sexta-feira, julho 25, 2008

Interesse nacional, comércio internacional e boa governança.

Por estes dias tem-se discutido bastante as iniciativas internacionais do eng.º Sócrates. Foi à Argélia, foi a Luanda, foi à Líbia e recebeu o Presidente eleito (digo: reeleito) da Venezuela. Portugal, faz muito tempo, tem interesses em Luanda e na Venezuela. Ultimamente tem-se aproximado de Kadhafi e da Líbia (aquando da cimeira com África durante a presidência portuguesa da UE).
Estas iniciativas internacionais do eng.º Sócrates visaram, sobretudo a realização de negócios: comprar matérias primas, essencialmente, hidrocarburos e vender o que temos (obras públicas estão no top das nossas contrapartidas).
Estivemos, sempre, a falar de economia.
Nunca se colocaram questões ideológicas.
Nas declarações conjuntas nunca, da parte portuguesa se verificou a mínima das manifestações de apoio aos "regimes" que cada uma destes senhores representa: Chavez, Eduardo dos Santos e Kadhafi.
Chavez veio á Europa. O primeiro país que visitou? Portugal. Depois foi demandar terras de Espanha, para se reunir com o Rei, que foi treinado por Franco e que foi "empossado" pelo velho ditador. Esse facto histórico tem diminuído D. Juan Carlos de Bourbon (parece que ainda é Rey do Algarve!)? Não me parece.
Mas quando D. Juan Carlos mandou calar Chavez (por que estaria a chamar fascista a D. Aznar...) todas as "boas e puras almas" de democratas convictos aplaudiram o Rey. Porquê? Por que tinha posta na linha o messiânico, o bolivariano, o populista (eleito várias vezes em eleições limpas na Venezuela) Hugo Chavez.
Agora, Hugo Chavez, foi a Espanha para receber as "desculpas" do Rey da Espanha...que já foi imperial!
Quando misturamos flores com (...) baralhamos os tópicos, os dossiers, os planos da discussão e tuti e quanti!
Quando não temos cão caçámos com gato. Quando não temos hidrocarburos, ou gaz natural, o que fazer? Investimos em Angola, no Brasil e na Venezuela...Porquê? por que fizemos questão e aqueles países nos autorizaram. O que estamos a fazer, agora? Estamos a diversificar as dependências. Estávamos a comprar, quase exclusivamente, gaz natural à Argélia. Vamos receber gaz natural da Venezuela e também da Líbia.
Estamos, e bem, a investir nas energias renováveis em Portugal e, a EDP, está a investir, nesta área, nos USA.
Importa fazer uma referência a uma questão central no nosso paradigma económico.
As actividades económicas não são TODAS iguais.
Por que é que o Estado tem de ter uma Banco Comercial, a Caixa geral de Depósitos? Porque é que o Estado tem de ter o "controlo" das empresas energéticas ( GALP e EDP)? Porque é que o Estado tem de ter o controlo das Águas de Portugal e das Estradas de Portugal?Porque é que o Estado tem ter o controlo da PT/Comunicações e da RTP? Porque é que o estado tem de ter o Controlo das Barragens?
Isto é todo uma debate, constantemente em cima da mesa. Os liberais, mesmo a sério, acham que há Estado a mais na economia . Os esquerdistas, sócio-marxistas, acreditam que poderia haver ainda mais Estado na Economia.
É o sempre "estimulante" debate esquerda direita.
Agora, há aspectos inquestionáveis: o interesses nacional, a defesa nacional, a soberania nacional! Há coisas que não se podem alienar para os privados. O exercício da ordem, da justiça, da emissão de moeda, da defesa nacional e, digo eu, a energia (qualquer que ela seja: fóssil, eólica, hídrica), as comunicações e etc.
A discussão à volta dos salamaleques que o eng.º Sócrates fez aos dirigentes de Angola, Venezuela e Líbia é, mesmo e só, para fugir ao debate das bem sucedidas (ou não...) iniciativas económicas e comerciais do actual Governo.
Que negócios fez José Sócrates em Luanda, na Líbia e na Venezuela? Teve de se vergar à "excelência" dos regimes, das práticas políticas vigentes?
Passa pela cabeça de alguém, hoje em dia, deixar de fazer negócios com os USA, porque o Bush é "semi-louco"? Passa pela cabeça de alguém, no seu perfeito juízo, dirigente de governo, ou empresário (se tiver oportunidade) deixar de fazer negócio com a China continental, a República Popular da China (porque o regime é feudal, é inumano e totalitário)?
Há por aí muita gente inteligente a gastar argumentos torcidos, disfuncionais e inadequados à problemática.
José Albergaria
PS - Algumas perturbações históricas.
Na década de sessenta do século XX, quando os mineiros asturianos, sob a ditadura de Franco faziam greve, a Polónia socialista, vendia carvão a Espanha.E isto no tempo em que os campos estavam bem definidos. Hoje, com uma única (por enquanto)potência imperial, os USA, as coisas estão bastante mais baralhadas.
Na história encontramos muitas perturbações, mesmo ao tempo de Hitler. Basta recordarmos, simplesmente, o pacto Germano-Soviético.
Misturar uma ética de pacotilha, com negócios de Estado...dá sempre mau resultado, em meu entendimento.

quinta-feira, julho 24, 2008

Ainda e sempre Robert Musil: "De La Bêtise".

Robert Musil foi noticia, recentemente, em Portugal, pela muitíssimo boa tradução de João Barrento do "Homem sem Qualidades", editado pelas Edições Dom Quixote.

Continuo às voltas com o texto/conferência, apresentada em Viena a 11 de Março de 1937, que Robert Musil fez "Sobre a Estupidez". Então a besta nazi já tudo tinha corrompido, na Alemanha.

Todo o texto é de uma pré clara eficiência e actualidade. Vale por isso a pena lê-lo ou relê-lo.

Para recuperarmos o contacto com Musil, um pedaço mais:

"Fala-se hoje duma crise de confiança no humanismo, duma crise que ameaçará a confiança que todos colocamos no homem até aqui; poderíamos falar duma espécie de pânico que estaria a suceder à segurança onde nos encontrávamos ao ponto de levar a nossa barca sobre o signo da liberdade e da razão.

E não devemos dissimular que esses dois conceitos morais que também se alastram à moral da criação artística:liberdade e razão, conceitos que a idade clássica do cosmopolitismo alemão nos havia legado como critérios da dignidade humana,começaram a dar sinais, desde o meio do século XIX, ou um pouco mais tarde, de decrepitude. Deixaram de ter "validade", deixamos de saber o que fazer com eles; e se os deixamos secar, estiolar, o mérito é menos dos seus adversários do que dos seus defensores."

O que a seguir se desenrolou todos o sabemos. A hecatombe, a Shoa, o genocídio e a barbárie que se abateu sobre a Europa e no mundo inteiro, deu ilustração cabal a este texto de Musil.

