sexta-feira, julho 18, 2008

Lenine e o terror.



Insiste-se, aqui e acolá, menos hoje que ontem, mas ainda assim, que o verdadeiro terror na Rússia Bolchevique é inaugurado por Estaline, o "pai dos povos".

Num livro interessante, que ando a dedilhar, de Marc Ferro, vem um pedaço duma carta do chefe da revolução, Lenine a Zinoviev, um dos brilhantes intelectuais bolcheviques sobre este tema.

Em Junho de 1918, manifestando a sua inquietação face ao aumento do terror, a Tchecka ( os seus dirigentes máximos...) sugeria reter o braço dos seus promotores, exactamente, a própria Tcheka! Isto é só, aparentemente, contraditório. Lenine escreve então a Zinoviev, primeiro responsável pela Tcheka em Petrogrado: " Protesto firmemente. Comprometemo-nos; ao passo que não hesitamos, nas nossas resoluções, em ameaçar com o terror de massas os deputados dos sovietes, quando se trata de passar aos actos refreamos a iniciativa revolucionária das massas, inteiramente fundamentada. Não é possível. Os terroristas vão considerar-nos uns papa-açordas. É preciso encorajar a energia e a natureza de massas do terror, particularmente em Petrogrado, cujo exemplo tem de ser decisivo."

O comentário de Marca Ferro é significativo e, ao mesmo tempo, feroz para Lenine: "Uma atitude que anuncia a posição de Hitler a respeito dos massacres."

Eu, pessoalmente, dispenso-me de quaisquer comentários.

JA

quinta-feira, julho 17, 2008

A. Teixeira e a metáfora da Torre de Pisa

Para mim, tudo bem.
Eu sempre gostei duma boa discussão...mesmo até duma má, que é o que esta está a tornar-se.
Vamos aos factos.
Eu, faz tempo, sou leitor diário do blogue de A. Teixeira, o Herdeiro de Aécio. O que tenho lido, ultimamente, nesse blogue tem sido do meu gosto, tem-me dado satisfação e muita, mesmo muita informação, de qualidade e rigorosa.
Espantou-me, pois, a pouca qualidade, a falta de rigor e um tom algo preconceituoso do poste o "Ego de César".
Eu posso dizer "mal" de tala ou tal pessoa, mas, habitualmente, sempre, argumento.
Não gosto de Manuel Alegre, mas não sendo preconceituoso - argumento.
Sou mais dado aos pré-socráticos, mas tal não me impede de, aqui ou acolá, acolher com bondade algumas políticas do eng-º Sócrates.
Agora, o A. Teixeira pega-me pela forma, gasta quase todos os adjectivos que se arremessam aos "inimigos" e tenta "assassinar-me" imputando-me um mau carácter e má educação... Oh, homem, benza-o deus e todos os santos e de todas as igrejas!
Eu, "casca grossa"?, "grandiloquente"?, "malcriado"?"vaidoso"?
Mas estou a ir na sua onda...que não leva a porto algum e, o que, verdadeiramente, importa (se isso lhe importar a si!) é a verdade.
Não sei quem é, nem isso lhe importa, porque você pede para ser avaliado pelos conteúdos dos seus postes. Foi o que tentei fazer e...você não gostou. Paciência.
Já comentei postes seus, pela positiva e até com sugestões...
O que me interessa não é agradar-lhe ou estar de acordo consigo.
Agora, para que saiba, não gosto que me insultem! É uma questão de família e de educação: não lhe parece?
Mas vamos ao que interessa.
Se, como diz, na metáfora de Pisa, não quis comentar o programa da Moura Pinheiro, sobre as similitudes entre a UE e o Império Romano ( e, eu, acredito...) - o que quis, então, fazer?!...
No poste " O Ego de César" falou da Moura Pinheiro, falou do Programa, em geral, falou daquele em concreto (referiu-se ao tema e a pouco mais), falou dos dois convidados. De um, o menos, mediático, disse bem; do outro, mais mediático, não só disse mal, como o tentou arrasar.
Denega-me a mim, A. Teixeira, o direito e a exigência, de discordar de si e de concluir, não expressamente, que a única coisa que você tentou fazer (naquele seu poste) foi um "assassinato de carácter" ao Professor Universitário José Medeiros Ferreira?
Argumente em contrário, se for capaz e se estiver, claro, interessado nisso.
Trocadilhos, salamaleques, ironia a roçar a maledicência, quem, na blogoesfera, não foi já acometido por essa doença infantil? Você, não? Sorte a sua.

E como você optou por me zurzir na forma, no tom, e partir de leituras da intertextualidade do meu poste, lá perdemos uma boa oportunidade, para uma boa discussão.

Eu tenho responsabilidades neste desfecho? Claro que sim, Sou quase neófito na blogoesfera. Isso faz de mim, por vezes, incompetente e canhestro, mas nunca "casca grossa".

Aceite, se quiser, os protestos da minha consideração pelo seu blogue e por, quase todos os postes que me foram dados ler no Herdeiro de Aécio,

José Albergaria


Herdeiro de Lopo Soares de Albergaria: Vizo Rey da India.



Não que seja o "herdeiro" deste Soares de Albergaria, mas segundo apurei, pertencerei ao mesmo ramo desta família que remonta aos primórdios da nacionalidade e acolhe-se aos "nomeados" Soeiro Mendes, senhores da Maia (na ordem hierárquica eram os segundos ao tempo do Conde Henrique...).
O que se sabe de Lopo Soares de Albergaria? Alguma coisa.
o se sabe ao certo quem foi seu pai. Duas hipóteses: ou Pedro Santar Soares ou Fernão Soares de Albergaria. Há quem admita as duas possibilidades, mas quando se inclui Lopo Soares de Albergaria na Nobiliária de Oliveira do Conde, perto de Nelas e Carregal do Sal, admite-se a paternidade de Fernão Soares de Albergaria, ligado à fundação deste ramo. Este fidalgo tirou brasão de armas no reinado de D. João III.
Lopo Soares de Albergaria foi figura controversa. Como Governador da Índia pouco fez, além de no exercício do cargo lhe ser imputado a descoberta das ilhas de Ceilão e ter "merecido" o cargo depois de muito intrigar na Corte contra o Leão dos Mares, Afonso de Albuquerque (que nunca conseguiu o titulo de Vizo Rey!).
Na Índia o seu governo desagradou a todos. A sua expedição ao Mar Vermelho em 1517 (a sua armada sai de Lisboa em 1515) redundou num monumental fracasso. O seu governo dura apenas três anos, ao fim dos quais é substituído por Diogo Lopes. de regresso instala-se na Corte, onde é alvo de muitas desconsiderações, sobretudo por parte da rainha. Dispensando qualquer tipo de honras a que tinha direito, bandeia-se para Torres Vedras, onde se acolhe junto das filhas.
O rei D. Manuel I intima-o a apresentar-se no Paço, em Lisboa, para prestar contas de acontecimentos havidos em Goa. O fidalgo recusou responder ás injunções do rei. D. Manuel insiste e intima-o a apresentar-se de imediato... Lopo Soares de Albergaria responde-lhe - pedindo que o dispensasse de tal mercê e "pois se era por questão de demandas com Fernão d'Alcaçova não se queria defender delas e se dava por condenado, para o que respondia sua fazenda; se mesmo fosse necessário o ser executado, em Torres Vedras havia picota para toda a execução e ele cá estava de pé quedo; e se sua Alteza o chamava para lhe fazer mercê e bem contente estava com o que tinha, porque Deus o trouxera para junto de suas filhas."
El Rei D. Manuel I dispensou-se de insistir na sua demanda.
Mau governador das Índias foi este Lopo Soares de Albergaria, mas fidalgo de rija têmpera - como o atesta este episódio, nunca desmentido, sempre confirmado...lá isso foi!
José António Soares de Albergaria

quarta-feira, julho 16, 2008

Apetece-me falar de política doméstica.


