sexta-feira, julho 11, 2008

GILGAMESH


A epopeia de Gilgamesh é o relato da história do rei de Uruk, uma das cidades-estado da Mesopotâmia, na qual ele terá construído os muros amuralhados de defesa e de suporte.
A lista Suméria dos seus Reis escrita no principio do 2.º milénio antes da nossa era distingue um período pré-histórico, anterior ao Dilúvio e um outro, histórico, que sucede ao cataclismo.
Naquela lista, Gilgamesh faz parte da primeira dinastia após o Dilúvio e reina em Uruk cerca de 2600 a.c.
Gilgamesh é um herói, mas, as mais das vezes, mesmo um anti-herói, que incarna a dimensão à vez trágica e ridícula do ser humano em demanda duma vida inacessível, desejando escapar à morte.
Esta epopeia, de Gilgamesh é, provavelmente, a obra literária mais antiga de que temos conhecimento. É um poema épico que deveria ter, na origem, mais de três mil versos. Conhecemos menos de dois terços da obra original, encontrados em tabuinhas de argila e em escrita cuneiforme. A versão ainda assim mais completa chega-nos através dos achados arqueológicos feitos no que terá sido a biblioteca de Assurbanipal (669-630 a.c.), redigidos em Acádico.
É um belíssima história que vale a pena ser lida. As aventuras de Gilgamesh e do seu amigo Enkidu; o terrível Humbaba, o ogre monstruoso guardião da floresta dos Cedros no Líbano; o Touro-Celeste e a Deusa Ishtar (das mais importantes do panteão Sumério).
Gilgamesh é, no principio do seu reinado, arbitrário, tirano, arrogante, mas, depois, sob a influência do seu duplo, Enkidu, torna-se sábio e bom. Vão á procura da "planta da vida"... Leiam que vale bem a pena.
Um pedaçito da epopeia, coisa pouca, para abrir o apetite de quem não conhece: "Para onde corres tu, Gilgamesh? A vida que tu persegues, não a encontrarás. Quando os deuses criaram a humanidade foi a morte que estes lhe reservaram! A imortalidade, essa, eles guardaram-na para si mesmos. Tu, Gilgamesh, que o teu ventre esteja sempre farto! Dia e noite, felicita-te! Em cada dia, goza-o! Dança e diverte-te! Que a tua bem amada tenha prazer em teus braços! Tal deve ser a ocupação dos homens."
JA


As cerejas, devido às intempéries, já não são o que eram.

No blogue de Vítor Dias, O Tempo das Cerejas, dá-se conta do desaparecimento deste colombiano, casado com uma mulher de nome Betancur e com uma filha pequena.
É comunista, autarca e dirigente sindical.
Tudo indica que tenha sido sequestrado pela policia metropolitana de Bogotá, às ordens de Uribe. A família tem feito démarches para saber do seu paradeiro: debalde. Nada se sabe.
Como se condena, e bem, os sequestros "revolucionários" das FARC, aqui fica o meu repúdio por este atentado ao mais elementar dos direitos humanos: a liberdade.
Uma sugestão: as FARC, movimento marxista-leninista, que se autonomizou do Partido Comunista da Colômbia (vide artigo de Miguel Urbano Rodrigues, in Avante), que pratica o sequestro como arma política, porque não propõe uma "troca" de reféns? Trocar Guillermo Rivera Fúquene por....Então, se ao tempo de Brejenev o PCUS trocou dissidentes soviéticos pelo SG do PCChileno, Luís Córvalan....há,pois, doutrina e praxis sobre a matéria.
JA
PS - Então é o camarada Carlos Almeida, quase três meses após esta ocorrência do sequestro de Fúquene, que passa a informação a Vítor Dias?...
Onde já vai o tempo (das cerejas?!...) em que Vítor Dias, membro da Comissão Política do PCP - era o homem mais bem informado de todos quantos "trabalhavam" a "informação".

quinta-feira, julho 10, 2008

O Bastonário da Ordem dos Advogados fala claro...e bem.


O Bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Marinho e Pinto, ontem, em Leiria e, hoje, na RTP em entrevista à jornalista Judite Sousa "escaqueirou" o sistema judicial português, os Juízes, Magistrados, Procuradores e, particularmente, o Sindicalismo dos titulares dum dos Órgãos de Soberania: os Juízes.

Fê-lo no seu estilo peculiar, que lhe é próprio, truculento, mas SEMPRE frontal e transparente!

Gostei.

José Albergaria

O Humor: essa insustentável leveza literária.

A revista francesa "Magazine Littéraire" de Julho-Agosto de 2008 publica um interessante, quanto desconcertante, dossier sobre o Humor (no sentido que os ingleses lhe atribuem)e a literatura.

"O humor é aquilo que resiste ás dores, que escapa às malfeitorias: à Morte (um supino remédio contra a dor de dentes, como o afirmava, gostosamente, Georges Brassens), às canalhices dos homens, dos tiranos, de Deus, da paixão, a todas as categorias de infortúnio. É pelo Humor que nos salvamos da gravidade: sem o qual o dandi, não é mais do que um snob; sem o qual o sábio não é mais que um poltrão. É salvar-se da malquerença, com um sorriso, quando a ironia, ao contrário, é uma estratégia, um sistema, uma doutrina. (...) Na ironia, ao contrário, rimos contra o outro, mesmo contra si mesmo. O humor perdoa e compreende, aí onde a ironia despreza e condena. O humor apazigua, a ironia magoa. O humor é um escudo (contra a morte?). A ironia é uma espada (contra o mal?). Quando um protege, o outro separa."

Ora que belo tema para a nossa blogoesfera!
A distinção entre o humor, os que têm graça e são tocados pela graça da elegância ética e da estética e os rudes, ruidosos, prenhes de ironia - que magoam, que melindram, que separam. Os que se gastam, e desgastam, na adjectivação bacoca, oca e vazia de substância (avinagrado, verme, trafulha, "caro", de baixo QI,morder e etc)pretendem alcançar, não o Humor, mas a Ironia rasteira e assassina!

Para remate de conversa, um exemplo espantoso de humor.

Um homem de ciência, ao tempo do Terror na revolução francesa, condenado à guilhotina, já na carreta de condenado, é interpelado sobre uma questão científica. Resposta do sábio, do condenado: "Irei reflectir sobre isso, mais tarde, e com a cabeça bem repousada".