JA


quarta-feira, julho 23, 2008

A Reforma da Justiça e o Bastonário da Ordem dos Advogados

O Dr. António Marinho e Pinto, ex-jornalista, advogado e actual Bastonário da Ordem dos Advogados, tem vindo, militantemente e apoiado no seu programa de candidatura vencedora á Ordem dos Advogados, a fustigar tudo quanto, em seu entender, está mal na JUSTIÇA.
Em meu entender, tem-no feito bem e de modo contundente, eficiente.
Na blogoesfera (tirante os blogues especializados, detidos por competentes causidicos e correlativos), nos blogues generalistas ou que se dedicam à politica - tem reinado, sobre a matéria em apreço uma espécie de cortina de silêncio. As razões? Não faço a mínima das ideias, mas que me desconcerta...lá isso desconcerta!
A Justiça, ou o poder de a exercer, é um dos TRÊS poderes que o Soberano (entenda-se, hoje, o Povo) delegou: O Governo(poder executivo);O Parlamento (poder legislativo) e os Tribunais, mais os magistrados, os procuradores do ministério público,os advogados (o poder judiciário). Isto é um esquema muito simples dos poderes, aos quais acrescem ainda os aparelhos ideológicos do poder (a escola, a igreja, os partidos, e etc...), mas para a utilidade do meu argumentário basta.
Mas voltemos à vaca fria.
O Bastonário, Marinho e Pinto tem lançado o pânico nas hostes "situacionistas" e que estão a sufocar o sistema.
Em quem é que ele zurze, com certeira e ajuizada pontaria? Nos Juízes, nos tribunais e no "Sindicato" dos Magistrados!Pasme-se, um sindicato para detentores do Órgão de soberania?! Porque não um sindicato para os Ministros? E outro para os Secretários de estado?! E ainda outro para os deputados?!
O Bastonário, corre o inenarrável e vitalício Cluny (não confundir com o livro de Henry Miller "Les Jours tranquiles à Cluny")à vergastada e equipara, e bem, o espaço dos tribunais, ao espaço hediondo dos tribunais plenários no fascismo!Atente-se à organização dos espaço dos tribunais: O Juiz no palanque, a dominar de frente todo os espaço cénico; os advogados patrocinadores das partes, sentados lateralmente, numa quota abaixo da do Juiz; o procurador, ao fundo por trás do arguido, ou testemunha, numa quota acima dos advogados, mas ligeiramente abaixo do Juiz; o arguido ou testemunha, só, no meio do espaço vazio, objecto e centro dos olhares de todos os "actores" desta ópera bufa, apoucado, diminuído, acossado e...leva, ainda, na retaguarda com o procurador...
Portanto, quando Marinho e Pinto diz que os tribunais semelham aos do fascismo, utilizados para calar, prender e diminuir os adversários do regime...tem toda a razão!
Há quem sustente que a reforma da justiça, como todas as reformas de estado, ou do estado devem ser proporcionadas pelo Governo.
Parece-me bem que sim.
No entanto é preciso preparar a opinião pública, é necessário "ganhar" ou neutralizar os actores que podem ser agentes activos da mudança, ou "contra" reformistas (os juízes, os procuradores, os advogados, os...sindicatos de todo o jaez).
O Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho e Pinto, tem tido uma actividade meritória na denuncia das situações, tem dado nome aos "bois" e tem arrostado com uma multitude de campanhas, algumas até visando o seu carácter e honradez. O seu estatuto actual dá-lhe visibilidade, protagonismo e isso aumenta o alcance e a proficiência das suas mensagens.
No site da ordem dos Advogados - deixou um extensíssimo documento que, na minha opinião é de leitura obrigatória para TODOS os que estão preocupados com o Estado, com as necessárias e urgentes Reformas e com o estado e a reforma da Justiça em Portugal:
(este texto foi reduzido por mim a dia 25 de Julho)
" A COMPARAÇÃO ENTRE MAGISTRADOS E PIDES
O primeiro tem a ver com as tentativas de intoxicação mediática a que continuaremos a estar sujeitos por parte de alguns jornais de Lisboa que durante a campanha eleitoral estiveram declaradamente a favor de um candidato derrotado. Recentemente, um tablóide lisboeta, o Diário de Notícias, chegou ao ponto de fazer uma manchete a propósito da minha remuneração, apresentando-a quase como se fosse um roubo à Ordem dos Advogados. Ou seja, uma proposta do meu programa e que fora apresentada de forma transparente durante a campanha eleitoral foi noticiada, em finais de Junho p.p., pelo Diário de Notícias, foi noticiada como se fosse um golpe oportunista do Bastonário depois de eleito. O segundo tem a ver com as notícias segundo as quais eu tinha comparado os magistrados a agentes da PIDE. É falso. O que se passou foi o que a seguir se descreve. Fui convidado pelo antigo Presidente da República, Dr. Mário Soares, para proferir uma conferência sobre a crise da Justiça, na Casa Museu João Soares, em Cortes, Leiria, a qual se realizou na passada 4ª feira, dia 9 de Julho. A conferência destinava-se sobretudo a empresários e membros da Liga de Amigos dessa Casa Museu. Os Organizadores também enviaram convites a alguns poucos Advogados, tendo comparecido cerca de uma dezena. Sintomaticamente, dois Colegas de Leiria, que tinham sido apoiantes de outro candidato nas últimas eleições, andaram a fazer pressões junto de Advogados para que não fossem a esse jantar. Pressões à parte, o jantar conferência contou com a presença de cerca de uma centena de pessoas e, ao analisar as causas da degradação que atingiu o nosso sistema judicial, apontei, como uma dessas causas, a cultura de poder dominante nos nossos tribunais, em vez de uma cultura de responsabilidade. Afirmei que, infelizmente (foi este o termo que utilizei), alguns magistrados, devido ao imenso poder que têm, preocupam-se mais em manter esse poder, preocupam-se mais serem temidos do que em serem respeitados. E disse que o mesmo se passou com os antigos agentes da PIDE/DGS nos últimos tempos do estado novo – tinham tanto poder que não se preocupavam nada com a opinião que as pessoas em geral tinham acerca deles. Foi apenas a este aspecto e que se referiu a dita comparação, sendo certo que realcei mesmo, a minha preocupação pelo facto de haver cada vez menos pessoas a respeitar os magistrados, justamente porque alguns deles estão mais interessados em que os cidadãos e até os Advogados lhes tenham medo. A badalada comparação entre magistrados e PIDES consistiu nisso e apenas nisso. O resto foi pura falsificação e manipulação. Repare-se que nunca há problemas com as declarações ou entrevistas que eu dou em directo, mesmo as mais contundentes. A polémica só surge quando as minhas posições são noticiadas ou transmitidas em diferido por alguns órgãos de informação. Temos, pois, de estar atentos porque alguns sectores estão dispostos a usar todos os meios, inclusive, a falsificação das minhas declarações para inviabilizar essas reformas. O terceiro ponto tem a ver com uma reunião conspirativa de alguns antigos Bastonários, apoiantes de um candidato a Bastonário que saiu derrotado. Alguns desses antigos Bastonários já me atacavam no próprio dia das eleições ainda antes de os votos estarem contados e outros nunca esconderam o desconforto por ter sido eleito Bastonário um Advogado que não pertence ao círculo da aristocracia tradicional de onde habitualmente saíam os candidatos vencedores. Garanto que tudo farei para sensibilizar esses ilustríssimos antigos bastonários sobre as virtudes da Democracia, principalmente das eleições livres e com voto universal e secreto. É que, como costuma dizer o nosso Colega João Pereira da Rosa (citando um antepassado seu): «qualquer homem é capaz de ganhar umas eleições; mas, para as saber perder é preciso ser-se um grande Senhor». Infelizmente na Ordem dos Advogados há muita gente que só está habituada a ganhar eleições e, por isso, não sabe perdê-las. Aliás, tem havido mais reuniões desse cariz, incluindo de membros de uma lista derrotada nas últimas eleições, provavelmente preparando-se, para aparecerem, na altura própria, para capitalizar a situação, ou seja, para me responsabilizar pela chicana que os seus apoiantes andam a fazer agora. Mas isso é matéria para desenvolver noutra ocasião.
Lisboa, 14 de Julho de 2008 A. Marinho e Pinto(Bastonário)".
Está aqui tudo e mais aquilo que precisamos de saber sobre a "nossa" justiça e sobre a justiça a haver em Portugal.
Uma nota final.
Será interessante tentar interpretar os "silêncios", tanto do PCP, como do BE sobre as "polémicas" declarações do Bastonário e sobre os "dossiers" que ele tem vindo a abrir.
Tão lestos, ás vezes parece que estão á compita, a atirar saraivadas de pedras, zagalotes e outras munições sobre caça bem menos grossa que esta - porque não falam?!
Pode-se perceber que os Partidos situacionistas, PS e PPD/PSD não se "estiquem" nesta situação, exactamente, porque fazem parte e formatam, à vez, o sistema, mas Partidos - quase anti-sistémicos,como o PCP e o BE, porque não falam?!
O gato, neste caso, comeu-lhes a lingua? É bem possível!
JA

terça-feira, julho 22, 2008

Albert Camus: a actualidade dum intelectual.