Saiu, faz mesmo muitíssimo pouco tempo, a Sondagem do Centro da Universidade Católica, dirigida por Pedro Magalhães (actual dirigente da SEDES), com dados recentes comparados com resultados obtidos em Fevereiro de 2008 - quando o Primeiro Ministro anunciou o "fim da crise".
Neste intervalo de tempo a CGTP (com o alto patrocínio do PCP e do seu SG/Jerónimo de Sousa), mobilizaram para o protesto de rua, severo, militante, bolchevique, milhões (disparate: centenas de milhares de trabalhadores) de portugueses; o lidere bloquista, o douto, benquisto académico keynisiano (consideradíssimo e premiadíssimo nos USA e no UK!) Francisco Louçã, filho de Almirante, aqui e acolá aproveitou algumas boleias protestativas e, no Parlamento, de quinze em quinze dias zurze no eng.º Sócrates, alteia a voz, lança aos ventos de S.Bento consignas demolidoras, prenúncios apocalípticos e mensagens escatológicos que nos espantam até ao fim dos tempos.
O PPD/PSD, pois, esse, tem andando a lamber as feridas provocadas pelas batalhas internas, inenarráveis, que deixam os campos ppêdistas juncados de cadáveres militantes: em três anos, três Césares, três Imperadores, três Timoneiros. Hoje trespassaram o negócio autárquico para uma industrial leiteira...a ver se resulta!
O PP...esse, pia cada vez menos. Qualquer dia, uma trotineta tem lotação excessiva para o "grupo" parlamentar!
Então, e o José Sócrates tem governado bem, à maneira?!...Nim!
Mas tem-se aguentado...e de que maneira! Veja-se os números.
Quem já fez, mil e uma vez, o seu obituário, como, animadamente, à época, anunciou o meu escritor de cabeceira, e jornalista americano, Mark Twain: "As notícias sobre o meu passamento foram sobremaneira exageradas!".
José Albergaria

O Herdeiro de (general) Aécio e o "Ego de César"

Descobri, faz pouco tempo, mas já sou fidelíssimo leitor quotidiano, do proficiente blog que dá pelo nome, algo "pomposo", de "Herdeiro de Aécio"...
"Aécio foi um general romano (esta informação só tem utilidade para quem não saiba...), nascido em Durostorum, Mésia, em 390 e morreu em 454 dc. Senhor incontestado do Império Romano do Ocidente de 434 a 454 dc, defendeu a Gália contra os Francos e os Burgúndios, tendo contribuído para a derrota de Átila, o Huno, nos campos Catalaúrnicos em 451 dc. Foi assassinado por Valeriano III, Imperador do Oriente, que temia o seu poder."
O lema do Blog em questão é, e parece-me muito bem: "Os leitores devem julgar o blogue unicamente pelo seu conteúdo".


Então vamos ao conteúdo dum poste recente, a pretexto dum programa de Paula Moura Pinheiro, Câmara Clara (titulo roubado a um livro interessantíssimo de Roland Barthes sobre a semiótica da fotografia e que se chama, precisamente, "Câmara Clara"), apresentado na RTP2, Domingo passado e, ontem, Terça-feira, mas que entrou pela madrugada dentro de quarta-feira.


