sexta-feira, julho 04, 2008

Farc or not farc

Tenho lido com algum cuidado as reacções do PCP e do próprio Bloco de Esquerda sobre a libertação da Ingrid e outros reféns que até poderiam ser da CIA, da força repressora do Exército colombiano e sei lá o que mais. E o que me incomoda é que, apelidando o regime de Uribe de fascista, se possa aceitar ( pela omissão, pela vergonha da omissão) que pessoas, sejam elas quais foram, sejam raptadas. Se me disserem que é necessário protestar contra a morte de um sindicalista, seja pelo regime de Uribe, seja por outro regime, contem comigo, mas também exijo, como cidadão, democrata, de esquerda, que todo e qualquer rapto, toda e qualquer manifestação de força arbitrária facea um indivíduo ( seja ele qual for), todo o acto que viole os Direitos Humanos, o direito de defesa e de liberdade, também exijo que estejam do meu lado e condenem. E nesta condenação são contempladas as FARC, como força terrorista que se alimenta da cultura do narco ( dir-me-ão, também outras forças, mesmo as de Uribe se alimentam de tal, pois bem, condenemos Uribe, mas nunca deixemos de condenar as FARC), do "imposto revolucionário", da chantagem e de tudo o que há de mais degradante na luta política. Que eu saiba, o PCP foi sempre contra a luta armada, com o PC boliviano a abandonar Guevara, a condenar movimentos como as Brigadas Revolucionárias e as FP-25, bem mais pacíficas e com um ideário político bem mais definido que as FARC. Nunca o PCP aceitou como solução política a acção directa, nem o putchismo.. As FARC, além de ser anti-democráticas, são qualquer coisa de anti-leninista. Hoje, como aconteceu em outros grupos inicialmenete com uma génese revolucionária, não passam de mercenários que vivem do negócio do narco e do negócio do sequestro. Não lhes conheço qualquer ponta de ideologia, nem lhes reconheço qualquer respeito pelos direitos humanos. Só me falta ler um dia nalgum comentador do PCP que os direitos humanos não passam de uma imposição burguesa. A nota "informativa" do PCP é um exemplo da maior incomodidade e hipocrisia a que me foi dado assistir nos últimos tempos. Se de um lado há fascismo, mas é o lado de que nós não gostamos, o fascismo dos outros é compreensível. Esta visão primária só o Jerónimo de Sousa ou Bernardino Soares é que a podem aceitar. Porque é que não perguntam ao Manuel Gusmão, por exemplo, entre outros, o que pensa das FARC e desta libertação?Omitir o grande gesto que foi esta libertação, só por que foi do Governo de Uribe ( eleito, por muito que nos custe), de que também eu não gosto, e não condenar as FARC
leva-me a pensar que o PCP está mais preocupado com os agentes do que com os actos. E quando na próxima Festa do Avante! aparecer uma representação da FARC, convidada pelo PCP, não me venham dizer que se trata do sector político daquela organização terrorista. Até a hipocrisia tem um limite. Um pouco de respeito pelos outros não fazia nada mal.

Rogério Rodrigues

"História a duas vozes": uma discussão necessária. I

Rui Bebiano, historiador com obra publicada, professor, com actividade cívica pública e inequívoca, publicou, em dois blogues de referência em que colabora, empenhadamente, um muito interessante texto do qual transcrevo o essencial, mas que, de modo algum dispensa a sua leitura integral:
"Barnavi: «A História tem sido notificada para se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História parece-me uma das características mais graves da nossa época.»
Nora: «O tempo no qual os positivistas conservavam à distância a história contemporânea parece hoje completamente ultrapassado. Fazer História é fazer história contemporânea.»
Barnavi: «Um dos males que corrói a nossa época é a confusão de papéis entre o historiador e o ideólogo.»
Nora: «A memória incorpora doravante uma reivindicação particularista, subjectiva e peremptória, quando não terrorista.»
Um debate que é para (e que deve) continuar."
Rui Bebiano, in a Terceira Noite e Caminhos da Memória.

Pierre Nora, que eu conheço, é um historiador com créditos firmados na historiografia francesa da Nouvelle Histoire, herdeiros da segunda/terceira fase da Ecóle des Annalles, a de Fernand Braudel.