JA

terça-feira, julho 08, 2008

Menina e Moça

É dos textos mais misteriosos, tanto quanto ao autor, Bernardim Ribeiro, de quem muito pouco se sabe (terá nascido no Torrão, em fins do quatrocento e morrido para lá dos meados de quinhentos...), como quanto ao corpus literário - sobre o qual existem múltiplas leituras...
Referências dos contemporâneos,que com ele peitaram, Sá de Miranda e Luís de Camões, poucas ou quase nenhumas!...
"Menina e Moça" livro de espantar, ainda hoje se lê com mor deleite e prazer infindo.
Em edição critica, Teresa Amado se lhe refere, com desfalecimento, deste modo: " Já atrás me referi a algo que para mim se tornou uma certeza: que a Menina e Moça não é obra duma escrita «romanesca» no sentido em que o romance seja arte representativa, mas sim duma escrita em que domina o estilo que poderia chamar-se «transfigurativo» porque produz a imagem invisível - psíquica, espiritual- dum real que, aparentemente, pinta, ou, inversamente, transforma em história, pessoas e coisas, os objectos espirituais a que, efectivamente, se refere."
Mas o que importa é conviver com Bernardim Ribeiro e com o seu Menina e Moça.
Leia-se a entrada, o "Monólogo da Menina": "Menina e moça me levaram desta casa de minha mãi para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez triste ou, per ventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha."
Que prazer na leitura e nas releituras que se fazem, ou podem fazer, desta obra maior do Cancioneiro de Garcia de Resende!
Foi por este contemporâneo deleite que postei Bernardim e a sua Menina e Moça.
JA

segunda-feira, julho 07, 2008

Rui Bebiano é um Homem Honrado!

Na "polémica" recente, que com ele travei na blogooesfera, a partir dum debate publicado na revista Le Magazine Littéraire, nº 477, entre Pierre Nora e Élie Barnavi, sobre História e Memória (e não só...), fui duro e, porventura, excessivamente exigente com o meu respeitado historiador e activíssimo blogger.
O modo, o tom e a forma, que Rui Bebiano utilizou para me responder e, sobretudo, o facto de ter integrado a minha critica nos dois blogues onde participa (A Terceira Noite e Caminhos da Memória) denotam um Homem probo, honrado e, intelectualmente, duma ética à prova de bala.

Fico contente por reconfirmar as impressões que dele tinha colhido, quando comecei a conviver com a sua escrita, opinativa, militante e cientifica.

Bem haja pela elevação com que tratou a minha critica.

José Albergaria

NB - Voltarei, com gosto redobrado, ao debate que iniciei sobre o tema, que o Rui Bebiano introduziu...mas, somente, para a semana próxima.

Para me apaziguar, uma e outra vez, Maria Gabriela Llansol.

Esta é a mesa de trabalho que foi de Gabriela Llansol e que pode ser vista no "Espaço Llansol", em Sintra.

Mas, o que a mim me importa é deixar falar a minha escritora, a que me foi revelada, não como uma religião, como um deus, mas como uma estética e, hei-de ainda descobri-lo - como uma ética!

Daquele maravilhoso Livro, " O Começo De Um Livro É Precioso", com desenhos de Ilda David e com a chancela da Assírio & Alvim:

"6

Também se pode deixar cair a alma. Dá-se na troca dos passeios.

Dou-me conta. Não me iludo. Frases breves e passos breves.

Nesta vista cresci, mesmo se por vezes meu movimento se coalha

De reflexos multiplicados. Sempre terei de comer e beber.

O que mais noto para comer é o silêncio.

No que reparo mais para beber é a cor."

Eu sempre achei, que o beber nos enchia, a vida e a alma,de cores!José Albergaria

domingo, julho 06, 2008

Rui Bebiano: historiador ou ideólogo?!...


Estou furioso.

Leitor atento e devotado de Rui Bebiano, inicialmente, no "A Terceira Noite" e, hoje, no "Caminhos da Memória" construi dele a ideia de pessoa rigorosa (a sua biografia no Caminhos da Memória atestam-no), competente, sério e cultor duma certa ética enquanto historiador, ao modo de Heródoto. o pai da História.

Por essa razões, por esse convencimento, quando li o poste que RB publicou a pretexto dum "debate" entre Pierre Nora e Élie Barnavi, judeu nascido em Bucarest, na Roménia, aderi logo à proposta de RB e aceitei o desafio de particpar no debate sobre um tema que me interessa sobremaneira: história e memória e a ética do historiador enquanto cidadão.

Dei, nem tinha razões para que não fosse assim, como boas e rigorosas as citações e as traduções a partir do francês, da responsabilidade de RB.

Aceitei, de caras, sem hesitação, que estavamos perante "duas formas absolutamente opostas de olhar a relação entre memória e história".

Por todas estas razôes dediquei-lhe, ao poste e ao tema do RB, aqui no Aqueduto Livre, longuíssimo poste, com múltiplas, diversificadas referências e citações que me pareceram bastantes para uma primeira etapa do debate,

Ontem, Sábado, dia 5 de Julho comprei a revista "Le Magazine Littéraire", n.º 477 de Juillet-Août de 2008, onde está publicado o "Débat, Élie Barnavi e Pierre Nora, la fin de l´hiostoire?" (chamada de capa).

Li a peça uma, duas, três vezes e fiquei furioso, mesmo muito zangado,para não dizer estupefacto!

E porquê? Por que não encontrei lá nada, mesmo nada, daquilo que o RB sugeriu no seu poste.

Encontrei mesmo frases que o RB traduziu pessimamente, distorcendo-as e alterando-lhes o sentido:GRAVE, muito grave!

O trabalho de alfaiate, de corte e cola, feito por RB com as respostas dos dois eminentes historiadores, para casar uma tese sua, um preconceito seu,uma convicção sua ...inenarrável!

O modo como RB fatia as respostas de Pierre Nora e Élie Barnavi são do dominio, no minimo, da manipulação impúdica, direi mesmo, a roçar uma certa imoralidade!

Estou a exagerar? Vamos ver.