Diz o autor do herdeiro de Aécio, e cito: "O programa de ontem tratou de um tema interessantíssimo, o das possíveis analogias e diferenças entre o Império Romano da Antiguidade e a União Europeia da actualidade. Os convidados de Paula Moura Pinheiro foram o mediático professor José Medeiros Ferreira e o muito menos mediático professor António Manuel Dias Diogo. Este último era tão menos mediático, que o próprio colega de programa (Medeiros Ferreira) acabou, a certa altura, por lhe trocar o nome para Dias Agudo… Mas durante o programa os conhecimentos demonstrados por ambos sobre o tema estiveram na proporção inversa da sua notoriedade mediática e, enquanto fiquei com a impressão que Dias Diogo era um excelente especialista em História Romana, com predilecção pelo período do apogeu dessa civilização (Século I a.C. e I d.C.), constatei que Medeiros Ferreira passou por ser um especialista mais treinado em comunicação televisiva que, para aquele programa, nem fizera revisões na matéria de facto. Como pormenor significativo, quando solicitados a indicar dois livros da sua predilecção sobre o tema, Medeiros Ferreira, teve um dos momentos altos do programa, quando começou por indicar e até citar de cor uma das passagens do Júlio César de Shakespeare. Será interessante para mostrar o que na Inglaterra do Século XVI se pensaria sobre Roma mas não terá grande coisa a ver com Roma. Melhor, só a sua segunda sugestão, porque se tratou do último livro que publicou, cuja associação com Roma ele nem tentou estabelecer…Se, como realçou José Medeiros Ferreira, o ego do Júlio César literário de Shakespeare era incomensurável, poucas certezas poderá haver quanto à dimensão do ego do verdadeiro Júlio César histórico. Mas, por todas estas pequenas coisas, parece-me que não existem dúvidas quanto à dimensão do ego do próprio José Medeiros Ferreira…"
Ora bem!, resumir um programa, que durou bem mais de uma hora, que teve peças filmadas e vários convidados, desde um especialista indiano, até ao mediático Rui Tavares e uma jornalista e escritora, que, com aquele, falaram de livros sobre o Império Romano; os Monthy Pithons com uma rábula antiga de judeus a questionarem-se (e a responderem) sobre o que é que os romanos fizeram pela civilização...; óperas dedicadas a Júlio César; um apontamento do Festival de Música Multicultural de Sines; a opinião duma especialista de Coimbra em Roma antiga, que, entre outras coisas, afirmou, que a moeda (tentando-a semelhar com o €), cunhada em várias partes do império, trazia, sempre, a referência ao lugar da cunhagem...foi um dos factores de coesão do Império (referência que mereceu a desaprovação do arqueólogo, António Manuel Dias Diogo, sustentando que o império romano foi pouco monetarista, utilizando, sobremaneira, a troca directa...) é OBRA!
Marc Bloch, no seu último manuscrito, terminado horas antes de ser assassinado pelo "carniceiro" de Lyon, em 1944( creio eu) em que reflecte sobre o "Oficio do Historiador" e que foi publicado no pós-guerra, pelo seu amigo devotado e de sempre Lucien Febvre ( e que conta, hoje, com uma edição critica do filho Etienne Bloch), relata uma história curiosa, sobre os testemunhos presenciais. "Imagine-se, e cito de memória, a batalha de Borodino, na campanha napoleónica da Rússia, relatada pelo próprio Imperador, por um dos seus generais, por um comandante de batalhão, por um artilheiro e por um soldado de cavalaria. Em qual versão acreditar? Qual a versão mais fiável? Nenhum delas seria rigorosa se reconhecêssemos a memória singular como testemunho único do acontecimento."
Ora bem, o relato do programa da Paula Moura Pinheiro feito pelo "general" Aécio é, de quase todos os pontos de vista, lamentável.
Tentar, contando pequeníssimos episódios do dito programa, passar para os seus leitores a "boutade" final sobre "o ego do próprio Medeiros Ferreira" é, no mínimo, hilariante!
Se não gosta de Medeiros Ferreira...e, claro, é o seu direito - diga-o sem ademanes, ou fintas e sem pretexto de espécie alguma.
Obriguei-me, com o maior gosto e interesse, a ver o programa da Moura Pinheiro (que, em meu modesto entendimento, é ignorante de pai e mãe...Não reparou? Então a senhora não sabia que, ao tempo de César e de Augusto os judeus tinham, em Jerusalém, e não só, rede de distribuição de água, aquedutos, saneamento básico, agricultura com sistema de irrigação e etc...) hoje já de madrugada (a RTP2 deve estar em poupanças e, portanto, repetiu o programa de Domingo, nesta terça-feira...) e vi desempenhos, notáveis de, cada um em sua especialidade, António Manuel Dias Diogo, Professor Universitário e Arqueólogo ( e, contrariamente ao que o meu amigo Aécio sustenta, nem me pareceu grande especialista em Império Romano...Sabe-o tanto quanto eu que temos enormes especialistas nessa matéria: Maria Helena da Rocha Pereira, Jorge Alarcão, Carlos Fabião...nomeadamente, mas há muitos mais), como de Medeiros Ferreira, Professor Universitário e, provavelmente, a seguir ao Professor Adriano Moreira o nosso melhor especialista em relações internacionais, em tratadística internacional e sumo especialista em União Europeia ( e, se não reparou - foi nessa qualidade que ali se encontrava; nunca na qualidade de especialista em império romano...coisa que ele não é, nunca foi, nem nunca virá a ser).
Recorda-se do debate, que os dois Professores travaram, no mesmo programa que ambos vimos, com acordos e desacordos, a pretexto da República Americana, das similutes e das disparidades com a República e Império Romano?...
Agradeço-lhe ter-me chamado a atenção para o Programa, mas a análise que faz dos "protagonistas", a grelha que utiliza, se o seu "mentor" Aécio a tivesse utilizado nas batalhas nas quais defrontou o temível huno, Átila - de certeza que não teria, hoje, vestido o seu blog com o "pomposo" desígnio de Herdeiro de Aécio.
Aceite os protestos da minha critica, não do meu julgamento (quem sou eu para julgar?!...) ao conteúdo do seu blog e, particularmente, do seu poste "O Ego de César".
José Albergaria

segunda-feira, julho 14, 2008

Em louvor da amizade: João Tunes e Edmundo Pedro.

Estive, faz tempo, contando pelos dedos das minhas memórias, a tentar recordar quanto tempo "vale" a minha amizade com o João Tunes: 42 anos!
É obra!
Ao João devo-lhe bastante. Devo-lhe o gosto "compulsivo" que tenho pela leitura; devo-lhe o meu espírito critico, que mantive ao longo da vida; devo-lhe o sempre ter cultuado a minha liberdade e independência de pensamento; devo-lhe a frontalidade com me envolvo nas coisas e no pensamento; devo-lhe um certo modo, talvez geracional, de encarar a amizade.
E devo-lhe, em bom rigor, a minha liberdade "tout court".
Em Dezembro de 1967, apareci-lhe de supetão em Campo de Ourique, aflito. Tinha a PIDE do Porto à perna e precisava de me bandear. Fui ter com o João: tratou de tudo! A 13 de Janeiro de 1968 chegava á gare de Austerlitz, em Paris. Ao João, fundamentalmente, o devo.
Do Edmundo Pedro sou amigo faz menos tempo. A nossa amizade terá, talvez, aí uns dez anos. Temos sido cúmplices dalgumas coisas e, eu, jovem nas minhas sessenta primaveras, tenho pelo Edmundo Pedro uma admiração, respeito e consideração sem limites. Creio que a inversa é verdadeira: Edmundo Pedro é meu querido amigo. Já tive provas insofismáveis de que assim é.
A semana passada juntámo-nos, uns quantos amigos, para festejarmos a amesendação da amizade. O Edmundo Pedro foi o anfitrião e o João Tunes participou também desse banquete da amizade.
O João decidiu assinalar no Água Lisa6 o acontecimento (foi desse poste que eu roubei a fotografia, que neste meu inseri).Temos falado, na blogoesfera, sobre esse tópico.
Decidi louvar, neste meu blog, a amizade que me une a esses dois homens de excepção, humanistas profundos e severos, sem falhas, o João Tunes e o Edmundo Pedro, recordando aquilo que já postei e relatando de seguida um episódio da minha amizade com o Edmundo Pedro.
Em Maio de 2007 telefona-me o Edmundo Pedro, dia 6 mais precisamente, dizendo-me: -" Olha, o Manuel Alegre está doente. Tinha-se comprometido a ir comigo, a Évora, apresentar o livro, mas a secretária telefonou-me a dizer-me que ele não está capaz de o fazer. Avanças tu." A um amigo nada se recusa! Ao Edmundo Pedro, em meu discernir, tudo se lhe deve.
Foi, portanto, sem dificuldade que me lancei na escrita duma modesta, á minha medida, apresentação" do 1.º Volume das memórias do Edmundo Pedro.
É esse texto, que então li, no Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende em Évora, que aqui deixo:

"Évora
Teatro Garcia de Resende
8 de Maio de 2007
·Senhor Presidente da Câmara Municipal de Évora, Dr. José Ernesto de Oliveira;
·Caro Editor, Dr. Baptista Lopes;
·Caríssimo Edmundo Pedro;
·Caros amigos,
Aceitei apresentar o livro do Edmundo Pedro, com alguma emoção, mas, reconhece-o, com alguma irresponsabilidade.
Falar de Edmundo Pedro e do seu livro de Memórias e do seu combate incessante pela Liberdade, não é tarefa fácil.
Nas badanas do seu livro encontra-se, de modo preciso, o seu B.I.:
Edmundo Pedro;
Nascido a 8 de Novembro de 1918, no Samouco, Alcochete;
Filho de Margarida Tavares Ervedosa e de Gabriel Pedro;
Teve dois irmãos e, de um segundo casamento de seu pai, uma irmã, Gabriela, que muito estimava; Aos 15 anos foi condenado pelo tribunal militar especial a um ano de prisão; Em liberdade é eleito para a Direcção da Juventude comunista com Álvaro Cunhal; Foi novamente detido em 1936 e enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, criado por Salazar e instalado na Ilha de Santiago, no município do Tarrafal. Lá ficará 9 anos, em companhia de seu pai, Gabriel Pedro;Militante activo na Campanha de Humberto Delgado, em 1958, já fora das estruturas orgânicas do Partido Comunista, com quem já rompera;Em Janeiro de 1962 participou na tentativa insurreccional de Beja, vindo a cumprir 4 anos de prisão;Até ao 25 de Abril de 1974 mantém intensa actividade política;Em Setembro de 1973, a convite de Mário Soares, adere ao recém-criado Partido Socialista;Em 1974, no primeiro Congresso do Partido Socialista é eleito para os seus órgãos nacionais, nos quais se manteve durante mais de 15 anos;No verão quente de 1975 era responsável do aparelho de Segurança do Partido Socialista (esse facto trouxe-lhe agravos e ofensas, que ele, sofridamente, bem relata no livro que dedicou ao processo das “armas”);Foi responsável de TODA a logística que permitiu a gigantesca manifestação da Fonte Luminosa, a 19 de Julho de 1975, que iniciou o movimento de reversão do PREC para o modelo de democracia que hoje, felizmente, temos;Foi eleito deputado à Assembleia da República, em 1976, falhando, como teria sido seu direito, a Assembleia Constituinte. Aí esteve durante 11 anos donde saiu emocionado, homenageado por todas as bancadas. Destaco a referência sincera e encomiástica, em nome do Partido Comunista, celebrada pelo então deputado João Amaral;Foi Presidente da RTP entre 1977 e 1978, tendo iniciado aí um modo de gestão proficiente, promovendo um processo de modernização e de apetrechamento da Televisão Estatal. É de sua responsabilidade a aquisição do edifício da Av.ª 5 de Outubro. Ainda hoje, os mais velhos guardam saudades da sua gestão democrática, humanizante e, ainda assim, reconhecidamente eficiente.

Sobre o cidadão, a quem se pediu um retrato à la minute, estamos conversados… digo eu.Então, e o homem? Meus caros amigos, o Homem, esse, não cabe na minha palestra, porque MUITO GRANDE!

Edmundo Pedro tem um riquíssimo percurso de VIDA, de que dá notável testemunho nas suas MEMÓRIAS. Este primeiro volume de memórias reporta apenas 27 anos da sua excepcional existência e couberam em 550 páginas!Temos a promessa que os restantes 63 anos caberão em trezentas páginas. Isto é quase como tentar resolver a quadratura do círculo: impossível e improvável!

Mas falemos do seu livro e, ainda assim, da sua excepcional vida, num tempo que lhe foi dado viver! Na esquerda portuguesa, e mesmo na esquerda europeia não há uma tradição de produção memorialista, enxuta, escorreita, rigorosa.

Os exercícios dum Trotsky, dum Boris Souvarine, dum Victor Serge, dum Charles Tillon, dum Carilho, dum Roger Gauraudy (convertido ao Cristianismo e, posteriormente, ao Budismo), dum Pierre Daix, entre outros, foram sempre feitas com o objectivo de intervirem no debate político, do ajuste de contas com a História, ou com o propósito de diminuírem os seus adversários e concorrentes de combate partidário. Outros políticos optaram pela ficção, para discorreram sobre a memória do seu tempo. O caso mais flagrante e impressivo, na nossa história recente é a de Álvaro Cunhal…perdão, é a da Manuel Tiago que optou pela novela, pelo romance, pela critica literária e de arte para se “contar” e dar relato enviesado da sua vida porque, para ele, Álvaro Cunhal, o único herói é aquele mítico colectivo: o Partido!

O Edmundo Pedro optou por um caminho diferente. Na minha opinião, particularmente, difícil. O modo da escrita de Edmundo Pedro é feito em linha e, parece, a conselho de Joubert (citado por Barthes in “Incidentes”): “Não devemos exprimir-nos como sentimos, mas como recordamos.” Edmundo Pedro fá-lo, em minha opinião, exactamente, como Joubert o sugere! Na narrativa de vida do Edmundo Pedro não vasculhámos gavetas trancadas, não topámos esconderijos, não tropeçámos em cadáveres. Edmundo Pedro, pelo modo como se narra, os temas que elege, os episódios que sinaliza, o modo prudente, sóbrio e até o pudor que se pressente na sua escrita, torna-nos a nós, leitores, viajantes duma mesma viagem, cúmplices duma mesma causa, companheiros duma mesma demanda: a VERDADE!

Recordo-me, quando comprei o livro e o tomei em mãos senti-o pesado; percebi que tinha quase 600 páginas. Demorei alguns dias a iniciar a sua leitura, porque me parecia empresa que iria demorar o seu tempo. Puro engano! O livro de Edmundo Pedro lesse dum trago, em permanente alvoroço e dum modo apaixonado.Confesso-vos que tive a tentação de pensar que tal me tinha acontecido, porque, de algum modo, a meu modo e à minha dimensão, fui pequeno interveniente na luta contra o fascismo e sou amigo devoto e reconhecido do Edmundo. Hoje, sei que não tem a ver com os meus olhos, ou com os meus sentimentos particulares, antes tem a ver com a qualidade excepcional da narrativa memorialista e com a qualidade literária, ela também, da obra do Edmundo. Recentemente uma pessoa, que eu conheço, comprou o livro do Edmundo, mas sem a intenção de o ler, de o ler no imediato. Isto ocorreu, faz hoje 15 dias: a pessoa em questão já devorou quase 400 páginas e, segundo o seu testemunho, emocionada!

O modo como Edmundo fala do seu pai, Gabriel Pedro, personagem único na hagiografia comunista, como aborda os seus encontros e desencontros; o modo naturalista que elegeu para relatar o seu erotismo juvenil, como intercala esta dimensão na sua vida de revolucionário, não só o engrandece, como nos dá a nós, seus leitores, a medida exacta deste HOMEM de excepção. Que eu conheça e tenha lido, só um livro me parece poder aproximar-se desta escrita: a biografia de Pablo Neruda, que ele nomeou: “Confesso que vivi!”.

Mas, caros amigos, mais interessante do que estarem a ouvir-me perorar sobre o livro, mais ajustado para vós é LER as memórias deste SER de excepção que é o Edmundo Pedro.

Se me permitirem, três NOTAS mais - e finais:
1/ Creio poder afirmar que esperamos TODOS, ansiosos, pelo segundo volume das memórias deste enorme combatente pela Liberdade, farol que sempre alumiou a sua existência e a sua consciência de Homem e cidadão!
2/ Desejo que a saúde não lhe falte para poder concretizar aquele outro desafio de promover a Conferência Internacional em 29 de Outubro de 2007 no Tarrafal, de modo a podermos preservar ainda o que resta do Campo de Concentração.
3/ Creio que o Edmundo Pedro merecia uma Homenagem Nacional pelo muito que deu à Pátria. Sei que tal desiderato não será fácil, porque o Edmundo é um Herói sem Partido e um Mártir sem Igreja e, a estes, poucos serão os que ousam Homenagear. Penso que só um movimento de cidadania poderá tornar possível tal projecto. Assim saibamos porfiar!...

