


Daqui decorreu, durante anos, décadas, séculos mesmo, o enorme papel que o sal teve na nossa economia, nas nossas exportações, na nossa balança comercial.


A epopeia dos Mares, as descobertas, a Expansão marítima, assentou, precisamente, na demanda das especiarias, não para temperar, mas, ao invés, para preservar.


Hoje, o significado virou significante, alterou-se a qualidade da coisa.


Ao misturar o sal, a pimenta, nos produtos alimentares, naqueles idos do medievo, iniciou-se um processo de alteração nos sabores, na textura e no modo de degustar as comidas.


Hoje tem-se em conta o sal nas doenças do século: as hipertensões, os AVC, as maleitas das coronárias, o colesterol e tuti et quanti!


Mas este post não visa, longe disso, circundar a alimentação, os gostos e sabores e, menos ainda, perorar sobre saúde.


As relações humanas carecem, como aprendi nas teorias sobre comunicação e relações interpessoais, de uma dose de tensão, de conflitualidade, de algum sal e pimenta, que renovam e trasmutam as qualidades do próprio relacionamento, de amizade, de companheirismo, de camaradagem, de amor, até.


Quando a relação está confusa ou até mortiça, acrescenta-se um pouco de sal, pimenta a gosto e deixa-se (por vezes é aconselhável, em lume brando, para não se perderem os sucos e as propriedades das matérias primas...


Mas ele há casos, em que já não basta o sal e a pimenta. É necessário outro tipo de condimentos: humildade, frontalidade, lealdade, e, sobretudo, um entendimento universal sobre categorias que são "absolutos", sendo a AMIZADE um deles.


Basta de gastronomia!


José Albergaria

terça-feira, março 11, 2008

E, uma vez mais, a AMIZADE...


AMIZADE

Na vida, nos seus sobressaltos,
Tropeçámos, a cada passo;

No amor, nos seus solavancos,
Tropeçámos, a cada curva;

Na política, nos seus ziguezagues,
Tropeçámos, em cada ciclo;

Na fé, nas suas igrejas,
Tropeçámos, por cada conversão;

Na guerra, nas suas funestas misérias,
Tropeçámos, malgrado o nosso não querer;

Na amizade, amor fraterno,
Tropeçámos, é certo, mas
Nos alevantámos
Sempre!


Agosto 2006


José Albergaria

E porque hoje é terça-feira (dia em que festejamos a amizade) apetece-me falar de Escola Pública...

Pelas terças-feiras, festejamos a amizade em luzidia tertúlia.

Na tertúlia tudo se questiona, tudo se discute, todas as certezas se tornam relativas.

Respeitamos TODAS as singularidades, TODAS as opiniões, todas as sensibilidades.

Falámos do Sócrates, falámos da Saúde, da Educação, da Segurança.

Não gostámos deste Ministro, daquele Secretário de Estado, daquele Director Geral.

Gostámos de literatura, de cinema, de história e, também, de "gajas", de bom vinho, de boa comida e de viagens.

Discutimos, bastas vezes, como salvar a Pátria.

Mas, como dizia o outro, só nos falta mesmo é "salvá-la!"

Mas, na NOSSA tertúlia, como aqui, neste blog, que agora se recentrou, exclusivamente, para os seus "fundadores", há coisas que não têm discussão, que são ABSOLUTOS:

1/ A LIBERDADE!

2/ A AMIZADE!

É por amor a estes dois princípios indiscutíveis e incontornáveis que temos a LIBERDADE (e o fazemos consistentemente) de escolher os NOSSOS amigos!...

José Albergaria

PS - Não falei de Escola Pública?...impúdico esquecimento!

Hoje já não me calha.

A amizade é SEMPRE mais importante do que TUDO o resto e, mesmo, a SOMA da vida.

sexta-feira, março 07, 2008

Uma ladainha que eu muito gosto

"Chi vó non pó
Chi pó non vó
Chi fá non sá
Chi sá non fá
E cosi vá il
Mondo molto male..."


De autor que eu desconheço.

José Albergaria

Pessimismo versus optimismo

Nestes tempos em que o principio da incerteza e as insanidades dominam os povos, os estados e apoderam-se muitas das vezes dos líderes nacionais, este confronto dual, entre optimistas e pessimistas, adquire contornos impressivos.

Há até aquele trocadilho que vem sempre a calhar nesta disputa entre a qualidade do PESSIMISTA e a bondade do OPTIMISTA:

1- O optimista é um pessimista bem informado;
2- O pessimista não passa dum optimista bem informado.

As abordagens à realidade mutante e actual, podem fazer-se de modos vários.

É, sempre, possível falar e/ou escrever sobre qualquer assunto a partir de sensações, sentimentos, insuficiência de informação. No entanto, em temas de melindre, polémicos, em torno dos quais se foram segregando demasiados preconceitos, é de todo aconselhável prudência e, sobretudo, bom senso.

Ele há entusiasmos que nos levam, quando confrontados, por exemplo, com a História e a historiografia existente sobre o TEMA, a becos sem saída e, às vezes, nos empurram mesmo para uma certa impertinência e agressividade gratuíta.

A questão israelo-arabe, ou, mais precisamente, o confronto belicista israelo-palestino (os antigos filisteus da Biblia)é um desses casos, em torno do qual, recorrentemente, se dizem e fazem muitos disparates...

Quando nos remetemos ao nosso silêncio de incompetência e ignorância...tudo bem! Mas quando falámos, sem termos medo do ridículo,ou de modo irresponsável, aí já a porca torce o rabo.

Como dizia o romântico alemão, que tão bem versificou o "demónio", na alegoria do Dr. Faustus: "Nada é mais terrível que uma ignorância activa", Johann Wolfgang von Goethe.

Com pessimismo me despeço (porque o futuro futurável não se recomenda..)e com optimismo me subscrevo (porque acredito na humana Humanidade...),

José Albergaria