A 10 de Dezembro de 1957 Albert Camus, francês nascido em Argélia, desloca-se à Câmara Municipal da cidade de Estocolmo para receber o prémio Nobel da Literatura.
Nessa ocasião profere um discurso de congratulações e agradecimentos, cuja actualidade me parece duma evidência impressionante.

Nesse discurso, hoje classicizado como " O Discurso da Suécia", Camus reflecte sobre o oficio do escritor e do artista, sobre a sua ética e sobre o seu comprometimento.

Diz aí, naquele texto, uma soma de afirmativas, umas mais assertivas que outras, mas o que se pode entender como todo um programa sobre estética e cidadania: " (...) o escritor pode encontrar o sentimento de comunidade viva que o justificará, na única condição que aceite, e na medida em que ele o possa fazer, os dois encargos que fazem a grandeza do seu oficio: o serviço da verdade e o da liberdade."

Ainda falando do oficio do artista, do escritor, Camus, definitivo, sustenta: "Quaisquer que sejam as limitações pessoais, a nobreza do nosso oficio adquirirá raízes sempre em dois compromissos difíceis de sustentar: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão."

Continuando a salmodiar, quase em tom de litania, mas certeiro, continua Camus:

" No mesmo lance, depois de ter falado da nobreza do oficio de escrever, coloquei o escritor no seu devido lugar; não tendo outros títulos senão aqueles que ele partilha com os seus companheiros de luta; vulnerável, mas casmurro; injusto e apaixonado pela justiça; construindo uma obra sem ódio nem orgulho, à vista de todos, sempre dividido entre a dor e a beleza, sempre destinado, enfim, a desenterrar do seu duplo ser as criações que ele tenta, obstinadamente, edificar no movimento destruidor da história. Quem, depois disto poderá esperar dele belas morais? A verdade é misteriosa e fugaz, sempre a conquistar. A liberdade é perigosa, dura para se viver e, ao mesmo tempo, exaltante. Devemos caminhar em direcção a esses dois objectivos, penosamente, mas resolutamente, certos à partida dos nossos fracassos sobre esse longo caminho."

Leiam, ou releiam, este texto impressivo, tanto quanto actual, dum dos grandes intelectuais do século XX, nascido em 1913 e falecido em 1960, vitima dum estúpido acidente de viação. Igual àquele outro que vitimou, recentemente, o intelectual e cidadão polaco - Geremek.

JA


segunda-feira, julho 21, 2008

"Por uma carta dos direitos dos mortos"

O titulo e a fotografia foram tomadas de empréstimo a Vítor Dias e ao seu blogue O Tempos das Cerejas, com a devida vénia e agradecimento.
Creio que, no seu poste e no fundamental, Vítor Dias tem razão.
Como existe uma Carta Fundamental dos Direitos Humanos, deveria (essa é a proposta de Vítor Dias) haver uma Carta dos Direitos dos Mortos: dos que foram mortos em Estalinegrado, em Leninegrado, mas também dos que foram trucidados, varridos, em Dresden, em Tóquio, em Hiroshima, em Nagasaki, em Berlim, os milhões de mortos sem nome ao tempo de Estaline, as centenas de milhares que foram vilmente assassinados por Pinochet no Chile, por Varela na Argentina, por Somoza na Nicarágua, por Franco na Espanha, por Salazar (isso tratamos todos nós, mas mal...), por Pol Pot no Cambodja, pelo actual regime chinês... e a lista é infinda.
Estou de acordo com Vítor Dias quando afirma que os militantes de esquerda assassinados pelos paramilitares e pela policia de Uribe (se foi o caso do militante do Pólo Democrático, autarca de Bogotá e sindicalista Fúquene) devem merecer a solidariedade de todos os amantes da liberdade e dos direitos humanos. Não posso estar mais de acordo com Vítor Dias.
No entanto acho que Vítor Dias está a exigir a Lua a Ingrid Betancourt, quando lhe pede que seja, também, a voz desses militantes de esquerda, democratas, assassinados. Que tome voz explicita por eles.
Ingrid saiu dum longo cativeiro nas intrincáveis florestas colombianas, às mãos duma formação marxista-leninista, durante muito tempo braço armado do PC da Colômbia. Pedir-lhe que assuma, para além das dores dos seus outros (parece que são centenas...) companheiros de cativeiro, as dores dos militantes de esquerda...não sei. Parece-me, talvez, um pedaço excessivo.
No entanto, o que consegui, ontem, na RTP1 perceber do discurso que Ingrid Betancourt fez em Paris é que ela fez um apelo sentido, genuíno, "à Paz e concórdia entre TODOS os colombianos, para que seja possível viver-se naquele pedaço de mundo" (as palavras não serão estas, rigorosamente, mas o sentido foi-o de certeza).
Pediu para que se terminassem os sequestros, os raptos, os assassinatos e para que as armas se calassem...isso eu ouvi.
A Colômbia, como já o escrevi é uma equação a muitas, mesmo muitas incógnitas. Provavelmente, não terá mesmo solução.
Ingrid Betancourt parece-me, genuinamente e com um capital político invejável para o fazer, empenhada em encontrar uma saída, em concórdia, pacifica, para a Colômbia.
Eu quero acreditar que assim é. Para já, não tenho razões nenhumas para duvidar que assim não é.
José Albergaria

domingo, julho 20, 2008

O dia nasce...


Ainda e agora, da santa da minha devoção e do meu actual altar, M. Gabriela Llansol:

"13
O dia nasce e não veio com a realidade. è ainda simplesmente
Dia sobre a chávena de café que tudo invade a partir da mesa
Onde pousou. estranhamente, aquele negro quente apazigua.
Cheira a multidão que se esfria numa só pessoa, o homem que
A visita com regularidade. O líquido desce até à borra. É o momento
Em que a campainha da porta se vai ouvir, mas não lhe invejo
A realidade que lhe toca""

"O Começo De Um Livro É Precioso"
Assírio & Alvim

JA

sábado, julho 19, 2008

Estaline, Churchill e Roosevlt.


Estes três "gigantes" da politica ficaram ligados de modo severo e incontornável à 2.ª Guerra mundial, à Paz que a ela se associou, nos vários encontros a três, a dois e com outros líderes emergentes. Mas também ficaram associados a "boutades", a anedotas, a mitemas, que ainda perduram.

Diz-se, por exemplo, que a partilha da Europa foi feita em Yalta. Mentira. Foi feita num encontro em Moscovo.

Diz-se que foi Estaline a propor o "modo" como dividir a Europa. Inexacto. È Churchill que o faz, em Moscovo, em cima dum pequeno papel e que o estende a Estaline, sobre o qual, a lápis azul, este, apõe o seu assentimento.

Mas, e aqui fica a anedota.