Barnavi,que eu desconheço de todo, mas como refere Rui Bebiano é um historiador Israelita a trabalhar, também, em Bruxelles.

Sugere Rui Bebiano, que se possa e deva debater estes dois pontos de vista. É, pois, o risco que vou correr e, porventura, incorrer numa enorme irresponsabilidade.

O objecto da história, o papel do historiador (o escritor de história...) é um problema velhíssimo. Heródoto, Tucídides, Michelet, Hegel e todos os contemporâneos, de que se destacaram, sem sombra de dúvidas Marc Bloch e Georges Duby. No entanto, em meu modesto entendimento, o NOSSO José Mattoso não fica nada mal nesta galeria, A epistemologia da história, a sua problemática imanente, é de longa data e continua a martirizar os historiadores.

Hegel tem uma expressão deveras feliz para colorir esta problemática: "Le probléme de l''histoire est l´histoire du probléme"

Três livros (há mais, muitos mais..., que abordam, penso eu, de modo impressivo e rigoroso esta problemática:
1/ Ensaios de Ego-História, sete autores e coordenação de Pierre Nora, Editions Gallimard, 1987 e Edições 70, 1989;

2/Cursos da Arrábida: A História: Entre Memória e Invenção, coordenação de Pedro Cardim, Publicações Europa-América, 1998;

3/Introduction à l'Histoire immédiate, Benoît Verhageen, Editions Duculot, 1974 (não conheço tradução para o português).

Pierre Nora na apresentação do seu projecto editorial sobre a ego-história diz coisas deveras interessantes: (...) "historiadores que procuram ser historiadores deles próprios. São documentos a tratar, como tal, por futuros historiadores, mas documentos em segundo grau; não aqueles que os historiadores utilizam em geral, mas aqueles que a certa altura aceitaram fazer sobre eles próprios." E diz mais, e aquilo que me parece curial trazer para este debate sugerido por RB: "Toda uma tradição científica levou os historiadores, desde há um século, a apagarem-se perante o seu trabalho, a dissimularem a personalidade por detrás do conhecimento, a barricarem-se por detrás das suas fichas, a evadirem-se para uma outra época, a não se exprimirem senão por intermédio de outros, permitindo-se fazer, na dedicatória da tese, no prefácio do ensaio, uma confidência furtiva."

Pierre Nora desafiou vários historiadores, com créditos firmados, reconhecidos pelos seus pares e pela comunidade científica como GRANDES e competentíssimos historiadores, para escreverem a sua, deles, própria história, mas que não fosse "nem autobiografia falsamente literária, nem confissões inutilmente íntimas, nem profissão de fé abstracta, nem tentativas de psicanálise selvagem."

O que está nesta obra é um tesouro imenso (Duby, Le Goff, Chaunu, Rémond, Perrot, Girardet, Agulhon e, claro está, mas ficando de fora como escritor, Pierre Nora), que nos permite entrar na discussão sugerida por RB, mediatizada pelo diálogo entre Nora e Barnavi.É a hora (gulosando Pessoa), para dirimir o quid dos que se dedicam à história: "De explicitar, como historiador, o elo entre a história que se fez e a história que vos fez."

Duby, um dos meus mestres, a par de Bloch e Paul Veyne (já me connfessei sobre os portugueses...)aborda, como incipit, no seu "o prazer do historiador", uma tese de Claude Simon: (...) "A narrativa que ele me fez foi, sem dúvida, falsa, artificial, como está condenada a sê-lo toda a narrativa de acontecimentos feita logo a seguir, a par do facto de, ao serem contados, os acontecimentos, os pormenores, os menús feitos, tomarem um aspecto solene, importante que nada lhes confere no momento(...)"

Chegados aqui importa dizer que, todo, o historiador que se dedique, escreva, investigue o que quer que seja, que se preocupe com as civilizações pré-classicas, com a Roma clássica, com a história do cristianismo, com a história dos comunismos ou, mais perto de nós, com a situação no Iraque, no Afeganistão ou, de mor actualidade, a situação dos reféns dos narco-guerrilheiros das FARC colombianas persegue, sempre, mas sempre um Graal: a verdade!