Para demonstrar o que digo, publico, integralmente, o poste de RB e vou atribuir números às frases traduzidas e utilizadas por RB, para, mais facilmente, as poder analisar e criticar:

"O número de Julho-Agosto do Magazine Littéraire transporta consigo, para além de um notável dossiê sobre as conexões entre humor e literatura, a reprodução de uma conversa – «L’Histoire, victime de la mémoire?» – entre o académico Pierre Nora, actual director da revista Débat e autor do incontornável Les Lieux de la Mémoire, e Élie Barnavi, professor da universidade de Tel Aviv e conselheiro científico do Museu da Europa, em Bruxelas. Mais do que a exposição de duas formas absolutamente opostas de olhar a relação entre memória e história, ela serve para ajudar a desmistificar a ideia segundo a qual esta última é um saber frio e unívoco, do qual os valores da subjectividade e da cidadania se devem manter desejavelmente afastados.
Traduzindo os destaques (que sugerem muito bem o tom de toda a conversa a duas vozes):
1/Barnavi: «A História tem sido notificada para se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História parece-me uma das características mais graves da nossa época.»
2/Nora: «O tempo no qual os positivistas conservavam à distância a história contemporânea parece hoje completamente ultrapassado. Fazer História é fazer história contemporânea.»
3/Barnavi: «Um dos males que corrói a nossa época é a confusão de papéis entre o historiador e o ideólogo.»
4/Nora: «A memória incorpora doravante uma reivindicação particularista, subjectiva e peremptória, quando não terrorista.»
Um debate que é para (e que deve) continuar." Rui Bebiano, in "Os Caminhos da
Memória"

Comecemos pelo principio.

E o principio é o TEMA do próprio debate proposto pela revista:"L'Histoire, victime de la mémoire? Les historiens ont perdu le monopole de l'interprétation du passé. Les interventions de l'État et les revendications identitaires grandissantes sont-elles en train dímposer un nouveau sens à l'Histoire?"

Este é o titulo completo e o TEMA proposto pela revista.

Ainda na introdução, da responsabilidade do jornalista que faz as perguntas e que recolhe as respostas, Alexis Lacroix, encontramos outros tantos subtemas de mor importância para os historiadores e para a historiografia:"La France est-elle toujours la patrie des historiens? Y a-t-il une vie aprés L'école des Annales fondée par Marc Bloch et Lucien Febvre? L'accéleration de l'Histoire, conjuguée aux nouveux usages de la mémoire, est-elle en train de priver l'historiens d'audience et de légitimité? Pourquoi l'État veut-il patrimonialiser les Archives? Pour débattre de ces enjeux d'actualité, Le Magazine Littéraire a imvité deux historiens éminents, l'académecien Pierre Nora, directeur de la revue Débat, et le conseiller scientifique du musée de l'Éurope, Élie Barnavi."

Vamos então às frases "utilizadas" por RB, contrapondo-lhe a frase "completa" em francês e, depois, a minha tradução.:

1/Élie Barnavi:"Une science qui permet de toucher sinon toute la verité, du moins un pan de la verité. Jusqu'à une époque récente, la memoire avait valu surtout comme un matériau de l'historien. Le fait nouveau, c'est que, désormais, la mémoire s'émpare de l'Histoire. Ainsi l'Histoire est elle sommée de se mettre au service de la mémoire. Cette appropriation de l'Histoire par la mémoire me semble l'une des caractéristiques les plus graves de l'époque." "Uma ciência que permite alcançar senão toda a verdade, pelo menos uma fralda da verdade. Até uma época recente, a memória valia como material para o historiador. O facto novo é que, daqui em diante, a memória apoderou-se da História. Assim a História é intimada a se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História pela memória, parece-me, uma das características mais importantes desta época."

2/Pierre Nora:"Ce qui découle dábord de la politisation de l'Histoire, c'est sa contemporanéisation.Par «contemporanéisatio», j'entends la transformation de l'Histoire en une zone sensible, tributaire des tragédies récents du XXe siécle. L'époque où les positivistes tenaient à distance l'histoire contemporaine, saturée à leur goût d'enjeux passionnels, semble,aujourd'hui révolue. Faire de l'Histoire, c'est faire de l'histoire contemporaine." " O que dimana em principio da politização da história, é a sua «comtemporanização». Por «comtemporanização» eu entendo a transformação da História numa zona sensivel, tributária das tragédias recentes do século XX. A época na qual os positivistas mantinham à distância a história comtemporânea, saturada a seu gosto de paradas/jogadas passionais, parece, hoje em dia, ultrapassado. Fazer a História é fazer história contemporânea."

3/Élie Barnavi: «Le mal qui ronge notre époque, c'est la confusion entre le rôle de l'historien et celui de l'ideólogue.» «O mal que atormenta a nossa época é a confusão entre o papel do historiador e o do ideólogo.»

4/ Pierre Nora: «La mémoire porte désormais une revendication particulariste, subjective et péremptoire, quand elle n'est pas terroriste.» « A memória traz consigo, de ora em diante,uma reinvidicação particularista, subjectiva e peremptória, quando ela não é terrorista.»

Para já está feita a análise e alguma critica.

Quanto às Duas Vozes e às "...duas formas absolutamente opostas de olhar a relação..." só consegui descortinar o seguinte, e cito: "Pierre Nora: "Cela dit, contrairement à vous, je préfere au terme vérité historique, celui de realité. Pour bien souligner que la verité dont il s'agit est à la fois fragile et incertaine, et qu'elle relève d'un champ d'hypothèses."

O amor da verdade, a minha consciência e ainda porque me senti abusado, exigiram-me esta posição e este poste.

José Albergaria

sexta-feira, julho 04, 2008

Farc or not farc

Tenho lido com algum cuidado as reacções do PCP e do próprio Bloco de Esquerda sobre a libertação da Ingrid e outros reféns que até poderiam ser da CIA, da força repressora do Exército colombiano e sei lá o que mais. E o que me incomoda é que, apelidando o regime de Uribe de fascista, se possa aceitar ( pela omissão, pela vergonha da omissão) que pessoas, sejam elas quais foram, sejam raptadas. Se me disserem que é necessário protestar contra a morte de um sindicalista, seja pelo regime de Uribe, seja por outro regime, contem comigo, mas também exijo, como cidadão, democrata, de esquerda, que todo e qualquer rapto, toda e qualquer manifestação de força arbitrária facea um indivíduo ( seja ele qual for), todo o acto que viole os Direitos Humanos, o direito de defesa e de liberdade, também exijo que estejam do meu lado e condenem. E nesta condenação são contempladas as FARC, como força terrorista que se alimenta da cultura do narco ( dir-me-ão, também outras forças, mesmo as de Uribe se alimentam de tal, pois bem, condenemos Uribe, mas nunca deixemos de condenar as FARC), do "imposto revolucionário", da chantagem e de tudo o que há de mais degradante na luta política. Que eu saiba, o PCP foi sempre contra a luta armada, com o PC boliviano a abandonar Guevara, a condenar movimentos como as Brigadas Revolucionárias e as FP-25, bem mais pacíficas e com um ideário político bem mais definido que as FARC. Nunca o PCP aceitou como solução política a acção directa, nem o putchismo.. As FARC, além de ser anti-democráticas, são qualquer coisa de anti-leninista. Hoje, como aconteceu em outros grupos inicialmenete com uma génese revolucionária, não passam de mercenários que vivem do negócio do narco e do negócio do sequestro. Não lhes conheço qualquer ponta de ideologia, nem lhes reconheço qualquer respeito pelos direitos humanos. Só me falta ler um dia nalgum comentador do PCP que os direitos humanos não passam de uma imposição burguesa. A nota "informativa" do PCP é um exemplo da maior incomodidade e hipocrisia a que me foi dado assistir nos últimos tempos. Se de um lado há fascismo, mas é o lado de que nós não gostamos, o fascismo dos outros é compreensível. Esta visão primária só o Jerónimo de Sousa ou Bernardino Soares é que a podem aceitar. Porque é que não perguntam ao Manuel Gusmão, por exemplo, entre outros, o que pensa das FARC e desta libertação?Omitir o grande gesto que foi esta libertação, só por que foi do Governo de Uribe ( eleito, por muito que nos custe), de que também eu não gosto, e não condenar as FARC
leva-me a pensar que o PCP está mais preocupado com os agentes do que com os actos. E quando na próxima Festa do Avante! aparecer uma representação da FARC, convidada pelo PCP, não me venham dizer que se trata do sector político daquela organização terrorista. Até a hipocrisia tem um limite. Um pouco de respeito pelos outros não fazia nada mal.