Quero terminar, com uma citação que cabe por inteiro ao Edmundo Pedro e pode resumir a sua vida de impenitente lutador de causas e da Liberdade:
“O único guia de um homem é a sua consciência; o único escudo da sua memória é a rectidão e a sinceridade das suas acções.” Wiston Churchill
Estou certo que esta acepção de Churchill pode bem funcionar como a legenda duma vida, da vida do Edmundo Pedro, toda ela dedicada à luta pela Verdade, pela Justiça e pela Liberdade!


Tinha-me proposto terminar, exactamente, aqui, mas a intervenção do Dr. Batista Lopes sugeriu-me um “incidente” ocorrido com o Deputado do CDS, Dr. Narana Coissoró, que se dirigiu, em tempos, nos corredores da Assembleia da República ao então deputado Edmundo Pedro:
“ Quero agradecer-lhe, porque não caiu na tentação de passar de perseguido a perseguidor…”.
Que melhor elogio, pode pretender um homem, para justificar a luta incessante duma vida?!...
Disse!"


José Albergaria

domingo, julho 13, 2008

A Colômbia: uma equação, com várias incógnitas, mas sem solução.













O Expresso/El País traz uma reportagem (publicada na edição do semanário português de 12 de Julho de 2008) esclarecedora, em meu ponto de vista, sobre a equação colombiana. Segundo o escritor Héctor Abad Faciolince e o fotógrafo Álvaro Ybarra Zavalla , que esteve um mês com o Bloco Móvel Arturo Ruiz das FARC, na zona do rio San Juan, na costa do Pacifico.
As incógnitas estão, quase todas, ilustradas nestas fotos: as FARC, que controlam as florestas onde "nasce" a coca, os "farcotraficantes" a laborarem nos laboratórios transformadores, as unidades politicas e militares das FARC, os paramilitares desenquadrados, que participam no negócio da coca, os militares de Uribe e os EUA, que não estão ilustrados por nenhuma das fotos que se publica neste poste.
As fotos de Álvaro Ybarra Zavala, publicadas pelo Expresso são, simplesmente, óbvias e notáveis: explicam tudo. O texto de Faciolince, um dos grandes escritores da actualidade: impressionante!
O esquema/situação é muito simples. As FARC, mantendo a sua "doutrina", a sua "ideologia", a do grupo fundador de 44 camponeses, ilustrados em marxismo-leninismo, que a criaram em 20 de Julho de 1964 para lutar contra os latifundiários mancumunados com a United Fruit Company, hoje Chiquita Brands, transformaram-se (porque sem apoio de massas genuíno)num "exército" de bandidos que se dedica ao controlo dos campos de coca, dos laboratórios que a transformam em produto apetecível para o narcotráfico que opera em todo o mundo (hoje, a ser desviada, a cocaina, para os mercados europeus, deixando as rotas para os USA em pousio).Dedicam-se ainda as FARC ao sequestro de TODO o tipo de pessoas que podem ser "trocadas" e cobram um imposto aos empresários que operam nos seus territórios, cada vez menos urbanos (chegaram a controlar mais de 100 municipios: hoje não controlam nenhum), um imposto "revolucionário".
É interessante notar que são as próprias empresas que financiam TODOS os actores desta "guerra": a Chiquita Brands, por exemplo, paga impostos de guerra ao Estado Colombiano; financia os paramilitares e encaminha centenas de milhares de vacinas para os guerrilheiros das FARC. Outro tanto ocorre com as empresas que exploram o petróleo, o ouro, as esmeraldas e o níquel. O grande problema da Colômbia não é, pois, a pobreza onde mais de 50% da população vive, mas sim as imensas riquezas deste país latino-americano.
Está provado, que as FARC, "articulam" ( e combatem também os...) com os paramilitares para estes fazerem sair a cocaína já tratada do fundo das florestas imensas que só aquelas dominam e também com unidades corruptas do exército de Uribe que a encaminham para os narcotraficantes internacionais.
Entretanto, Uribe (que atingiu, com a operação bem sucedida de resgate de 15 sequestrados, incluindo a mediática Ingrid Betancour, e sem "cumplicidades" aparentes das FARC, um nível de popularidade nunca vista...)insiste na solução militar para esta equação: a seguir a Israel e ao Egipto, a Colômbia recebe a maior e melhor ajuda militar dos EUA. As Forças Armadas colombianas são as mais bem apetrechadas de todo o continente ibero-americano.
Ora bem, todos estes ingredientes tornam-na,à Colômbia, segundo estes privilegiados observadores, Faciolince e Zavala, numa equação quase impossível de resolver. Entretanto as FARC desligaram-se do PC da Colômbia, a frente democrática constituída por várias formações de esquerda, o Pólo Democrático, condena com veemência as formas sanguinárias de luta em uso pelas FARC.
Mesmo dirigentes como Fidel de Castro, Hugo Chavez e o nosso Nobel, José Saramago vêm, ultimamente, afastando-se e a condenarem os métodos dos "farcotraficantes". O isolamento das FARC é quase total, interna e externamente.
Mas, como disseram alguns elementos do Bloco Móvel Arturo Ruíz ao fotógrafo Ybarra Zavala, quando este se interrogava sobre o imenso drama em que todos estão envolvidos e em torno do controlo da pasta, da coca, que os camponeses cultivam: "Porquê a coca? E para que vou semear mandioca? Enquanto os gringos não aprenderem a snifá-la, não a cultivaremos. Um quilo de coca vale uns 3 000,00€; um de mandioca ou café, nem 10,00€."
Ora aqui está!
JA
PS - Se dúvidas houvesse, este dossier publicado pelo Expresso - tudo esclarece. Não fica nada de fora, mesmo nada.
De Uribe aos narcotraficantes internacionais, passando pelas FARC, pelos paramilitares, pelos militares corruptos, pelos USA, todos, mas mesmo todos "ganham" com a esta guerra suja! Só o povo colombiano é que não!

sábado, julho 12, 2008

Ironia versus humor.

É neste número do ML, n.º 477 que vêm publicados, entre outros temas e assuntos, o debate entre Pierre Nora e Élie Barnavi e, ainda, o notável dossier sobre o Humor e, dalgum modo, a literatura.

Temos pano para mangas, frentes, costas, pernas, cóz, e eu sei lá quantas coisas mais!