Mas, Duby, quer baralhar-nos: "Todo o historiador se extenua para conseguir a verdade; essa presa escapa-lhe sempre. Penso que estou quase a agarrá-la quando tento estabelecer o que foi a batalha de Bouvines ou a de Austerlitz. Mas se procurar descobrir como os homens amam ou crêem amar no século XII, vejo-a já a afastar-se. E a distãncia aumenta ainda quando me arrisco a relatar as minhas aventuras profissionais, dirigindo-me não só a seres que me conhecem, que me são queridos, mas a pessoas que nunca vi e das quais a maior parte lerá rapidamente estas páginas. Nem é fácil ordenar a sua própria memória. Como fazê-lo?".

Este post já vai longuíssimo, mas a questão suscitada por RB é enorme e persegue como se dum fantasma se tratasse todo e qualquer historiador e toda e qualquer historiografia.

Hei-de voltar a este tema, através doutras perspectivas, doutros olhares, de não historiadores, de historiadores portugueses (que me interessam sobremaneira...), mas agora quero rematar, terminar, com a ajuda de Le Goff, que, curiosamente, escapa às influências (as boas, as menos boas e as más...) do Maio de 1968 em França, porque estava, ironia da sua, dele, história,em Praga, nesse 1968!

Diz Jacques Le Goff, o que escreveu uma obra incontornável e de imenso impacte, Os Intelectuais na Idade Média, sobre esta problemática que nos assaltou, e bem, pela mão de RB: "Aquilo que procuro lembrar e lembrar-me é uma memória. Aquilo que me esforço por construir é uma história. Mas não está aí todo o trabalho do historiador? Uma das grandes aquisições da história, que se renova desde há cinquenta anos, foi ter alargado a sua documentação a tudo o que é memória. Ao documento tradicional, história morta, acrescentou o documento vivo." Mas, avisado oficiante, Le Goff alerta-nos, delicadamente, para o facto:"Desde a memória à história, o caminho é delicado, a transformação por vezes errónea e ilusória. Apenas posso garantir a minha boa fé e a utilização honesta do utensílio ainda imperfeito de que disponho (mas sei que boa fé e honestidade profissional são, em parte, ilusórias). Se esta referência não me esmagar sinto-me o Heródoto da minha própria história. Pudesse eu ser verdadeiramente um Heródoto!"

Ora aqui está,pois, modestíssimo contributo para a enorme questão que o Rui Bebiano suscitou.

Falemos,ainda, um pedaço de aspectos práticos que a questão suscita. e falemos de coisas bem recentes: a libertação de Ingrid Betancourt.

Ele há o fenómeno "acontecimental" ao modo definido por Paul Veyne: a sua libertação é um acontecimento, por si mesmo, e há-de ser um acontecimento histórico!

Mas, veja-se como, cada um de nós tratou este acontecimento (para não ser muito violenta a demanda...), coloque-se em linha os seguintes blogues, que sobre o acontecimento falaram: Corta Fitas, a Barbearia do Senhor Luís, Entre as Brumas da Memória, A Terceira Noite, Águia Lisa6, O Tempo das Cerejas e, eu próprio, aqui, no Aqueduto Livre.

Creio que, se pudessemos pedir a Pierre Nora e a Barnavi, para se debruçarem sobre estas fontes (os nossos blogues...) um e outro, uma e outra teoria, teria razão e demonstrariam, ambas, a sua eficiência epistemológica.Estou quase certo disso.


José Albergaria

NB - Falarei dos outros dois livros, que referi e que me parecem deveras adequados a esta problemática, em próximo poste.

quinta-feira, julho 03, 2008

Ingrid Betancourt foi libertada!

Estas foram algumas das imagens, que, ontem, dia 2 de Julho de 2008 correram mundo. Pelas informações veiculadas pelas autoridades colombianas, depois duma bem sucedida operação dos serviços secretos militares, 15 reféns, 3 americanos, 11 membros das forças da ordem colombianas e, a heroína, mulher duma fragilidade que remete para a invocação de Virgem Maria, Ingrid Betancourt, foram libertados!