Na Cimeira de Teerão, realizada entre Novembro e Dezembro de 1943, após um intervalo das conversações e no reencontro dos três líderes, na abertura da sessão, Churchill terá dito: "Sonhei que era o senhor do mundo". "E eu, sonhei que era o senhor do universo", teria declarado Roosevelt. Este, virando-se para Estaline: "E o senhor, o que sonhou?". Resposta pronta do Czar da Rússia:"Eu sonhei que não ratificava as vossas nomeações".

JA

Seis Estreitos, seis Estrangulamentos, Cinco mil anos.





Os estreitos de Malaca, Ormuz e do Bósforo, integram com os do Panamá, Suez e Bab-El-Mandeb os seis "ferolhos", "chokepoints", por onde circulam a quase totalidade da "commodity" essencial da nossa vida actual: o petróleo, o crude,
os gigantescos petroleiros que demandam os portos da nossa "civilização" circulam, quase todos, por aqui.
Para termos uma ideia do que ocorre em cada um destes estreitos, os números falam por si:
1/ Canal do Panamá - 0,5 milhões de barris/dia;
2/ Canal do Bósforo - 2,4 milhões de barris/dia;
3/Canal do Suez - 3,3milhões de barris/dia;
4/Bab-El-Mandeb - 4,5 milhões de barris/dia;
5/Malaca - 15 milhões de barris/dia;
6/Ormuz - 17 milhões de barris/dia.
Já o nosso D. Manuel I instruía o Leão dos Mares, o grande Almirante, Afonso de Albuquerque, nos primórdios do século XVI para controlar, exactamente, Malaca (há pouco promovida a património mundial), Ormuz e Aden, nas proximidades de Bab-El-Mandeb. O Almirante desincunbiu-se de todas as ordens, menos de Aden: esta nunca conseguiu tomar!
O que é deveras singular é que há, aproximadamente, cinco mil anos que as grandes "commodity" passam quase todos estes lugares. O ciclo do incenso, 2500 anos a.C; depois, a seda que chegava à Roma imperial através do Pacifico, Índico, Mar Vermelho ou Golfo Pérsico e Mediterrâneo (desde Alexandria até à "bota", futura Itália); mais tarde, bastante depois, foram as especiarias, controladas pela "entente" que integrava os egípcios, os mamelucos e Veneza; Portugal, com "Plano Índia" baralhou as rotas e, finalmente, a Holanda, já no século VII. Num lapso curto de tempo dominou um ciclo da prata dominado pelo império espanhol das Américas. A partir de 1700 emerge uma cabaz de novas "commodity" que faria o triunfo dos ingleses:café, açúcar, chá, algodão e ópio. Já no nosso século XX assistimos ao ciclo do petróleo e à emergência dos USA como potência hegemónica. Muitas das rotas de hoje são decalcadas das da seda ou das especiarias e os "gargalos" estratégicos continuam a ser os mesmos.
Percebe-se, quem não queira fechar os olhos, entre outras coisas importantes, o que significa, neste concerto , o Estreito do Bósforo e o de Dardanelos, que ligam o Mar negro ao Mar Egeu . Por aqui passam, todos os anos, 50 mil barcos e 5 500 petroleiros. No seu ponto mais estreito apenas 700 metros separam as suas margens.
A integração da Turquia na UE, em meu entendimento, não será só um desígnio histórico, civilizacional para nós europeus, mas para os nossos interesses energéticos imediatos.
Geremek, político e académico polaco,falecido faz pouco tempo, num estúpido acidente de viação, dizia uma coisa deveras interessante: "Já construímos a Europa. Agora precisamos de construir os europeus".
É óbvio que vai ser difícil fazer dos turcos europeus. Mas façamos, pelo menos, da Turquia uma parte fundamental da Europa.
José Albergaria

PS - As fotografias são dos estreitos de Ormuz, Malaca e Bósforo.

sexta-feira, julho 18, 2008

Lenine e o terror.



Insiste-se, aqui e acolá, menos hoje que ontem, mas ainda assim, que o verdadeiro terror na Rússia Bolchevique é inaugurado por Estaline, o "pai dos povos".

Num livro interessante, que ando a dedilhar, de Marc Ferro, vem um pedaço duma carta do chefe da revolução, Lenine a Zinoviev, um dos brilhantes intelectuais bolcheviques sobre este tema.

Em Junho de 1918, manifestando a sua inquietação face ao aumento do terror, a Tchecka ( os seus dirigentes máximos...) sugeria reter o braço dos seus promotores, exactamente, a própria Tcheka! Isto é só, aparentemente, contraditório. Lenine escreve então a Zinoviev, primeiro responsável pela Tcheka em Petrogrado: " Protesto firmemente. Comprometemo-nos; ao passo que não hesitamos, nas nossas resoluções, em ameaçar com o terror de massas os deputados dos sovietes, quando se trata de passar aos actos refreamos a iniciativa revolucionária das massas, inteiramente fundamentada. Não é possível. Os terroristas vão considerar-nos uns papa-açordas. É preciso encorajar a energia e a natureza de massas do terror, particularmente em Petrogrado, cujo exemplo tem de ser decisivo."

O comentário de Marca Ferro é significativo e, ao mesmo tempo, feroz para Lenine: "Uma atitude que anuncia a posição de Hitler a respeito dos massacres."

Eu, pessoalmente, dispenso-me de quaisquer comentários.

JA

quinta-feira, julho 17, 2008

A. Teixeira e a metáfora da Torre de Pisa

Para mim, tudo bem.
Eu sempre gostei duma boa discussão...mesmo até duma má, que é o que esta está a tornar-se.
Vamos aos factos.
Eu, faz tempo, sou leitor diário do blogue de A. Teixeira, o Herdeiro de Aécio. O que tenho lido, ultimamente, nesse blogue tem sido do meu gosto, tem-me dado satisfação e muita, mesmo muita informação, de qualidade e rigorosa.
Espantou-me, pois, a pouca qualidade, a falta de rigor e um tom algo preconceituoso do poste o "Ego de César".
Eu posso dizer "mal" de tala ou tal pessoa, mas, habitualmente, sempre, argumento.
Não gosto de Manuel Alegre, mas não sendo preconceituoso - argumento.
Sou mais dado aos pré-socráticos, mas tal não me impede de, aqui ou acolá, acolher com bondade algumas políticas do eng-º Sócrates.
Agora, o A. Teixeira pega-me pela forma, gasta quase todos os adjectivos que se arremessam aos "inimigos" e tenta "assassinar-me" imputando-me um mau carácter e má educação... Oh, homem, benza-o deus e todos os santos e de todas as igrejas!
Eu, "casca grossa"?, "grandiloquente"?, "malcriado"?"vaidoso"?
Mas estou a ir na sua onda...que não leva a porto algum e, o que, verdadeiramente, importa (se isso lhe importar a si!) é a verdade.
Não sei quem é, nem isso lhe importa, porque você pede para ser avaliado pelos conteúdos dos seus postes. Foi o que tentei fazer e...você não gostou. Paciência.
Já comentei postes seus, pela positiva e até com sugestões...
O que me interessa não é agradar-lhe ou estar de acordo consigo.
Agora, para que saiba, não gosto que me insultem! É uma questão de família e de educação: não lhe parece?
Mas vamos ao que interessa.
Se, como diz, na metáfora de Pisa, não quis comentar o programa da Moura Pinheiro, sobre as similitudes entre a UE e o Império Romano ( e, eu, acredito...) - o que quis, então, fazer?!...
No poste " O Ego de César" falou da Moura Pinheiro, falou do Programa, em geral, falou daquele em concreto (referiu-se ao tema e a pouco mais), falou dos dois convidados. De um, o menos, mediático, disse bem; do outro, mais mediático, não só disse mal, como o tentou arrasar.
Denega-me a mim, A. Teixeira, o direito e a exigência, de discordar de si e de concluir, não expressamente, que a única coisa que você tentou fazer (naquele seu poste) foi um "assassinato de carácter" ao Professor Universitário José Medeiros Ferreira?
Argumente em contrário, se for capaz e se estiver, claro, interessado nisso.
Trocadilhos, salamaleques, ironia a roçar a maledicência, quem, na blogoesfera, não foi já acometido por essa doença infantil? Você, não? Sorte a sua.