Rogério Rodrigues

"História a duas vozes": uma discussão necessária. I

Rui Bebiano, historiador com obra publicada, professor, com actividade cívica pública e inequívoca, publicou, em dois blogues de referência em que colabora, empenhadamente, um muito interessante texto do qual transcrevo o essencial, mas que, de modo algum dispensa a sua leitura integral:
"Barnavi: «A História tem sido notificada para se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História parece-me uma das características mais graves da nossa época.»
Nora: «O tempo no qual os positivistas conservavam à distância a história contemporânea parece hoje completamente ultrapassado. Fazer História é fazer história contemporânea.»
Barnavi: «Um dos males que corrói a nossa época é a confusão de papéis entre o historiador e o ideólogo.»
Nora: «A memória incorpora doravante uma reivindicação particularista, subjectiva e peremptória, quando não terrorista.»
Um debate que é para (e que deve) continuar."
Rui Bebiano, in a Terceira Noite e Caminhos da Memória.

Pierre Nora, que eu conheço, é um historiador com créditos firmados na historiografia francesa da Nouvelle Histoire, herdeiros da segunda/terceira fase da Ecóle des Annalles, a de Fernand Braudel.

Barnavi,que eu desconheço de todo, mas como refere Rui Bebiano é um historiador Israelita a trabalhar, também, em Bruxelles.

Sugere Rui Bebiano, que se possa e deva debater estes dois pontos de vista. É, pois, o risco que vou correr e, porventura, incorrer numa enorme irresponsabilidade.

O objecto da história, o papel do historiador (o escritor de história...) é um problema velhíssimo. Heródoto, Tucídides, Michelet, Hegel e todos os contemporâneos, de que se destacaram, sem sombra de dúvidas Marc Bloch e Georges Duby. No entanto, em meu modesto entendimento, o NOSSO José Mattoso não fica nada mal nesta galeria, A epistemologia da história, a sua problemática imanente, é de longa data e continua a martirizar os historiadores.

Hegel tem uma expressão deveras feliz para colorir esta problemática: "Le probléme de l''histoire est l´histoire du probléme"

Três livros (há mais, muitos mais..., que abordam, penso eu, de modo impressivo e rigoroso esta problemática:
1/ Ensaios de Ego-História, sete autores e coordenação de Pierre Nora, Editions Gallimard, 1987 e Edições 70, 1989;

2/Cursos da Arrábida: A História: Entre Memória e Invenção, coordenação de Pedro Cardim, Publicações Europa-América, 1998;

3/Introduction à l'Histoire immédiate, Benoît Verhageen, Editions Duculot, 1974 (não conheço tradução para o português).

Pierre Nora na apresentação do seu projecto editorial sobre a ego-história diz coisas deveras interessantes: (...) "historiadores que procuram ser historiadores deles próprios. São documentos a tratar, como tal, por futuros historiadores, mas documentos em segundo grau; não aqueles que os historiadores utilizam em geral, mas aqueles que a certa altura aceitaram fazer sobre eles próprios." E diz mais, e aquilo que me parece curial trazer para este debate sugerido por RB: "Toda uma tradição científica levou os historiadores, desde há um século, a apagarem-se perante o seu trabalho, a dissimularem a personalidade por detrás do conhecimento, a barricarem-se por detrás das suas fichas, a evadirem-se para uma outra época, a não se exprimirem senão por intermédio de outros, permitindo-se fazer, na dedicatória da tese, no prefácio do ensaio, uma confidência furtiva."

Pierre Nora desafiou vários historiadores, com créditos firmados, reconhecidos pelos seus pares e pela comunidade científica como GRANDES e competentíssimos historiadores, para escreverem a sua, deles, própria história, mas que não fosse "nem autobiografia falsamente literária, nem confissões inutilmente íntimas, nem profissão de fé abstracta, nem tentativas de psicanálise selvagem."

O que está nesta obra é um tesouro imenso (Duby, Le Goff, Chaunu, Rémond, Perrot, Girardet, Agulhon e, claro está, mas ficando de fora como escritor, Pierre Nora), que nos permite entrar na discussão sugerida por RB, mediatizada pelo diálogo entre Nora e Barnavi.É a hora (gulosando Pessoa), para dirimir o quid dos que se dedicam à história: "De explicitar, como historiador, o elo entre a história que se fez e a história que vos fez."

Duby, um dos meus mestres, a par de Bloch e Paul Veyne (já me connfessei sobre os portugueses...)aborda, como incipit, no seu "o prazer do historiador", uma tese de Claude Simon: (...) "A narrativa que ele me fez foi, sem dúvida, falsa, artificial, como está condenada a sê-lo toda a narrativa de acontecimentos feita logo a seguir, a par do facto de, ao serem contados, os acontecimentos, os pormenores, os menús feitos, tomarem um aspecto solene, importante que nada lhes confere no momento(...)"

Chegados aqui importa dizer que, todo, o historiador que se dedique, escreva, investigue o que quer que seja, que se preocupe com as civilizações pré-classicas, com a Roma clássica, com a história do cristianismo, com a história dos comunismos ou, mais perto de nós, com a situação no Iraque, no Afeganistão ou, de mor actualidade, a situação dos reféns dos narco-guerrilheiros das FARC colombianas persegue, sempre, mas sempre um Graal: a verdade!