Muitas leituras, interpretações, despautérios e até vitupérios, algumas insanidades irão ser produzidas sobre este acontecimento.

Contudo, o que importa reter, em minha opinião, é que foram resgatados, com vida, 15 pessoas que estavam reféns dos narco-guerrilheiros das FARC e que, entre eles se encontrava a ex-candidata à Presidência da Colômbia, mulher, aparentemente, frágil, duma coragem inaudita (para aguentar aquele cativeiro de seis anos, em condições inomináveis, é obra!).

Nas imagens, que ontem se viram num aeroporto colombiano, percebia-se, claramente, um aproveitamento da ocorrência , porventura excessivo, das autoridades militares e civis colombianas, mas a IMAGEM que dominava, a que se impunha, "esmagadora" era a da heroína, a contragosto, Ingrid Betancourt, que reflectia uma dignidade, uma grandeza (posso não concordar com a sua, dela, invocação da Virgem, a que se encomendava, dia após dia...durante o cativeiro) de que, em meu modesto entendimento, este nosso Mundo insano - andava carecido. Bem haja, Ingrid, por TUDO!

É mais do que justo assinalar aqui (e só falo do que sei e conheço...) que o meu amigo João Tunes e o seu magnifico Água Lisa6 foram dos mais militantes, contundentes e perseverantes, na blogoesfera nacional, a denunciar, a invocar e a exigir a libertação de Ingrid Betancourt. Fica o meu sublinhado e o meu agradecimento à militância de JT.

Agora, e ainda, mas sem emoções, comoções, ou espantações, do lado comunista, da Soeiro Pereira Gomes, ou mesmo do lado dos "argutos", severos, contundentes, atentíssimos comentadores da actualidade que flui, os bloguistas (veja-se, a titulo de exemplo o Tempo das Cerejas) "comunistas" remetendo-se a um SILÊNCIO ensurdecedor, quase obsceno, os caracteres dos textos por haver(não confundir com carácter...) e nos espaços dos seus "espaços" noticiosos...zero e infinito, para glosar um romance antigo, que os comunistas "cultuam"!!!, nada.

José Albergaria

* Fotos retiradas da imprensa diária.

Adenda
Resposta a um comentário de Vitor Dias do "Tempo das Cerejas"

"Pareceu-me, que o facto do Vitor Dias ter "reposto" a "verdade" era suficiente para si, era mais do que óbvio para mim e, como o meu espaço de comentários não é censurado, é plural e libérrimo, seria suficiente o seu "esforço" - para os meus leitores.

Parece-lhe que assim não é.

Fica, pois, aqui e agora dito que o bloguista Vitor Dias, comunista, comentou em tempo certo a libertação de Ingrid Betancourt (que saudades do tempo em que você, em nome do PCP, escrevia as Notas de Imprensa"!: já reparou que os seus camaradas, na Nota que enviaram para os OCS escrevem "Bettencourt"?!

Mas, parece-me que a substância, e isto é que importa, não está em linha com o seu poste...temos dissensão à vista?!

Você ressalta, e bem, a dimensão humana e humanitária do acontecimento, da libertação de Ingrid. Os seus camaradas da Direcção do PCP...esses, passam,completamente, ao lado dessa dimensão, que, em meu entender, naquele momento - era a única que importava.

Quanto à direcção do PCP, depois de ler a Nota de Imprensa...mais valera que estivessem calados!

Há quem tenha trocado, o meu "obsceno" silêncio, por "abjecto"!

Sempre atento ao seu prosear em o Tempo das Cerejas,sou com cumprimentos,
José Albergaria"

Vitor Dias,assim já lhe parece bem?...

Nunca tive medo, nem da transparência, nem da "verdade", não a minha,redutora,obviamente, preconceituosa, mas aquela, tal Graal,que os homens honrados, probos e livres - SEMPRE procuram.

A minha praxis decorre duma ética da responsabilidade e duma moral de convicção!

Não me movo, nem pela suspeição infundada, nem pela urgência de "assassinar" os meus adversários...intelectuais e/ou políticos!...

JA

quarta-feira, julho 02, 2008

José Mattoso...meu Mestre.