E como você optou por me zurzir na forma, no tom, e partir de leituras da intertextualidade do meu poste, lá perdemos uma boa oportunidade, para uma boa discussão.

Eu tenho responsabilidades neste desfecho? Claro que sim, Sou quase neófito na blogoesfera. Isso faz de mim, por vezes, incompetente e canhestro, mas nunca "casca grossa".

Aceite, se quiser, os protestos da minha consideração pelo seu blogue e por, quase todos os postes que me foram dados ler no Herdeiro de Aécio,

José Albergaria


Herdeiro de Lopo Soares de Albergaria: Vizo Rey da India.



Não que seja o "herdeiro" deste Soares de Albergaria, mas segundo apurei, pertencerei ao mesmo ramo desta família que remonta aos primórdios da nacionalidade e acolhe-se aos "nomeados" Soeiro Mendes, senhores da Maia (na ordem hierárquica eram os segundos ao tempo do Conde Henrique...).
O que se sabe de Lopo Soares de Albergaria? Alguma coisa.
o se sabe ao certo quem foi seu pai. Duas hipóteses: ou Pedro Santar Soares ou Fernão Soares de Albergaria. Há quem admita as duas possibilidades, mas quando se inclui Lopo Soares de Albergaria na Nobiliária de Oliveira do Conde, perto de Nelas e Carregal do Sal, admite-se a paternidade de Fernão Soares de Albergaria, ligado à fundação deste ramo. Este fidalgo tirou brasão de armas no reinado de D. João III.
Lopo Soares de Albergaria foi figura controversa. Como Governador da Índia pouco fez, além de no exercício do cargo lhe ser imputado a descoberta das ilhas de Ceilão e ter "merecido" o cargo depois de muito intrigar na Corte contra o Leão dos Mares, Afonso de Albuquerque (que nunca conseguiu o titulo de Vizo Rey!).
Na Índia o seu governo desagradou a todos. A sua expedição ao Mar Vermelho em 1517 (a sua armada sai de Lisboa em 1515) redundou num monumental fracasso. O seu governo dura apenas três anos, ao fim dos quais é substituído por Diogo Lopes. de regresso instala-se na Corte, onde é alvo de muitas desconsiderações, sobretudo por parte da rainha. Dispensando qualquer tipo de honras a que tinha direito, bandeia-se para Torres Vedras, onde se acolhe junto das filhas.
O rei D. Manuel I intima-o a apresentar-se no Paço, em Lisboa, para prestar contas de acontecimentos havidos em Goa. O fidalgo recusou responder ás injunções do rei. D. Manuel insiste e intima-o a apresentar-se de imediato... Lopo Soares de Albergaria responde-lhe - pedindo que o dispensasse de tal mercê e "pois se era por questão de demandas com Fernão d'Alcaçova não se queria defender delas e se dava por condenado, para o que respondia sua fazenda; se mesmo fosse necessário o ser executado, em Torres Vedras havia picota para toda a execução e ele cá estava de pé quedo; e se sua Alteza o chamava para lhe fazer mercê e bem contente estava com o que tinha, porque Deus o trouxera para junto de suas filhas."
El Rei D. Manuel I dispensou-se de insistir na sua demanda.
Mau governador das Índias foi este Lopo Soares de Albergaria, mas fidalgo de rija têmpera - como o atesta este episódio, nunca desmentido, sempre confirmado...lá isso foi!
José António Soares de Albergaria

quarta-feira, julho 16, 2008

Apetece-me falar de política doméstica.


Saiu, faz mesmo muitíssimo pouco tempo, a Sondagem do Centro da Universidade Católica, dirigida por Pedro Magalhães (actual dirigente da SEDES), com dados recentes comparados com resultados obtidos em Fevereiro de 2008 - quando o Primeiro Ministro anunciou o "fim da crise".
Neste intervalo de tempo a CGTP (com o alto patrocínio do PCP e do seu SG/Jerónimo de Sousa), mobilizaram para o protesto de rua, severo, militante, bolchevique, milhões (disparate: centenas de milhares de trabalhadores) de portugueses; o lidere bloquista, o douto, benquisto académico keynisiano (consideradíssimo e premiadíssimo nos USA e no UK!) Francisco Louçã, filho de Almirante, aqui e acolá aproveitou algumas boleias protestativas e, no Parlamento, de quinze em quinze dias zurze no eng.º Sócrates, alteia a voz, lança aos ventos de S.Bento consignas demolidoras, prenúncios apocalípticos e mensagens escatológicos que nos espantam até ao fim dos tempos.
O PPD/PSD, pois, esse, tem andando a lamber as feridas provocadas pelas batalhas internas, inenarráveis, que deixam os campos ppêdistas juncados de cadáveres militantes: em três anos, três Césares, três Imperadores, três Timoneiros. Hoje trespassaram o negócio autárquico para uma industrial leiteira...a ver se resulta!
O PP...esse, pia cada vez menos. Qualquer dia, uma trotineta tem lotação excessiva para o "grupo" parlamentar!
Então, e o José Sócrates tem governado bem, à maneira?!...Nim!
Mas tem-se aguentado...e de que maneira! Veja-se os números.
Quem já fez, mil e uma vez, o seu obituário, como, animadamente, à época, anunciou o meu escritor de cabeceira, e jornalista americano, Mark Twain: "As notícias sobre o meu passamento foram sobremaneira exageradas!".
José Albergaria

O Herdeiro de (general) Aécio e o "Ego de César"

Descobri, faz pouco tempo, mas já sou fidelíssimo leitor quotidiano, do proficiente blog que dá pelo nome, algo "pomposo", de "Herdeiro de Aécio"...
"Aécio foi um general romano (esta informação só tem utilidade para quem não saiba...), nascido em Durostorum, Mésia, em 390 e morreu em 454 dc. Senhor incontestado do Império Romano do Ocidente de 434 a 454 dc, defendeu a Gália contra os Francos e os Burgúndios, tendo contribuído para a derrota de Átila, o Huno, nos campos Catalaúrnicos em 451 dc. Foi assassinado por Valeriano III, Imperador do Oriente, que temia o seu poder."
O lema do Blog em questão é, e parece-me muito bem: "Os leitores devem julgar o blogue unicamente pelo seu conteúdo".


Então vamos ao conteúdo dum poste recente, a pretexto dum programa de Paula Moura Pinheiro, Câmara Clara (titulo roubado a um livro interessantíssimo de Roland Barthes sobre a semiótica da fotografia e que se chama, precisamente, "Câmara Clara"), apresentado na RTP2, Domingo passado e, ontem, Terça-feira, mas que entrou pela madrugada dentro de quarta-feira.