Mas, Duby, quer baralhar-nos: "Todo o historiador se extenua para conseguir a verdade; essa presa escapa-lhe sempre. Penso que estou quase a agarrá-la quando tento estabelecer o que foi a batalha de Bouvines ou a de Austerlitz. Mas se procurar descobrir como os homens amam ou crêem amar no século XII, vejo-a já a afastar-se. E a distãncia aumenta ainda quando me arrisco a relatar as minhas aventuras profissionais, dirigindo-me não só a seres que me conhecem, que me são queridos, mas a pessoas que nunca vi e das quais a maior parte lerá rapidamente estas páginas. Nem é fácil ordenar a sua própria memória. Como fazê-lo?".

Este post já vai longuíssimo, mas a questão suscitada por RB é enorme e persegue como se dum fantasma se tratasse todo e qualquer historiador e toda e qualquer historiografia.

Hei-de voltar a este tema, através doutras perspectivas, doutros olhares, de não historiadores, de historiadores portugueses (que me interessam sobremaneira...), mas agora quero rematar, terminar, com a ajuda de Le Goff, que, curiosamente, escapa às influências (as boas, as menos boas e as más...) do Maio de 1968 em França, porque estava, ironia da sua, dele, história,em Praga, nesse 1968!

Diz Jacques Le Goff, o que escreveu uma obra incontornável e de imenso impacte, Os Intelectuais na Idade Média, sobre esta problemática que nos assaltou, e bem, pela mão de RB: "Aquilo que procuro lembrar e lembrar-me é uma memória. Aquilo que me esforço por construir é uma história. Mas não está aí todo o trabalho do historiador? Uma das grandes aquisições da história, que se renova desde há cinquenta anos, foi ter alargado a sua documentação a tudo o que é memória. Ao documento tradicional, história morta, acrescentou o documento vivo." Mas, avisado oficiante, Le Goff alerta-nos, delicadamente, para o facto:"Desde a memória à história, o caminho é delicado, a transformação por vezes errónea e ilusória. Apenas posso garantir a minha boa fé e a utilização honesta do utensílio ainda imperfeito de que disponho (mas sei que boa fé e honestidade profissional são, em parte, ilusórias). Se esta referência não me esmagar sinto-me o Heródoto da minha própria história. Pudesse eu ser verdadeiramente um Heródoto!"

Ora aqui está,pois, modestíssimo contributo para a enorme questão que o Rui Bebiano suscitou.

Falemos,ainda, um pedaço de aspectos práticos que a questão suscita. e falemos de coisas bem recentes: a libertação de Ingrid Betancourt.

Ele há o fenómeno "acontecimental" ao modo definido por Paul Veyne: a sua libertação é um acontecimento, por si mesmo, e há-de ser um acontecimento histórico!

Mas, veja-se como, cada um de nós tratou este acontecimento (para não ser muito violenta a demanda...), coloque-se em linha os seguintes blogues, que sobre o acontecimento falaram: Corta Fitas, a Barbearia do Senhor Luís, Entre as Brumas da Memória, A Terceira Noite, Águia Lisa6, O Tempo das Cerejas e, eu próprio, aqui, no Aqueduto Livre.

Creio que, se pudessemos pedir a Pierre Nora e a Barnavi, para se debruçarem sobre estas fontes (os nossos blogues...) um e outro, uma e outra teoria, teria razão e demonstrariam, ambas, a sua eficiência epistemológica.Estou quase certo disso.


José Albergaria

NB - Falarei dos outros dois livros, que referi e que me parecem deveras adequados a esta problemática, em próximo poste.

quinta-feira, julho 03, 2008

Ingrid Betancourt foi libertada!

Estas foram algumas das imagens, que, ontem, dia 2 de Julho de 2008 correram mundo. Pelas informações veiculadas pelas autoridades colombianas, depois duma bem sucedida operação dos serviços secretos militares, 15 reféns, 3 americanos, 11 membros das forças da ordem colombianas e, a heroína, mulher duma fragilidade que remete para a invocação de Virgem Maria, Ingrid Betancourt, foram libertados!

Muitas leituras, interpretações, despautérios e até vitupérios, algumas insanidades irão ser produzidas sobre este acontecimento.

Contudo, o que importa reter, em minha opinião, é que foram resgatados, com vida, 15 pessoas que estavam reféns dos narco-guerrilheiros das FARC e que, entre eles se encontrava a ex-candidata à Presidência da Colômbia, mulher, aparentemente, frágil, duma coragem inaudita (para aguentar aquele cativeiro de seis anos, em condições inomináveis, é obra!).

Nas imagens, que ontem se viram num aeroporto colombiano, percebia-se, claramente, um aproveitamento da ocorrência , porventura excessivo, das autoridades militares e civis colombianas, mas a IMAGEM que dominava, a que se impunha, "esmagadora" era a da heroína, a contragosto, Ingrid Betancourt, que reflectia uma dignidade, uma grandeza (posso não concordar com a sua, dela, invocação da Virgem, a que se encomendava, dia após dia...durante o cativeiro) de que, em meu modesto entendimento, este nosso Mundo insano - andava carecido. Bem haja, Ingrid, por TUDO!

É mais do que justo assinalar aqui (e só falo do que sei e conheço...) que o meu amigo João Tunes e o seu magnifico Água Lisa6 foram dos mais militantes, contundentes e perseverantes, na blogoesfera nacional, a denunciar, a invocar e a exigir a libertação de Ingrid Betancourt. Fica o meu sublinhado e o meu agradecimento à militância de JT.

Agora, e ainda, mas sem emoções, comoções, ou espantações, do lado comunista, da Soeiro Pereira Gomes, ou mesmo do lado dos "argutos", severos, contundentes, atentíssimos comentadores da actualidade que flui, os bloguistas (veja-se, a titulo de exemplo o Tempo das Cerejas) "comunistas" remetendo-se a um SILÊNCIO ensurdecedor, quase obsceno, os caracteres dos textos por haver(não confundir com carácter...) e nos espaços dos seus "espaços" noticiosos...zero e infinito, para glosar um romance antigo, que os comunistas "cultuam"!!!, nada.

José Albergaria

* Fotos retiradas da imprensa diária.

Adenda
Resposta a um comentário de Vitor Dias do "Tempo das Cerejas"

"Pareceu-me, que o facto do Vitor Dias ter "reposto" a "verdade" era suficiente para si, era mais do que óbvio para mim e, como o meu espaço de comentários não é censurado, é plural e libérrimo, seria suficiente o seu "esforço" - para os meus leitores.