Em 2007 José Mattoso foi galardoado com o prémio Troféu Latino. Disseram-lhe, pedindo-lhe a aceitação para o dito, que podia, aceitando-o, levar á cerimónia de entrega, alguém que falasse, sem formalismos, sobre ele.
Escolheu, de imediato:
1/Aceitar o prémio pela qualidade do mesmo e pela excelência da instituição que o atribuía;
2/Convidar o actor Luís Miguel Cintra, para dele falar, sem formalismos.
Mas não é disto que quero falar, nem sequer do meu Mestre José Mattoso (ele não o sabe, nem é sequer importante que o venha, algum dia, a saber:é meu Mestre à distância, por exemplar, como Historiador e Homem!).
Nesse "evento", de entrega do prémio, falou, pois, LMC e falou, após, Mestre José Mattoso que, num belíssimo trecho deixou plasmado este pedaço de prosa, que convosco quero partilhar: pela prosa, pelo seu significado e pela grandeza do homem e do sábio que assim é capaz de prosear!
(...)"Muitas vezes me apeteceu dizer, como o profeta Elias quando iniciou a sua caminhada no deserto e, cansado da sua luta contra a idolatria, pedia a Deus a morte:«Já basta, Senhor, pois não sou melhor do que meus pais»[1 Reis, 19.4]. Também nós, quando recordamos as esperanças dos anos 60, e as comparamos com a actual multiplicação da violência e da injustiça, perguntamos para que valeram os nossos esforços. Mas, se, ao olharmos à nossa volta, nos sentirmos irmãos dos atormentados pelo desejo de verdade, irmãos dos desesperados pelas suas próprias contradições ou inseguranças, e formos capazes de descobrir, nascidos, não se sabe como, neste mundo sombrio, os que persistem em cultivar a infinita variedade de formas que revestem o amor, a justiça, a esperança, a beleza, a alegria, a paz; e se aprendermos a ver, com os que sabem olhar através da espessa camada da vulgaridade quotidiana, a maravilha do que é justo e simples, deixamos de lamentar a frustração das esperanças. Luís Miguel Cintra não fez outra coisa, ao longo destes quarenta anos, senão mostrar isso mesmo, na sua intemporalidade, sob as aparências mais inesperadas e mais tocantes. Devo-lhe a percepção desse olhar capaz de descobrir os lugares escondidos onde se refugia, no seu último reduto, a verdade do homem." (...)
Este é o meu Mestre.
Esta é a minha esperança.
Este é o Homem!

JA


*Foto tirada do De Rerum Nature, com agradecimentos e devida vénia.