Por exemplo, V. Jankélévitch, reflectindo sobre a relação dicotómica, redutora, no confronto entre ironia e humor é mordaz e taxativo:

" Parece-me, que, hoje, o verdadeiro problema filosófico não é a ironia, mas o humor. Posto que a ironia explora com virtuosidade, de acordo com um projecto bem determinado,o equivoco da linguagem, o humor, esse, não tem nem projecto fixo nem sistema de referência... A ironia é o talento duma consciência soberana, distanciada, capaz não apenas de brincar com as palavras, mas de brincar com os jogos de palavras!(...)O número da ironia é, no fundo, relativamente simples: ela satizfas-se em pregar uma rasteira fingindo fazer outra coisa diversa, fingindo ser o seu contrário ou simulando atalhos, mas nunca perdendo de vista o objectivo que se fixou; e cada vez mais ela baralha as pistas, mais se torna claro para onde ela vai, melhor ela sustenta a sua tese."

Este é todo um programa para a abordagem da ironia, em contraponto do humor, categoria filosófica muito difícil a definir, ou a isolar.Santo Agostinho de Ipona, quando o questionava sobre o Tempo (o que é o tempo?) respondia, sempre, do mesmo modo "Quando não mo perguntam, sei o que é; quando me exigem uma explicação, uma definição, o embaraço instala-se."
No mesmo dossier, o filósofo, A. Finkielkraut, coloca-nos perante uma situação de quase emergência duma nova barbárie atelada a uma "zombaria generalizada". esta tese é válida para França, como para Portugal. Veja-se o que ocorri com os Gatos Fedorentos (em pousio, mas ameaçam voltar) e, actualmente, com os Contemporâneos na RTP1, aos domingos. Os interditos, todos eles, caíram: faz-se "humor" com velhos, com atletas de mérito, com políticos, com autarcas, com jornalistas e, depois, convidam-nos para serem "achincalhados" em "directo" (Herman José foi o pai fundador desta zombaria - sem interditos!).
O filósofo AF faz uma reflexão deveras impressiva duma época, como o sustenta Mikail Baktine, linguista russo, que atravessamos uma em que "todos os dias são Carnaval"!
AF conta um episódio singular. Roland Barthes, linguista, semiólogo, francês, foi actor principal num filme, que eu não vi, de Erich Rhomer, Perceval. Filme este que emocionava, particularmente, Roland Barthes. Escreveu ele o seguinte:" Nas salas de cinema, o fumo do tabaco incomoda os espectadores. Por isso foi proibido e ninguém reagiu ou protestou. Mas os risos, que atrás de mim acompanham o filme, que me emociona, que eu amo, que eu admiro - nenhuma lei o pode proibir e, no entanto, eles ferem-me!"
O paradoxo, hoje, o riso bárbaro, nivelador, pretende-se subversivo. Uma das figuras do Canal + sugeriu, faz tempo, algo de curioso: "O jornalista, é a pertinência; o animador, é o impertinente."
Hoje, todos,ou quase todos, políticos, jornalistas, clérigos, professores, cientistas, desportistas, vergam-se, submetem-se à lógica da zombaria. Quando um realizador de TV "apanha" um deputado, na Assembleia Nacional (França), a dormitar, ou a procurar enquadrar-se com a câmara- o deputado torna-se ridículo e o Canal de TV passa a mensagem de que consegue desafiar o Poder. Jogo de espelhos e banalização do Poder!
Com este riso linchador somos reenviados às nossas origens. Somos projectados dentro da história em aceleração - que nos leva ao que Nietzche definiu como "o último homem", que já não ri, que pisca, simplesmente, os olhos.
JA

sexta-feira, julho 11, 2008

GILGAMESH


A epopeia de Gilgamesh é o relato da história do rei de Uruk, uma das cidades-estado da Mesopotâmia, na qual ele terá construído os muros amuralhados de defesa e de suporte.
A lista Suméria dos seus Reis escrita no principio do 2.º milénio antes da nossa era distingue um período pré-histórico, anterior ao Dilúvio e um outro, histórico, que sucede ao cataclismo.
Naquela lista, Gilgamesh faz parte da primeira dinastia após o Dilúvio e reina em Uruk cerca de 2600 a.c.
Gilgamesh é um herói, mas, as mais das vezes, mesmo um anti-herói, que incarna a dimensão à vez trágica e ridícula do ser humano em demanda duma vida inacessível, desejando escapar à morte.
Esta epopeia, de Gilgamesh é, provavelmente, a obra literária mais antiga de que temos conhecimento. É um poema épico que deveria ter, na origem, mais de três mil versos. Conhecemos menos de dois terços da obra original, encontrados em tabuinhas de argila e em escrita cuneiforme. A versão ainda assim mais completa chega-nos através dos achados arqueológicos feitos no que terá sido a biblioteca de Assurbanipal (669-630 a.c.), redigidos em Acádico.
É um belíssima história que vale a pena ser lida. As aventuras de Gilgamesh e do seu amigo Enkidu; o terrível Humbaba, o ogre monstruoso guardião da floresta dos Cedros no Líbano; o Touro-Celeste e a Deusa Ishtar (das mais importantes do panteão Sumério).
Gilgamesh é, no principio do seu reinado, arbitrário, tirano, arrogante, mas, depois, sob a influência do seu duplo, Enkidu, torna-se sábio e bom. Vão á procura da "planta da vida"... Leiam que vale bem a pena.
Um pedaçito da epopeia, coisa pouca, para abrir o apetite de quem não conhece: "Para onde corres tu, Gilgamesh? A vida que tu persegues, não a encontrarás. Quando os deuses criaram a humanidade foi a morte que estes lhe reservaram! A imortalidade, essa, eles guardaram-na para si mesmos. Tu, Gilgamesh, que o teu ventre esteja sempre farto! Dia e noite, felicita-te! Em cada dia, goza-o! Dança e diverte-te! Que a tua bem amada tenha prazer em teus braços! Tal deve ser a ocupação dos homens."
JA


As cerejas, devido às intempéries, já não são o que eram.

No blogue de Vítor Dias, O Tempo das Cerejas, dá-se conta do desaparecimento deste colombiano, casado com uma mulher de nome Betancur e com uma filha pequena.
É comunista, autarca e dirigente sindical.
Tudo indica que tenha sido sequestrado pela policia metropolitana de Bogotá, às ordens de Uribe. A família tem feito démarches para saber do seu paradeiro: debalde. Nada se sabe.
Como se condena, e bem, os sequestros "revolucionários" das FARC, aqui fica o meu repúdio por este atentado ao mais elementar dos direitos humanos: a liberdade.
Uma sugestão: as FARC, movimento marxista-leninista, que se autonomizou do Partido Comunista da Colômbia (vide artigo de Miguel Urbano Rodrigues, in Avante), que pratica o sequestro como arma política, porque não propõe uma "troca" de reféns? Trocar Guillermo Rivera Fúquene por....Então, se ao tempo de Brejenev o PCUS trocou dissidentes soviéticos pelo SG do PCChileno, Luís Córvalan....há,pois, doutrina e praxis sobre a matéria.
JA
PS - Então é o camarada Carlos Almeida, quase três meses após esta ocorrência do sequestro de Fúquene, que passa a informação a Vítor Dias?...
Onde já vai o tempo (das cerejas?!...) em que Vítor Dias, membro da Comissão Política do PCP - era o homem mais bem informado de todos quantos "trabalhavam" a "informação".

quinta-feira, julho 10, 2008

O Bastonário da Ordem dos Advogados fala claro...e bem.


O Bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Marinho e Pinto, ontem, em Leiria e, hoje, na RTP em entrevista à jornalista Judite Sousa "escaqueirou" o sistema judicial português, os Juízes, Magistrados, Procuradores e, particularmente, o Sindicalismo dos titulares dum dos Órgãos de Soberania: os Juízes.

Fê-lo no seu estilo peculiar, que lhe é próprio, truculento, mas SEMPRE frontal e transparente!

Gostei.

José Albergaria

O Humor: essa insustentável leveza literária.

A revista francesa "Magazine Littéraire" de Julho-Agosto de 2008 publica um interessante, quanto desconcertante, dossier sobre o Humor (no sentido que os ingleses lhe atribuem)e a literatura.

"O humor é aquilo que resiste ás dores, que escapa às malfeitorias: à Morte (um supino remédio contra a dor de dentes, como o afirmava, gostosamente, Georges Brassens), às canalhices dos homens, dos tiranos, de Deus, da paixão, a todas as categorias de infortúnio. É pelo Humor que nos salvamos da gravidade: sem o qual o dandi, não é mais do que um snob; sem o qual o sábio não é mais que um poltrão. É salvar-se da malquerença, com um sorriso, quando a ironia, ao contrário, é uma estratégia, um sistema, uma doutrina. (...) Na ironia, ao contrário, rimos contra o outro, mesmo contra si mesmo. O humor perdoa e compreende, aí onde a ironia despreza e condena. O humor apazigua, a ironia magoa. O humor é um escudo (contra a morte?). A ironia é uma espada (contra o mal?). Quando um protege, o outro separa."

Ora que belo tema para a nossa blogoesfera!
A distinção entre o humor, os que têm graça e são tocados pela graça da elegância ética e da estética e os rudes, ruidosos, prenhes de ironia - que magoam, que melindram, que separam. Os que se gastam, e desgastam, na adjectivação bacoca, oca e vazia de substância (avinagrado, verme, trafulha, "caro", de baixo QI,morder e etc)pretendem alcançar, não o Humor, mas a Ironia rasteira e assassina!

Para remate de conversa, um exemplo espantoso de humor.

Um homem de ciência, ao tempo do Terror na revolução francesa, condenado à guilhotina, já na carreta de condenado, é interpelado sobre uma questão científica. Resposta do sábio, do condenado: "Irei reflectir sobre isso, mais tarde, e com a cabeça bem repousada".

JA

terça-feira, julho 08, 2008

Menina e Moça

É dos textos mais misteriosos, tanto quanto ao autor, Bernardim Ribeiro, de quem muito pouco se sabe (terá nascido no Torrão, em fins do quatrocento e morrido para lá dos meados de quinhentos...), como quanto ao corpus literário - sobre o qual existem múltiplas leituras...
Referências dos contemporâneos,que com ele peitaram, Sá de Miranda e Luís de Camões, poucas ou quase nenhumas!...
"Menina e Moça" livro de espantar, ainda hoje se lê com mor deleite e prazer infindo.
Em edição critica, Teresa Amado se lhe refere, com desfalecimento, deste modo: " Já atrás me referi a algo que para mim se tornou uma certeza: que a Menina e Moça não é obra duma escrita «romanesca» no sentido em que o romance seja arte representativa, mas sim duma escrita em que domina o estilo que poderia chamar-se «transfigurativo» porque produz a imagem invisível - psíquica, espiritual- dum real que, aparentemente, pinta, ou, inversamente, transforma em história, pessoas e coisas, os objectos espirituais a que, efectivamente, se refere."
Mas o que importa é conviver com Bernardim Ribeiro e com o seu Menina e Moça.
Leia-se a entrada, o "Monólogo da Menina": "Menina e moça me levaram desta casa de minha mãi para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez triste ou, per ventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha."
Que prazer na leitura e nas releituras que se fazem, ou podem fazer, desta obra maior do Cancioneiro de Garcia de Resende!
Foi por este contemporâneo deleite que postei Bernardim e a sua Menina e Moça.
JA

segunda-feira, julho 07, 2008

Rui Bebiano é um Homem Honrado!

Na "polémica" recente, que com ele travei na blogooesfera, a partir dum debate publicado na revista Le Magazine Littéraire, nº 477, entre Pierre Nora e Élie Barnavi, sobre História e Memória (e não só...), fui duro e, porventura, excessivamente exigente com o meu respeitado historiador e activíssimo blogger.
O modo, o tom e a forma, que Rui Bebiano utilizou para me responder e, sobretudo, o facto de ter integrado a minha critica nos dois blogues onde participa (A Terceira Noite e Caminhos da Memória) denotam um Homem probo, honrado e, intelectualmente, duma ética à prova de bala.

Fico contente por reconfirmar as impressões que dele tinha colhido, quando comecei a conviver com a sua escrita, opinativa, militante e cientifica.

Bem haja pela elevação com que tratou a minha critica.

José Albergaria

NB - Voltarei, com gosto redobrado, ao debate que iniciei sobre o tema, que o Rui Bebiano introduziu...mas, somente, para a semana próxima.

Para me apaziguar, uma e outra vez, Maria Gabriela Llansol.

Esta é a mesa de trabalho que foi de Gabriela Llansol e que pode ser vista no "Espaço Llansol", em Sintra.

Mas, o que a mim me importa é deixar falar a minha escritora, a que me foi revelada, não como uma religião, como um deus, mas como uma estética e, hei-de ainda descobri-lo - como uma ética!

Daquele maravilhoso Livro, " O Começo De Um Livro É Precioso", com desenhos de Ilda David e com a chancela da Assírio & Alvim:

"6

Também se pode deixar cair a alma. Dá-se na troca dos passeios.

Dou-me conta. Não me iludo. Frases breves e passos breves.

Nesta vista cresci, mesmo se por vezes meu movimento se coalha

De reflexos multiplicados. Sempre terei de comer e beber.

O que mais noto para comer é o silêncio.

No que reparo mais para beber é a cor."

Eu sempre achei, que o beber nos enchia, a vida e a alma,de cores!José Albergaria

domingo, julho 06, 2008

Rui Bebiano: historiador ou ideólogo?!...


Estou furioso.

Leitor atento e devotado de Rui Bebiano, inicialmente, no "A Terceira Noite" e, hoje, no "Caminhos da Memória" construi dele a ideia de pessoa rigorosa (a sua biografia no Caminhos da Memória atestam-no), competente, sério e cultor duma certa ética enquanto historiador, ao modo de Heródoto. o pai da História.

Por essa razões, por esse convencimento, quando li o poste que RB publicou a pretexto dum "debate" entre Pierre Nora e Élie Barnavi, judeu nascido em Bucarest, na Roménia, aderi logo à proposta de RB e aceitei o desafio de particpar no debate sobre um tema que me interessa sobremaneira: história e memória e a ética do historiador enquanto cidadão.

Dei, nem tinha razões para que não fosse assim, como boas e rigorosas as citações e as traduções a partir do francês, da responsabilidade de RB.