Diz o autor do herdeiro de Aécio, e cito: "O programa de ontem tratou de um tema interessantíssimo, o das possíveis analogias e diferenças entre o Império Romano da Antiguidade e a União Europeia da actualidade. Os convidados de Paula Moura Pinheiro foram o mediático professor José Medeiros Ferreira e o muito menos mediático professor António Manuel Dias Diogo. Este último era tão menos mediático, que o próprio colega de programa (Medeiros Ferreira) acabou, a certa altura, por lhe trocar o nome para Dias Agudo… Mas durante o programa os conhecimentos demonstrados por ambos sobre o tema estiveram na proporção inversa da sua notoriedade mediática e, enquanto fiquei com a impressão que Dias Diogo era um excelente especialista em História Romana, com predilecção pelo período do apogeu dessa civilização (Século I a.C. e I d.C.), constatei que Medeiros Ferreira passou por ser um especialista mais treinado em comunicação televisiva que, para aquele programa, nem fizera revisões na matéria de facto. Como pormenor significativo, quando solicitados a indicar dois livros da sua predilecção sobre o tema, Medeiros Ferreira, teve um dos momentos altos do programa, quando começou por indicar e até citar de cor uma das passagens do Júlio César de Shakespeare. Será interessante para mostrar o que na Inglaterra do Século XVI se pensaria sobre Roma mas não terá grande coisa a ver com Roma. Melhor, só a sua segunda sugestão, porque se tratou do último livro que publicou, cuja associação com Roma ele nem tentou estabelecer…Se, como realçou José Medeiros Ferreira, o ego do Júlio César literário de Shakespeare era incomensurável, poucas certezas poderá haver quanto à dimensão do ego do verdadeiro Júlio César histórico. Mas, por todas estas pequenas coisas, parece-me que não existem dúvidas quanto à dimensão do ego do próprio José Medeiros Ferreira…"
Ora bem!, resumir um programa, que durou bem mais de uma hora, que teve peças filmadas e vários convidados, desde um especialista indiano, até ao mediático Rui Tavares e uma jornalista e escritora, que, com aquele, falaram de livros sobre o Império Romano; os Monthy Pithons com uma rábula antiga de judeus a questionarem-se (e a responderem) sobre o que é que os romanos fizeram pela civilização...; óperas dedicadas a Júlio César; um apontamento do Festival de Música Multicultural de Sines; a opinião duma especialista de Coimbra em Roma antiga, que, entre outras coisas, afirmou, que a moeda (tentando-a semelhar com o €), cunhada em várias partes do império, trazia, sempre, a referência ao lugar da cunhagem...foi um dos factores de coesão do Império (referência que mereceu a desaprovação do arqueólogo, António Manuel Dias Diogo, sustentando que o império romano foi pouco monetarista, utilizando, sobremaneira, a troca directa...) é OBRA!
Marc Bloch, no seu último manuscrito, terminado horas antes de ser assassinado pelo "carniceiro" de Lyon, em 1944( creio eu) em que reflecte sobre o "Oficio do Historiador" e que foi publicado no pós-guerra, pelo seu amigo devotado e de sempre Lucien Febvre ( e que conta, hoje, com uma edição critica do filho Etienne Bloch), relata uma história curiosa, sobre os testemunhos presenciais. "Imagine-se, e cito de memória, a batalha de Borodino, na campanha napoleónica da Rússia, relatada pelo próprio Imperador, por um dos seus generais, por um comandante de batalhão, por um artilheiro e por um soldado de cavalaria. Em qual versão acreditar? Qual a versão mais fiável? Nenhum delas seria rigorosa se reconhecêssemos a memória singular como testemunho único do acontecimento."
Ora bem, o relato do programa da Paula Moura Pinheiro feito pelo "general" Aécio é, de quase todos os pontos de vista, lamentável.
Tentar, contando pequeníssimos episódios do dito programa, passar para os seus leitores a "boutade" final sobre "o ego do próprio Medeiros Ferreira" é, no mínimo, hilariante!
Se não gosta de Medeiros Ferreira...e, claro, é o seu direito - diga-o sem ademanes, ou fintas e sem pretexto de espécie alguma.
Obriguei-me, com o maior gosto e interesse, a ver o programa da Moura Pinheiro (que, em meu modesto entendimento, é ignorante de pai e mãe...Não reparou? Então a senhora não sabia que, ao tempo de César e de Augusto os judeus tinham, em Jerusalém, e não só, rede de distribuição de água, aquedutos, saneamento básico, agricultura com sistema de irrigação e etc...) hoje já de madrugada (a RTP2 deve estar em poupanças e, portanto, repetiu o programa de Domingo, nesta terça-feira...) e vi desempenhos, notáveis de, cada um em sua especialidade, António Manuel Dias Diogo, Professor Universitário e Arqueólogo ( e, contrariamente ao que o meu amigo Aécio sustenta, nem me pareceu grande especialista em Império Romano...Sabe-o tanto quanto eu que temos enormes especialistas nessa matéria: Maria Helena da Rocha Pereira, Jorge Alarcão, Carlos Fabião...nomeadamente, mas há muitos mais), como de Medeiros Ferreira, Professor Universitário e, provavelmente, a seguir ao Professor Adriano Moreira o nosso melhor especialista em relações internacionais, em tratadística internacional e sumo especialista em União Europeia ( e, se não reparou - foi nessa qualidade que ali se encontrava; nunca na qualidade de especialista em império romano...coisa que ele não é, nunca foi, nem nunca virá a ser).
Recorda-se do debate, que os dois Professores travaram, no mesmo programa que ambos vimos, com acordos e desacordos, a pretexto da República Americana, das similutes e das disparidades com a República e Império Romano?...
Agradeço-lhe ter-me chamado a atenção para o Programa, mas a análise que faz dos "protagonistas", a grelha que utiliza, se o seu "mentor" Aécio a tivesse utilizado nas batalhas nas quais defrontou o temível huno, Átila - de certeza que não teria, hoje, vestido o seu blog com o "pomposo" desígnio de Herdeiro de Aécio.
Aceite os protestos da minha critica, não do meu julgamento (quem sou eu para julgar?!...) ao conteúdo do seu blog e, particularmente, do seu poste "O Ego de César".
José Albergaria

segunda-feira, julho 14, 2008

Em louvor da amizade: João Tunes e Edmundo Pedro.

Estive, faz tempo, contando pelos dedos das minhas memórias, a tentar recordar quanto tempo "vale" a minha amizade com o João Tunes: 42 anos!
É obra!
Ao João devo-lhe bastante. Devo-lhe o gosto "compulsivo" que tenho pela leitura; devo-lhe o meu espírito critico, que mantive ao longo da vida; devo-lhe o sempre ter cultuado a minha liberdade e independência de pensamento; devo-lhe a frontalidade com me envolvo nas coisas e no pensamento; devo-lhe um certo modo, talvez geracional, de encarar a amizade.
E devo-lhe, em bom rigor, a minha liberdade "tout court".
Em Dezembro de 1967, apareci-lhe de supetão em Campo de Ourique, aflito. Tinha a PIDE do Porto à perna e precisava de me bandear. Fui ter com o João: tratou de tudo! A 13 de Janeiro de 1968 chegava á gare de Austerlitz, em Paris. Ao João, fundamentalmente, o devo.
Do Edmundo Pedro sou amigo faz menos tempo. A nossa amizade terá, talvez, aí uns dez anos. Temos sido cúmplices dalgumas coisas e, eu, jovem nas minhas sessenta primaveras, tenho pelo Edmundo Pedro uma admiração, respeito e consideração sem limites. Creio que a inversa é verdadeira: Edmundo Pedro é meu querido amigo. Já tive provas insofismáveis de que assim é.
A semana passada juntámo-nos, uns quantos amigos, para festejarmos a amesendação da amizade. O Edmundo Pedro foi o anfitrião e o João Tunes participou também desse banquete da amizade.
O João decidiu assinalar no Água Lisa6 o acontecimento (foi desse poste que eu roubei a fotografia, que neste meu inseri).Temos falado, na blogoesfera, sobre esse tópico.
Decidi louvar, neste meu blog, a amizade que me une a esses dois homens de excepção, humanistas profundos e severos, sem falhas, o João Tunes e o Edmundo Pedro, recordando aquilo que já postei e relatando de seguida um episódio da minha amizade com o Edmundo Pedro.
Em Maio de 2007 telefona-me o Edmundo Pedro, dia 6 mais precisamente, dizendo-me: -" Olha, o Manuel Alegre está doente. Tinha-se comprometido a ir comigo, a Évora, apresentar o livro, mas a secretária telefonou-me a dizer-me que ele não está capaz de o fazer. Avanças tu." A um amigo nada se recusa! Ao Edmundo Pedro, em meu discernir, tudo se lhe deve.
Foi, portanto, sem dificuldade que me lancei na escrita duma modesta, á minha medida, apresentação" do 1.º Volume das memórias do Edmundo Pedro.
É esse texto, que então li, no Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende em Évora, que aqui deixo:

"Évora
Teatro Garcia de Resende
8 de Maio de 2007
·Senhor Presidente da Câmara Municipal de Évora, Dr. José Ernesto de Oliveira;
·Caro Editor, Dr. Baptista Lopes;
·Caríssimo Edmundo Pedro;
·Caros amigos,
Aceitei apresentar o livro do Edmundo Pedro, com alguma emoção, mas, reconhece-o, com alguma irresponsabilidade.
Falar de Edmundo Pedro e do seu livro de Memórias e do seu combate incessante pela Liberdade, não é tarefa fácil.
Nas badanas do seu livro encontra-se, de modo preciso, o seu B.I.:
Edmundo Pedro;
Nascido a 8 de Novembro de 1918, no Samouco, Alcochete;
Filho de Margarida Tavares Ervedosa e de Gabriel Pedro;
Teve dois irmãos e, de um segundo casamento de seu pai, uma irmã, Gabriela, que muito estimava; Aos 15 anos foi condenado pelo tribunal militar especial a um ano de prisão; Em liberdade é eleito para a Direcção da Juventude comunista com Álvaro Cunhal; Foi novamente detido em 1936 e enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal, criado por Salazar e instalado na Ilha de Santiago, no município do Tarrafal. Lá ficará 9 anos, em companhia de seu pai, Gabriel Pedro;Militante activo na Campanha de Humberto Delgado, em 1958, já fora das estruturas orgânicas do Partido Comunista, com quem já rompera;Em Janeiro de 1962 participou na tentativa insurreccional de Beja, vindo a cumprir 4 anos de prisão;Até ao 25 de Abril de 1974 mantém intensa actividade política;Em Setembro de 1973, a convite de Mário Soares, adere ao recém-criado Partido Socialista;Em 1974, no primeiro Congresso do Partido Socialista é eleito para os seus órgãos nacionais, nos quais se manteve durante mais de 15 anos;No verão quente de 1975 era responsável do aparelho de Segurança do Partido Socialista (esse facto trouxe-lhe agravos e ofensas, que ele, sofridamente, bem relata no livro que dedicou ao processo das “armas”);Foi responsável de TODA a logística que permitiu a gigantesca manifestação da Fonte Luminosa, a 19 de Julho de 1975, que iniciou o movimento de reversão do PREC para o modelo de democracia que hoje, felizmente, temos;Foi eleito deputado à Assembleia da República, em 1976, falhando, como teria sido seu direito, a Assembleia Constituinte. Aí esteve durante 11 anos donde saiu emocionado, homenageado por todas as bancadas. Destaco a referência sincera e encomiástica, em nome do Partido Comunista, celebrada pelo então deputado João Amaral;Foi Presidente da RTP entre 1977 e 1978, tendo iniciado aí um modo de gestão proficiente, promovendo um processo de modernização e de apetrechamento da Televisão Estatal. É de sua responsabilidade a aquisição do edifício da Av.ª 5 de Outubro. Ainda hoje, os mais velhos guardam saudades da sua gestão democrática, humanizante e, ainda assim, reconhecidamente eficiente.

Sobre o cidadão, a quem se pediu um retrato à la minute, estamos conversados… digo eu.Então, e o homem? Meus caros amigos, o Homem, esse, não cabe na minha palestra, porque MUITO GRANDE!

Edmundo Pedro tem um riquíssimo percurso de VIDA, de que dá notável testemunho nas suas MEMÓRIAS. Este primeiro volume de memórias reporta apenas 27 anos da sua excepcional existência e couberam em 550 páginas!Temos a promessa que os restantes 63 anos caberão em trezentas páginas. Isto é quase como tentar resolver a quadratura do círculo: impossível e improvável!

Mas falemos do seu livro e, ainda assim, da sua excepcional vida, num tempo que lhe foi dado viver! Na esquerda portuguesa, e mesmo na esquerda europeia não há uma tradição de produção memorialista, enxuta, escorreita, rigorosa.

Os exercícios dum Trotsky, dum Boris Souvarine, dum Victor Serge, dum Charles Tillon, dum Carilho, dum Roger Gauraudy (convertido ao Cristianismo e, posteriormente, ao Budismo), dum Pierre Daix, entre outros, foram sempre feitas com o objectivo de intervirem no debate político, do ajuste de contas com a História, ou com o propósito de diminuírem os seus adversários e concorrentes de combate partidário. Outros políticos optaram pela ficção, para discorreram sobre a memória do seu tempo. O caso mais flagrante e impressivo, na nossa história recente é a de Álvaro Cunhal…perdão, é a da Manuel Tiago que optou pela novela, pelo romance, pela critica literária e de arte para se “contar” e dar relato enviesado da sua vida porque, para ele, Álvaro Cunhal, o único herói é aquele mítico colectivo: o Partido!

O Edmundo Pedro optou por um caminho diferente. Na minha opinião, particularmente, difícil. O modo da escrita de Edmundo Pedro é feito em linha e, parece, a conselho de Joubert (citado por Barthes in “Incidentes”): “Não devemos exprimir-nos como sentimos, mas como recordamos.” Edmundo Pedro fá-lo, em minha opinião, exactamente, como Joubert o sugere! Na narrativa de vida do Edmundo Pedro não vasculhámos gavetas trancadas, não topámos esconderijos, não tropeçámos em cadáveres. Edmundo Pedro, pelo modo como se narra, os temas que elege, os episódios que sinaliza, o modo prudente, sóbrio e até o pudor que se pressente na sua escrita, torna-nos a nós, leitores, viajantes duma mesma viagem, cúmplices duma mesma causa, companheiros duma mesma demanda: a VERDADE!

Recordo-me, quando comprei o livro e o tomei em mãos senti-o pesado; percebi que tinha quase 600 páginas. Demorei alguns dias a iniciar a sua leitura, porque me parecia empresa que iria demorar o seu tempo. Puro engano! O livro de Edmundo Pedro lesse dum trago, em permanente alvoroço e dum modo apaixonado.Confesso-vos que tive a tentação de pensar que tal me tinha acontecido, porque, de algum modo, a meu modo e à minha dimensão, fui pequeno interveniente na luta contra o fascismo e sou amigo devoto e reconhecido do Edmundo. Hoje, sei que não tem a ver com os meus olhos, ou com os meus sentimentos particulares, antes tem a ver com a qualidade excepcional da narrativa memorialista e com a qualidade literária, ela também, da obra do Edmundo. Recentemente uma pessoa, que eu conheço, comprou o livro do Edmundo, mas sem a intenção de o ler, de o ler no imediato. Isto ocorreu, faz hoje 15 dias: a pessoa em questão já devorou quase 400 páginas e, segundo o seu testemunho, emocionada!