O Mercado das Teorias e a Feira das Opiniões II

Ontem deixei, em suspenso - a questão do marxismo.
Enorme presunção esta de deixar o "marxismo" em suspenso! Mas passemos adiante deste pequeno escolho.
Creio que é o filósofo francês Paul Ricoeur, com um percurso de vida deveras singular e um dos mais próficuos pensadores franceses do século XX, que inventa e define Marx, Nietzsche e Freud como os mestres da "suspeição".
O nosso DS vai utilizar esta abordagem de maneira curiosa e, de algum modo cómica.
O marxismo tem, em si mesma, como teoria, uma abordagem sobre a consciência dos seus próprios opositores: estes estão, obviamente, enganados, porque as suas situações, de classe, os condicionam no sentido de pensarem como os capitalistas.
Esta consciência não passa pois de uma máscara, que esconde os interesses reais. Mas, curiosamente, com o marxista passa-se quase o mesmo e com igual proficiência, mas com uma diferença de monta:"os seus interesses coincidem com os da própria Humanidade".
É a consciência do marxista que está certa. Com a emergência de Marx e do marxismo deixou de haver inocência e, menos ainda, consciência inocente: ela é moral ou imoral. É sobre este pedestal que os comunistas irão "construir a sua superioridade moral!"
Diz o nosso autor,DS,que, na Alemanha, sobretudo depois de 1968 "o marxismo dominava o mercado das teorias na Alemanha, porque era imbatível na área da suspeição ideológica."
É espantoso o facto do marxismo, como TEORIA, ter continuado ainda em alta durante ainda mais de vinte anos, quando desde 1956 (Hungria) e 1968 (Checoslováquia)e mesmo, antes desta datas, já havia denúncias tremendas e seguras, das malfeitorias de Estaline e seus próceres, quando já se conhecia muito da realidade prática em que se atolava o marxismo!
Então, ainda em finais da década de 60, o marxismo tinha uma oferta muito variada dedicada ao "sentido" da vida de cada um, de cada povo e até da humanidade. Cada "cliente", para utilizar o calão de DS, poder recolher um fantástico cenário onde lhe era atribuído e pedido para desempenhar papel de herói e protagonista da história. Os intelectuais (os exemplos são aos milhares e ocorreram em todas as latitudes do planeta)sentiam-no, o marxismo, como uma TEORIA única, complexa, mesmo até holística, e que apelava a uma atitude interveniente, missionária, redentora do homem e da Humanidade. O marxismo punha em linha a sua ascensão e sucesso de vendas, através duma divulgação eficiente, "lançando, simultaneamente, a suspeição sobre o adversário".
Hoje, em que ponto se encontra o marxismo?
Depois do colapso, que teve inicio em 1986, do socialismo real, na Europa Ocidental, o marxismo vai cair numa crise profundíssima. Até então, o marxismo, não se tinha confrontado com a realidade e, menos ainda, com o seu insucesso como TEORIA. Este desfecho, nem os mais "optimistas" conservadores e reaccionários o tinha previsto! Nem mesmo a Senhora de Fátima (que admitiu só a conversão da Rússia bolchevista!...)foi capaz de adivinhar tal desastre!
Este desfecho era, de todo, mais do que imprevisível.
A pergunta que sobrevive e que é de mor pertinência, na actualidade: algum dia o marxismo se irá recompor?
DS, sobre este entreacto, aborda-o com muita prudência: "Se alguma vez irá recompor-se é algo que é difícil prever. talvez assim não aconteça sob a sua forma antiga e é provável que ocorram radicalizações, constituições de seitas e metamorfoses [transfigurações] teóricas. De momento até os observadores do mercado mais qualificados se calam."
JA

terça-feira, julho 01, 2008

O Mercado das Teorias e a Feira das Opiniões I

Dos livros mais estimulantes que alguma vez li.

Este livro escrito pelo alemão Dietrich Schwanitz, a pretexto de que os seus alunos sabiam pouco de história, de literatura e, menos ainda de filosofia é, em meu entendimento, imperdível e ao qual se tem de retornar, uma e outra vez...

A partir de agora vamos chamar-lhe DS, por comodidade minha.

DS sustenta que, com a emergência da modernidade, com o império da razão de Descartes, o pai fundador da filosofia moderna, século XVII, a religião inicia um processo comatoso. As «mundividências» vão apropriar-se do seu lugar. Começam, nas oficinas dos filósofos, a explicar-se o mundo. Entretanto começam a emergir os ismos (liberalismo, darwinismo, marxismo, vitalismo...) produzidos por grupos, gangs de intelectuais, que se propunham preencher as lacunas interpretativas do mundo. Impôs-se então o conceito globalizante de "TEORIA"

Hoje, este mercado das TEORIAS tem feiras, bolsas, PSI20, Nasdac, onde elas se apresentam com taxas cambiais oscilantes. A este mercado preside o mesmo deus que reina em TODOS os outros: a MODA.

Quem se precipitar, quem for primeiro (isso pode-se ver, também, na nossa blogoesfera: o primeiro a comentar, o primeiro a postar, o primeiro a singularizar-se na abordagem de matéria nova...)leva vantagens sobre todos os outros produtores. A moda, toda ela e em qualquer dos sectores que a consideremos vive do desvio que introduz face ao já existente: isto ocorre no vestuário, na música, de algum modo na literatura, hoje menos na pintura e na escultura. Na filosofia, nessa,então, não se percebe bem o que está a ocorrer.

"Existem, afirma DS, portanto, teorias que estão na «moda» e outras que são «águas passadas». Existem rótulos fraudulentos e imitações de artigos de marca, concorrência desleal e material de candonga, períodos de nostalgia, ondas de reciclagem, liquidações totais e pechisbeques; há épocas de ouro e depressões, falências e retomas."