Parece-lhe que assim não é.

Fica, pois, aqui e agora dito que o bloguista Vitor Dias, comunista, comentou em tempo certo a libertação de Ingrid Betancourt (que saudades do tempo em que você, em nome do PCP, escrevia as Notas de Imprensa"!: já reparou que os seus camaradas, na Nota que enviaram para os OCS escrevem "Bettencourt"?!

Mas, parece-me que a substância, e isto é que importa, não está em linha com o seu poste...temos dissensão à vista?!

Você ressalta, e bem, a dimensão humana e humanitária do acontecimento, da libertação de Ingrid. Os seus camaradas da Direcção do PCP...esses, passam,completamente, ao lado dessa dimensão, que, em meu entender, naquele momento - era a única que importava.

Quanto à direcção do PCP, depois de ler a Nota de Imprensa...mais valera que estivessem calados!

Há quem tenha trocado, o meu "obsceno" silêncio, por "abjecto"!

Sempre atento ao seu prosear em o Tempo das Cerejas,sou com cumprimentos,
José Albergaria"

Vitor Dias,assim já lhe parece bem?...

Nunca tive medo, nem da transparência, nem da "verdade", não a minha,redutora,obviamente, preconceituosa, mas aquela, tal Graal,que os homens honrados, probos e livres - SEMPRE procuram.

A minha praxis decorre duma ética da responsabilidade e duma moral de convicção!

Não me movo, nem pela suspeição infundada, nem pela urgência de "assassinar" os meus adversários...intelectuais e/ou políticos!...

JA

quarta-feira, julho 02, 2008

José Mattoso...meu Mestre.


Em 2007 José Mattoso foi galardoado com o prémio Troféu Latino. Disseram-lhe, pedindo-lhe a aceitação para o dito, que podia, aceitando-o, levar á cerimónia de entrega, alguém que falasse, sem formalismos, sobre ele.
Escolheu, de imediato:
1/Aceitar o prémio pela qualidade do mesmo e pela excelência da instituição que o atribuía;
2/Convidar o actor Luís Miguel Cintra, para dele falar, sem formalismos.
Mas não é disto que quero falar, nem sequer do meu Mestre José Mattoso (ele não o sabe, nem é sequer importante que o venha, algum dia, a saber:é meu Mestre à distância, por exemplar, como Historiador e Homem!).
Nesse "evento", de entrega do prémio, falou, pois, LMC e falou, após, Mestre José Mattoso que, num belíssimo trecho deixou plasmado este pedaço de prosa, que convosco quero partilhar: pela prosa, pelo seu significado e pela grandeza do homem e do sábio que assim é capaz de prosear!
(...)"Muitas vezes me apeteceu dizer, como o profeta Elias quando iniciou a sua caminhada no deserto e, cansado da sua luta contra a idolatria, pedia a Deus a morte:«Já basta, Senhor, pois não sou melhor do que meus pais»[1 Reis, 19.4]. Também nós, quando recordamos as esperanças dos anos 60, e as comparamos com a actual multiplicação da violência e da injustiça, perguntamos para que valeram os nossos esforços. Mas, se, ao olharmos à nossa volta, nos sentirmos irmãos dos atormentados pelo desejo de verdade, irmãos dos desesperados pelas suas próprias contradições ou inseguranças, e formos capazes de descobrir, nascidos, não se sabe como, neste mundo sombrio, os que persistem em cultivar a infinita variedade de formas que revestem o amor, a justiça, a esperança, a beleza, a alegria, a paz; e se aprendermos a ver, com os que sabem olhar através da espessa camada da vulgaridade quotidiana, a maravilha do que é justo e simples, deixamos de lamentar a frustração das esperanças. Luís Miguel Cintra não fez outra coisa, ao longo destes quarenta anos, senão mostrar isso mesmo, na sua intemporalidade, sob as aparências mais inesperadas e mais tocantes. Devo-lhe a percepção desse olhar capaz de descobrir os lugares escondidos onde se refugia, no seu último reduto, a verdade do homem." (...)
Este é o meu Mestre.
Esta é a minha esperança.
Este é o Homem!

JA


*Foto tirada do De Rerum Nature, com agradecimentos e devida vénia.

O Mercado das Teorias e a Feira das Opiniões II

Ontem deixei, em suspenso - a questão do marxismo.
Enorme presunção esta de deixar o "marxismo" em suspenso! Mas passemos adiante deste pequeno escolho.
Creio que é o filósofo francês Paul Ricoeur, com um percurso de vida deveras singular e um dos mais próficuos pensadores franceses do século XX, que inventa e define Marx, Nietzsche e Freud como os mestres da "suspeição".
O nosso DS vai utilizar esta abordagem de maneira curiosa e, de algum modo cómica.
O marxismo tem, em si mesma, como teoria, uma abordagem sobre a consciência dos seus próprios opositores: estes estão, obviamente, enganados, porque as suas situações, de classe, os condicionam no sentido de pensarem como os capitalistas.
Esta consciência não passa pois de uma máscara, que esconde os interesses reais. Mas, curiosamente, com o marxista passa-se quase o mesmo e com igual proficiência, mas com uma diferença de monta:"os seus interesses coincidem com os da própria Humanidade".
É a consciência do marxista que está certa. Com a emergência de Marx e do marxismo deixou de haver inocência e, menos ainda, consciência inocente: ela é moral ou imoral. É sobre este pedestal que os comunistas irão "construir a sua superioridade moral!"
Diz o nosso autor,DS,que, na Alemanha, sobretudo depois de 1968 "o marxismo dominava o mercado das teorias na Alemanha, porque era imbatível na área da suspeição ideológica."
É espantoso o facto do marxismo, como TEORIA, ter continuado ainda em alta durante ainda mais de vinte anos, quando desde 1956 (Hungria) e 1968 (Checoslováquia)e mesmo, antes desta datas, já havia denúncias tremendas e seguras, das malfeitorias de Estaline e seus próceres, quando já se conhecia muito da realidade prática em que se atolava o marxismo!
Então, ainda em finais da década de 60, o marxismo tinha uma oferta muito variada dedicada ao "sentido" da vida de cada um, de cada povo e até da humanidade. Cada "cliente", para utilizar o calão de DS, poder recolher um fantástico cenário onde lhe era atribuído e pedido para desempenhar papel de herói e protagonista da história. Os intelectuais (os exemplos são aos milhares e ocorreram em todas as latitudes do planeta)sentiam-no, o marxismo, como uma TEORIA única, complexa, mesmo até holística, e que apelava a uma atitude interveniente, missionária, redentora do homem e da Humanidade. O marxismo punha em linha a sua ascensão e sucesso de vendas, através duma divulgação eficiente, "lançando, simultaneamente, a suspeição sobre o adversário".
Hoje, em que ponto se encontra o marxismo?
Depois do colapso, que teve inicio em 1986, do socialismo real, na Europa Ocidental, o marxismo vai cair numa crise profundíssima. Até então, o marxismo, não se tinha confrontado com a realidade e, menos ainda, com o seu insucesso como TEORIA. Este desfecho, nem os mais "optimistas" conservadores e reaccionários o tinha previsto! Nem mesmo a Senhora de Fátima (que admitiu só a conversão da Rússia bolchevista!...)foi capaz de adivinhar tal desastre!
Este desfecho era, de todo, mais do que imprevisível.
A pergunta que sobrevive e que é de mor pertinência, na actualidade: algum dia o marxismo se irá recompor?
DS, sobre este entreacto, aborda-o com muita prudência: "Se alguma vez irá recompor-se é algo que é difícil prever. talvez assim não aconteça sob a sua forma antiga e é provável que ocorram radicalizações, constituições de seitas e metamorfoses [transfigurações] teóricas. De momento até os observadores do mercado mais qualificados se calam."
JA