Aceitei, de caras, sem hesitação, que estavamos perante "duas formas absolutamente opostas de olhar a relação entre memória e história".

Por todas estas razôes dediquei-lhe, ao poste e ao tema do RB, aqui no Aqueduto Livre, longuíssimo poste, com múltiplas, diversificadas referências e citações que me pareceram bastantes para uma primeira etapa do debate,

Ontem, Sábado, dia 5 de Julho comprei a revista "Le Magazine Littéraire", n.º 477 de Juillet-Août de 2008, onde está publicado o "Débat, Élie Barnavi e Pierre Nora, la fin de l´hiostoire?" (chamada de capa).

Li a peça uma, duas, três vezes e fiquei furioso, mesmo muito zangado,para não dizer estupefacto!

E porquê? Por que não encontrei lá nada, mesmo nada, daquilo que o RB sugeriu no seu poste.

Encontrei mesmo frases que o RB traduziu pessimamente, distorcendo-as e alterando-lhes o sentido:GRAVE, muito grave!

O trabalho de alfaiate, de corte e cola, feito por RB com as respostas dos dois eminentes historiadores, para casar uma tese sua, um preconceito seu,uma convicção sua ...inenarrável!

O modo como RB fatia as respostas de Pierre Nora e Élie Barnavi são do dominio, no minimo, da manipulação impúdica, direi mesmo, a roçar uma certa imoralidade!

Estou a exagerar? Vamos ver.

Para demonstrar o que digo, publico, integralmente, o poste de RB e vou atribuir números às frases traduzidas e utilizadas por RB, para, mais facilmente, as poder analisar e criticar:

"O número de Julho-Agosto do Magazine Littéraire transporta consigo, para além de um notável dossiê sobre as conexões entre humor e literatura, a reprodução de uma conversa – «L’Histoire, victime de la mémoire?» – entre o académico Pierre Nora, actual director da revista Débat e autor do incontornável Les Lieux de la Mémoire, e Élie Barnavi, professor da universidade de Tel Aviv e conselheiro científico do Museu da Europa, em Bruxelas. Mais do que a exposição de duas formas absolutamente opostas de olhar a relação entre memória e história, ela serve para ajudar a desmistificar a ideia segundo a qual esta última é um saber frio e unívoco, do qual os valores da subjectividade e da cidadania se devem manter desejavelmente afastados.
Traduzindo os destaques (que sugerem muito bem o tom de toda a conversa a duas vozes):
1/Barnavi: «A História tem sido notificada para se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História parece-me uma das características mais graves da nossa época.»
2/Nora: «O tempo no qual os positivistas conservavam à distância a história contemporânea parece hoje completamente ultrapassado. Fazer História é fazer história contemporânea.»
3/Barnavi: «Um dos males que corrói a nossa época é a confusão de papéis entre o historiador e o ideólogo.»
4/Nora: «A memória incorpora doravante uma reivindicação particularista, subjectiva e peremptória, quando não terrorista.»
Um debate que é para (e que deve) continuar." Rui Bebiano, in "Os Caminhos da
Memória"

Comecemos pelo principio.

E o principio é o TEMA do próprio debate proposto pela revista:"L'Histoire, victime de la mémoire? Les historiens ont perdu le monopole de l'interprétation du passé. Les interventions de l'État et les revendications identitaires grandissantes sont-elles en train dímposer un nouveau sens à l'Histoire?"

Este é o titulo completo e o TEMA proposto pela revista.

Ainda na introdução, da responsabilidade do jornalista que faz as perguntas e que recolhe as respostas, Alexis Lacroix, encontramos outros tantos subtemas de mor importância para os historiadores e para a historiografia:"La France est-elle toujours la patrie des historiens? Y a-t-il une vie aprés L'école des Annales fondée par Marc Bloch et Lucien Febvre? L'accéleration de l'Histoire, conjuguée aux nouveux usages de la mémoire, est-elle en train de priver l'historiens d'audience et de légitimité? Pourquoi l'État veut-il patrimonialiser les Archives? Pour débattre de ces enjeux d'actualité, Le Magazine Littéraire a imvité deux historiens éminents, l'académecien Pierre Nora, directeur de la revue Débat, et le conseiller scientifique du musée de l'Éurope, Élie Barnavi."

Vamos então às frases "utilizadas" por RB, contrapondo-lhe a frase "completa" em francês e, depois, a minha tradução.:

1/Élie Barnavi:"Une science qui permet de toucher sinon toute la verité, du moins un pan de la verité. Jusqu'à une époque récente, la memoire avait valu surtout comme un matériau de l'historien. Le fait nouveau, c'est que, désormais, la mémoire s'émpare de l'Histoire. Ainsi l'Histoire est elle sommée de se mettre au service de la mémoire. Cette appropriation de l'Histoire par la mémoire me semble l'une des caractéristiques les plus graves de l'époque." "Uma ciência que permite alcançar senão toda a verdade, pelo menos uma fralda da verdade. Até uma época recente, a memória valia como material para o historiador. O facto novo é que, daqui em diante, a memória apoderou-se da História. Assim a História é intimada a se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História pela memória, parece-me, uma das características mais importantes desta época."

2/Pierre Nora:"Ce qui découle dábord de la politisation de l'Histoire, c'est sa contemporanéisation.Par «contemporanéisatio», j'entends la transformation de l'Histoire en une zone sensible, tributaire des tragédies récents du XXe siécle. L'époque où les positivistes tenaient à distance l'histoire contemporaine, saturée à leur goût d'enjeux passionnels, semble,aujourd'hui révolue. Faire de l'Histoire, c'est faire de l'histoire contemporaine." " O que dimana em principio da politização da história, é a sua «comtemporanização». Por «comtemporanização» eu entendo a transformação da História numa zona sensivel, tributária das tragédias recentes do século XX. A época na qual os positivistas mantinham à distância a história comtemporânea, saturada a seu gosto de paradas/jogadas passionais, parece, hoje em dia, ultrapassado. Fazer a História é fazer história contemporânea."

3/Élie Barnavi: «Le mal qui ronge notre époque, c'est la confusion entre le rôle de l'historien et celui de l'ideólogue.» «O mal que atormenta a nossa época é a confusão entre o papel do historiador e o do ideólogo.»

4/ Pierre Nora: «La mémoire porte désormais une revendication particulariste, subjective et péremptoire, quand elle n'est pas terroriste.» « A memória traz consigo, de ora em diante,uma reinvidicação particularista, subjectiva e peremptória, quando ela não é terrorista.»

Para já está feita a análise e alguma critica.

Quanto às Duas Vozes e às "...duas formas absolutamente opostas de olhar a relação..." só consegui descortinar o seguinte, e cito: "Pierre Nora: "Cela dit, contrairement à vous, je préfere au terme vérité historique, celui de realité. Pour bien souligner que la verité dont il s'agit est à la fois fragile et incertaine, et qu'elle relève d'un champ d'hypothèses."

O amor da verdade, a minha consciência e ainda porque me senti abusado, exigiram-me esta posição e este poste.

José Albergaria