Com a prova de vida, ou de morte, de falência da TEORIA do MARXISMO, que significou a implosão do Socialismo Real na Europa Ocidental(e as acomodações operadas na China...)parece que o Marxismo terá, ele também, como TEORIA de interpretação e de transformação do Mundo, morrido... Mas, dos teóricos encartados actuais, mesmo dos que estão na MODA, quem se arrisca a assinar a CERTIDÃO D'ÓBITO daquela TEORIA?
Parece que ninguém estará disponível para tal!
O marxismo morreu? O marxismo vai ressuscitar? Como? Quando? Com que contornos?

O Cristianismo teve pais fundadores, refundadores, modernizadores,conservadores, reformadores: Santo Agostinho de Ipona, S. Tomás D'Aquino, Lutero, Santo Inácio de Loyola, Josemaria Escrivá de Balaguer e ainda o Irmão Roger fundador duma nova regra e da Comunidade de Taizé...
O marxismo, o comunismo, que, à sua maneira, quis ser "católico" terá os seus refundadores, modernos ou conservadores?
Em próximo poste "atacaremos" esta questão.
JA



segunda-feira, junho 30, 2008

A "renuncia" de Maria Gabriela Llansol...


Naquele magnifico livro "O começo de um livro é precioso", Maria Gabriela renúncia, explicita e expressamente. De que modo o faz? Assim:
"2
Renunciei a que alguém, um dia, me chame:«Avó Gabriela».
No entanto, tive um devaneio a noite passada. Eu ouvia planger,
De facto e auditivamente, em texto, o latido surdo
De um cão ruivo pronunciando:«Avó Gabriela». Feliz, Trova
Dava-me a pata e eu dei-lhe para a mão o próprio texto
Ainda no seu estado sonoro cénico.
Com a pata sobre o texto, parecia o ícone do quinto evangelista."

Uf! está dita a renuncia, desconcertante e perturbadora renuncia, da Maria Gabriela Llansol...

JA



domingo, junho 29, 2008

E o Sacro Império Romano - foi derrotado!

Nas disputas pelo titulo de Império e de imperador, na longa história do Alto Medievo europeu, emergiu,após a "renascença" carolíngia, em que Carlos Magno, rei dos francos, se sagrou Imperador, pela mão e pelo bordão de Leão III, um outro império, o da Rhinlândia, ao tempo de Ótão, com o beneplácito papal: surgindo então o Sacro Império Romano, uma espécie de sociedade por quotas, entre a Germânia e o papado de Roma.

Esta urgência, necessidade, que alguns réis tinham do beneplácito Papal assenta num dos maiores embustes da história do Papado da igreja católica: o Édito de Constantino, documento apócrifo, que bem jeito deu ao Papado...

Hoje, dia 29 de Junho de 2008, na Viena de Strauss, os alemães levaram não só um baile (podia ser uma valsa,mas pareceu-me mais um pasodoble)de bola, como a sociedade que mantêm com o Bento XVI, o cardeal Ratzinger, foi, elegantemente, cilindrada pelos "povos" da Ibéria (veja-se as várias auriflamas com que outros tantos jogadores se drapejaram...no final do jogo).

Por tudo isto, e mais o que não se pode descrever em palavras, que viva a Selecção de Futebol de Espanha e mais TODOS os representantes dos povos da Ibéria que a integravam!

JA


sábado, junho 28, 2008

"O Começo De Um Livro É Precioso"

Uma, e outra vez, sempre, Maria Gabriela Llansol.


Deste "precioso" livro, com desenhos de Ilda David, um pequenino trecho...para degustarem, saborearem e para concluirmos, todos, que bem escreve a Maria Gabriela e quão "mágica" é a arte de dizer, escrevendo!


" 1
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro - mantém o começo perseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ____linha, confiança, crédito, tecido."

JA

Salvador Allende: chileno, socialista e...maçon.

A 26 de Junho de 1908 nasceu Salvador Allende, que viria a dirigir um Governo de Unidade Popular, na sua pátria, o Chile, do cobre e dos nitratos adubeiros.