terça-feira, julho 01, 2008

O Mercado das Teorias e a Feira das Opiniões I

Dos livros mais estimulantes que alguma vez li.

Este livro escrito pelo alemão Dietrich Schwanitz, a pretexto de que os seus alunos sabiam pouco de história, de literatura e, menos ainda de filosofia é, em meu entendimento, imperdível e ao qual se tem de retornar, uma e outra vez...

A partir de agora vamos chamar-lhe DS, por comodidade minha.

DS sustenta que, com a emergência da modernidade, com o império da razão de Descartes, o pai fundador da filosofia moderna, século XVII, a religião inicia um processo comatoso. As «mundividências» vão apropriar-se do seu lugar. Começam, nas oficinas dos filósofos, a explicar-se o mundo. Entretanto começam a emergir os ismos (liberalismo, darwinismo, marxismo, vitalismo...) produzidos por grupos, gangs de intelectuais, que se propunham preencher as lacunas interpretativas do mundo. Impôs-se então o conceito globalizante de "TEORIA"

Hoje, este mercado das TEORIAS tem feiras, bolsas, PSI20, Nasdac, onde elas se apresentam com taxas cambiais oscilantes. A este mercado preside o mesmo deus que reina em TODOS os outros: a MODA.

Quem se precipitar, quem for primeiro (isso pode-se ver, também, na nossa blogoesfera: o primeiro a comentar, o primeiro a postar, o primeiro a singularizar-se na abordagem de matéria nova...)leva vantagens sobre todos os outros produtores. A moda, toda ela e em qualquer dos sectores que a consideremos vive do desvio que introduz face ao já existente: isto ocorre no vestuário, na música, de algum modo na literatura, hoje menos na pintura e na escultura. Na filosofia, nessa,então, não se percebe bem o que está a ocorrer.

"Existem, afirma DS, portanto, teorias que estão na «moda» e outras que são «águas passadas». Existem rótulos fraudulentos e imitações de artigos de marca, concorrência desleal e material de candonga, períodos de nostalgia, ondas de reciclagem, liquidações totais e pechisbeques; há épocas de ouro e depressões, falências e retomas."

Com a prova de vida, ou de morte, de falência da TEORIA do MARXISMO, que significou a implosão do Socialismo Real na Europa Ocidental(e as acomodações operadas na China...)parece que o Marxismo terá, ele também, como TEORIA de interpretação e de transformação do Mundo, morrido... Mas, dos teóricos encartados actuais, mesmo dos que estão na MODA, quem se arrisca a assinar a CERTIDÃO D'ÓBITO daquela TEORIA?
Parece que ninguém estará disponível para tal!
O marxismo morreu? O marxismo vai ressuscitar? Como? Quando? Com que contornos?

O Cristianismo teve pais fundadores, refundadores, modernizadores,conservadores, reformadores: Santo Agostinho de Ipona, S. Tomás D'Aquino, Lutero, Santo Inácio de Loyola, Josemaria Escrivá de Balaguer e ainda o Irmão Roger fundador duma nova regra e da Comunidade de Taizé...
O marxismo, o comunismo, que, à sua maneira, quis ser "católico" terá os seus refundadores, modernos ou conservadores?
Em próximo poste "atacaremos" esta questão.
JA



segunda-feira, junho 30, 2008

A "renuncia" de Maria Gabriela Llansol...


Naquele magnifico livro "O começo de um livro é precioso", Maria Gabriela renúncia, explicita e expressamente. De que modo o faz? Assim:
"2
Renunciei a que alguém, um dia, me chame:«Avó Gabriela».
No entanto, tive um devaneio a noite passada. Eu ouvia planger,
De facto e auditivamente, em texto, o latido surdo
De um cão ruivo pronunciando:«Avó Gabriela». Feliz, Trova
Dava-me a pata e eu dei-lhe para a mão o próprio texto
Ainda no seu estado sonoro cénico.
Com a pata sobre o texto, parecia o ícone do quinto evangelista."

Uf! está dita a renuncia, desconcertante e perturbadora renuncia, da Maria Gabriela Llansol...

JA



domingo, junho 29, 2008

E o Sacro Império Romano - foi derrotado!

Nas disputas pelo titulo de Império e de imperador, na longa história do Alto Medievo europeu, emergiu,após a "renascença" carolíngia, em que Carlos Magno, rei dos francos, se sagrou Imperador, pela mão e pelo bordão de Leão III, um outro império, o da Rhinlândia, ao tempo de Ótão, com o beneplácito papal: surgindo então o Sacro Império Romano, uma espécie de sociedade por quotas, entre a Germânia e o papado de Roma.

Esta urgência, necessidade, que alguns réis tinham do beneplácito Papal assenta num dos maiores embustes da história do Papado da igreja católica: o Édito de Constantino, documento apócrifo, que bem jeito deu ao Papado...

Hoje, dia 29 de Junho de 2008, na Viena de Strauss, os alemães levaram não só um baile (podia ser uma valsa,mas pareceu-me mais um pasodoble)de bola, como a sociedade que mantêm com o Bento XVI, o cardeal Ratzinger, foi, elegantemente, cilindrada pelos "povos" da Ibéria (veja-se as várias auriflamas com que outros tantos jogadores se drapejaram...no final do jogo).