O modo como Edmundo fala do seu pai, Gabriel Pedro, personagem único na hagiografia comunista, como aborda os seus encontros e desencontros; o modo naturalista que elegeu para relatar o seu erotismo juvenil, como intercala esta dimensão na sua vida de revolucionário, não só o engrandece, como nos dá a nós, seus leitores, a medida exacta deste HOMEM de excepção. Que eu conheça e tenha lido, só um livro me parece poder aproximar-se desta escrita: a biografia de Pablo Neruda, que ele nomeou: “Confesso que vivi!”.

Mas, caros amigos, mais interessante do que estarem a ouvir-me perorar sobre o livro, mais ajustado para vós é LER as memórias deste SER de excepção que é o Edmundo Pedro.

Se me permitirem, três NOTAS mais - e finais:
1/ Creio poder afirmar que esperamos TODOS, ansiosos, pelo segundo volume das memórias deste enorme combatente pela Liberdade, farol que sempre alumiou a sua existência e a sua consciência de Homem e cidadão!
2/ Desejo que a saúde não lhe falte para poder concretizar aquele outro desafio de promover a Conferência Internacional em 29 de Outubro de 2007 no Tarrafal, de modo a podermos preservar ainda o que resta do Campo de Concentração.
3/ Creio que o Edmundo Pedro merecia uma Homenagem Nacional pelo muito que deu à Pátria. Sei que tal desiderato não será fácil, porque o Edmundo é um Herói sem Partido e um Mártir sem Igreja e, a estes, poucos serão os que ousam Homenagear. Penso que só um movimento de cidadania poderá tornar possível tal projecto. Assim saibamos porfiar!...

Quero terminar, com uma citação que cabe por inteiro ao Edmundo Pedro e pode resumir a sua vida de impenitente lutador de causas e da Liberdade:
“O único guia de um homem é a sua consciência; o único escudo da sua memória é a rectidão e a sinceridade das suas acções.” Wiston Churchill
Estou certo que esta acepção de Churchill pode bem funcionar como a legenda duma vida, da vida do Edmundo Pedro, toda ela dedicada à luta pela Verdade, pela Justiça e pela Liberdade!


Tinha-me proposto terminar, exactamente, aqui, mas a intervenção do Dr. Batista Lopes sugeriu-me um “incidente” ocorrido com o Deputado do CDS, Dr. Narana Coissoró, que se dirigiu, em tempos, nos corredores da Assembleia da República ao então deputado Edmundo Pedro:
“ Quero agradecer-lhe, porque não caiu na tentação de passar de perseguido a perseguidor…”.
Que melhor elogio, pode pretender um homem, para justificar a luta incessante duma vida?!...
Disse!"


José Albergaria

domingo, julho 13, 2008

A Colômbia: uma equação, com várias incógnitas, mas sem solução.













O Expresso/El País traz uma reportagem (publicada na edição do semanário português de 12 de Julho de 2008) esclarecedora, em meu ponto de vista, sobre a equação colombiana. Segundo o escritor Héctor Abad Faciolince e o fotógrafo Álvaro Ybarra Zavalla , que esteve um mês com o Bloco Móvel Arturo Ruiz das FARC, na zona do rio San Juan, na costa do Pacifico.
As incógnitas estão, quase todas, ilustradas nestas fotos: as FARC, que controlam as florestas onde "nasce" a coca, os "farcotraficantes" a laborarem nos laboratórios transformadores, as unidades politicas e militares das FARC, os paramilitares desenquadrados, que participam no negócio da coca, os militares de Uribe e os EUA, que não estão ilustrados por nenhuma das fotos que se publica neste poste.
As fotos de Álvaro Ybarra Zavala, publicadas pelo Expresso são, simplesmente, óbvias e notáveis: explicam tudo. O texto de Faciolince, um dos grandes escritores da actualidade: impressionante!
O esquema/situação é muito simples. As FARC, mantendo a sua "doutrina", a sua "ideologia", a do grupo fundador de 44 camponeses, ilustrados em marxismo-leninismo, que a criaram em 20 de Julho de 1964 para lutar contra os latifundiários mancumunados com a United Fruit Company, hoje Chiquita Brands, transformaram-se (porque sem apoio de massas genuíno)num "exército" de bandidos que se dedica ao controlo dos campos de coca, dos laboratórios que a transformam em produto apetecível para o narcotráfico que opera em todo o mundo (hoje, a ser desviada, a cocaina, para os mercados europeus, deixando as rotas para os USA em pousio).Dedicam-se ainda as FARC ao sequestro de TODO o tipo de pessoas que podem ser "trocadas" e cobram um imposto aos empresários que operam nos seus territórios, cada vez menos urbanos (chegaram a controlar mais de 100 municipios: hoje não controlam nenhum), um imposto "revolucionário".
É interessante notar que são as próprias empresas que financiam TODOS os actores desta "guerra": a Chiquita Brands, por exemplo, paga impostos de guerra ao Estado Colombiano; financia os paramilitares e encaminha centenas de milhares de vacinas para os guerrilheiros das FARC. Outro tanto ocorre com as empresas que exploram o petróleo, o ouro, as esmeraldas e o níquel. O grande problema da Colômbia não é, pois, a pobreza onde mais de 50% da população vive, mas sim as imensas riquezas deste país latino-americano.
Está provado, que as FARC, "articulam" ( e combatem também os...) com os paramilitares para estes fazerem sair a cocaína já tratada do fundo das florestas imensas que só aquelas dominam e também com unidades corruptas do exército de Uribe que a encaminham para os narcotraficantes internacionais.
Entretanto, Uribe (que atingiu, com a operação bem sucedida de resgate de 15 sequestrados, incluindo a mediática Ingrid Betancour, e sem "cumplicidades" aparentes das FARC, um nível de popularidade nunca vista...)insiste na solução militar para esta equação: a seguir a Israel e ao Egipto, a Colômbia recebe a maior e melhor ajuda militar dos EUA. As Forças Armadas colombianas são as mais bem apetrechadas de todo o continente ibero-americano.
Ora bem, todos estes ingredientes tornam-na,à Colômbia, segundo estes privilegiados observadores, Faciolince e Zavala, numa equação quase impossível de resolver. Entretanto as FARC desligaram-se do PC da Colômbia, a frente democrática constituída por várias formações de esquerda, o Pólo Democrático, condena com veemência as formas sanguinárias de luta em uso pelas FARC.
Mesmo dirigentes como Fidel de Castro, Hugo Chavez e o nosso Nobel, José Saramago vêm, ultimamente, afastando-se e a condenarem os métodos dos "farcotraficantes". O isolamento das FARC é quase total, interna e externamente.
Mas, como disseram alguns elementos do Bloco Móvel Arturo Ruíz ao fotógrafo Ybarra Zavala, quando este se interrogava sobre o imenso drama em que todos estão envolvidos e em torno do controlo da pasta, da coca, que os camponeses cultivam: "Porquê a coca? E para que vou semear mandioca? Enquanto os gringos não aprenderem a snifá-la, não a cultivaremos. Um quilo de coca vale uns 3 000,00€; um de mandioca ou café, nem 10,00€."
Ora aqui está!
JA
PS - Se dúvidas houvesse, este dossier publicado pelo Expresso - tudo esclarece. Não fica nada de fora, mesmo nada.
De Uribe aos narcotraficantes internacionais, passando pelas FARC, pelos paramilitares, pelos militares corruptos, pelos USA, todos, mas mesmo todos "ganham" com a esta guerra suja! Só o povo colombiano é que não!