Por tudo isto, e mais o que não se pode descrever em palavras, que viva a Selecção de Futebol de Espanha e mais TODOS os representantes dos povos da Ibéria que a integravam!

JA


sábado, junho 28, 2008

"O Começo De Um Livro É Precioso"

Uma, e outra vez, sempre, Maria Gabriela Llansol.


Deste "precioso" livro, com desenhos de Ilda David, um pequenino trecho...para degustarem, saborearem e para concluirmos, todos, que bem escreve a Maria Gabriela e quão "mágica" é a arte de dizer, escrevendo!


" 1
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro - mantém o começo perseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ____linha, confiança, crédito, tecido."

JA

Salvador Allende: chileno, socialista e...maçon.

A 26 de Junho de 1908 nasceu Salvador Allende, que viria a dirigir um Governo de Unidade Popular, na sua pátria, o Chile, do cobre e dos nitratos adubeiros.

Foi assassinado pelas hordas de Augusto Pinochet, seu Chefe de Estado Maior General da Forças Armadas do Chile (as mais constitucionalistas e civilistas da Latino América), que assaltaram o Palácio da La Moneda a 11 de Setembro de 1973. Salvador Allende morreu, bravamente, com armas na mão, na defesa do mandato democrático que o Povo do Chile lhe tinha atribuído.

Allende constituiu um Aliança de Unidade Popular, que integrava o seu, dele, Partido Socialista e, entre outros, o lendário Partido Comunista do Chile, também de Neruda e dirigido por Luís Córvalan.

Allende era um homem duma imensa humanidade, socialista, laico e maçon (gostava muito de assumir esta sua condição de pedreiro-livre, livre pensador e livre examinista). Esta condição não o impediu de coisa alguma na política. Muito pelo contrário. Tolerante, como sempre foi, abriu-se às várias possibilidades para criar um Chile independente, progressivo e melhor. Perdeu. Falhou. Foi derrotado por um golpe patrocinado pelos USA e pela CIA e executado por Augusto Pinochet.

Fez unidade com os comunistas. Os tempos eram outros. Os tempos, após o golpe do General Pinochet foram outros, ainda mais desconcertantes.

Luís Córvalan, SG do PC Chile foi libertado das masmorras de Pinochet, por troca com dissidentes soviéticos e chegou a Moscovo em, se a memória não me atraiçoar, Outubro de 1979.

Em Novembro de 1989, ainda com Augusto Pinochet a Presidente do Chile (exerceu o mandato usurpado, de 11 de Setembro de 1973 a 11 de Março de 1990), o ditador da RDA, Eric Honecker, depois do derrube do muro de Berlim, demite-se de todos os cargos que detinha no Estado e no Partido (que se confundiam) e "foge" para Moscovo (ainda com Gorbatchov).

Aqui chegado instala-se na embaixada do Chile de Pinochet, onde pede exilio e estadia nela durante 232 dias, pedindo e negociando o seu envio para Santiago, juntamente com sua mulher.

É já com o sucessor de Pinochet (eleito com o beneplácito deste...), Patrício Aylwin Azócar, democrata-cristão, advogado, que o ditador da RDA, Eric Honecker, desembarca em Santiago do Chile, nos princípios de Julho de 1990!

Malhas que a diplomacia tece?!...Talvez. É mesmo provável que assim tenha sido, mas que é deveras desconcertante...é-o!

JA

PS - A foto foi fanada ao Tempo das Cerejas (os meus agradecimentos e a devida vénia), que recordou a efeméride...e bem, mas de modo diverso do meu.

Maria Gabriela Llansol: Amar Um Cão.


Já me confessei, uma vez.A escrita de Maria Gabriela Llansol teve, para mim, a dimensão da revelação!

Cada vez que me intrometo na sua, dela, escrita, o sentimento persiste, avassalador, fulgoroso:revelação!

Deixo-vos, a todos, particularmente, aos meus amigos que gostam e/ou têm cães, um naco dum livro deveras singular, "Desenhos A Lápis Com Fala -Amar Um Cão-":


"_____houve uma breve hesitação da parte de quem transportava o recém-nascido________o meu cão Jade, há muito tempo; muito, e com grande intensidade, aconteceu durante esse tempo breve em que Jade foi deixado suspenso sobre um medronheiro, sem mãe visível, num berço nem celeste,
nem terrestre. No lugar que toda a planta acolhe, e que o entregara ao medronheiro,
sentia sobre si uma incidência animal alada,
que nem era verdadeiramente pássaro,
nem verdadeiramente quadrúpede.

Era um fio de voz soando à altura do corpo musical que compunha a mata, um choro que coincidia com a convulsão das primeiras gotas de chuva; um sentimento ténue envolvia a cabeça emergindo do verde, e as pequeninas patas, saídas de um pano de baptista, não comoviam
a planta lenhosa,
já habituada a palpitações e folhas.
mas o ritmo novo que, pouco a pouco, não se identifi-
cava com a chuva, e tornava vermelho de tempo activo a
atmosfera, fez erguer o medronheiro sobre si mesmo
«que ser tão frágil mais alto que eu».

Se o ar não tivesse uma densidade leve, teria quebrado
Jade. Jade, que acabara de nascer sobre as bagas purpúreas dos medronhos,
e o ruído dos ramos partidos, já pensava. Um pensa-
mento de leite subia nos sítios pedregosos, fora do local da casa, e da cerca com cerros e penhascos. Ele trazia
nos olhos um instrumento azul para medir o diâmetro do sol, e dos astros; lia-se neles uma linguagem que só
mais tarde, muito mais tarde, encontraria equivalente
na boca:
«o meu pai não existe fora da descrição do Sol; cami-
nho através da murta, do aderno, da aroeira, e avistei
esta serra em que memória vê primeiro o porto de nas-
cer;mal nasci, situei-me, em vida interior, em face do
mar; ergo para a minha dona os meus olhos frágeis,
opondo-me a uma adversária que, de certeza, me ama:
faço-lhe pedidos
luta comigo;
dá-me a sensação de ter saído vencido, mas com rebeldia.»"

Não fiqueis perplexos com o arrimo, arrumo, gráfico deste desconcertante naco de prosa Llansoliana. Ela é muito, mesmo muito, gráfica, quase pictórica.

Os espaços em branco que ela ocupa, ou liberta, fazem parte intrinseca do seu pulsar narrativo, da sua prosódia e aliteração. É mesmo asssim. Tal e qual.


Zé Albergaria