Foi assassinado pelas hordas de Augusto Pinochet, seu Chefe de Estado Maior General da Forças Armadas do Chile (as mais constitucionalistas e civilistas da Latino América), que assaltaram o Palácio da La Moneda a 11 de Setembro de 1973. Salvador Allende morreu, bravamente, com armas na mão, na defesa do mandato democrático que o Povo do Chile lhe tinha atribuído.

Allende constituiu um Aliança de Unidade Popular, que integrava o seu, dele, Partido Socialista e, entre outros, o lendário Partido Comunista do Chile, também de Neruda e dirigido por Luís Córvalan.

Allende era um homem duma imensa humanidade, socialista, laico e maçon (gostava muito de assumir esta sua condição de pedreiro-livre, livre pensador e livre examinista). Esta condição não o impediu de coisa alguma na política. Muito pelo contrário. Tolerante, como sempre foi, abriu-se às várias possibilidades para criar um Chile independente, progressivo e melhor. Perdeu. Falhou. Foi derrotado por um golpe patrocinado pelos USA e pela CIA e executado por Augusto Pinochet.

Fez unidade com os comunistas. Os tempos eram outros. Os tempos, após o golpe do General Pinochet foram outros, ainda mais desconcertantes.

Luís Córvalan, SG do PC Chile foi libertado das masmorras de Pinochet, por troca com dissidentes soviéticos e chegou a Moscovo em, se a memória não me atraiçoar, Outubro de 1979.

Em Novembro de 1989, ainda com Augusto Pinochet a Presidente do Chile (exerceu o mandato usurpado, de 11 de Setembro de 1973 a 11 de Março de 1990), o ditador da RDA, Eric Honecker, depois do derrube do muro de Berlim, demite-se de todos os cargos que detinha no Estado e no Partido (que se confundiam) e "foge" para Moscovo (ainda com Gorbatchov).

Aqui chegado instala-se na embaixada do Chile de Pinochet, onde pede exilio e estadia nela durante 232 dias, pedindo e negociando o seu envio para Santiago, juntamente com sua mulher.

É já com o sucessor de Pinochet (eleito com o beneplácito deste...), Patrício Aylwin Azócar, democrata-cristão, advogado, que o ditador da RDA, Eric Honecker, desembarca em Santiago do Chile, nos princípios de Julho de 1990!

Malhas que a diplomacia tece?!...Talvez. É mesmo provável que assim tenha sido, mas que é deveras desconcertante...é-o!

JA

PS - A foto foi fanada ao Tempo das Cerejas (os meus agradecimentos e a devida vénia), que recordou a efeméride...e bem, mas de modo diverso do meu.

Maria Gabriela Llansol: Amar Um Cão.


Já me confessei, uma vez.A escrita de Maria Gabriela Llansol teve, para mim, a dimensão da revelação!

Cada vez que me intrometo na sua, dela, escrita, o sentimento persiste, avassalador, fulgoroso:revelação!

Deixo-vos, a todos, particularmente, aos meus amigos que gostam e/ou têm cães, um naco dum livro deveras singular, "Desenhos A Lápis Com Fala -Amar Um Cão-":


"_____houve uma breve hesitação da parte de quem transportava o recém-nascido________o meu cão Jade, há muito tempo; muito, e com grande intensidade, aconteceu durante esse tempo breve em que Jade foi deixado suspenso sobre um medronheiro, sem mãe visível, num berço nem celeste,
nem terrestre. No lugar que toda a planta acolhe, e que o entregara ao medronheiro,
sentia sobre si uma incidência animal alada,
que nem era verdadeiramente pássaro,
nem verdadeiramente quadrúpede.

Era um fio de voz soando à altura do corpo musical que compunha a mata, um choro que coincidia com a convulsão das primeiras gotas de chuva; um sentimento ténue envolvia a cabeça emergindo do verde, e as pequeninas patas, saídas de um pano de baptista, não comoviam
a planta lenhosa,
já habituada a palpitações e folhas.
mas o ritmo novo que, pouco a pouco, não se identifi-
cava com a chuva, e tornava vermelho de tempo activo a
atmosfera, fez erguer o medronheiro sobre si mesmo
«que ser tão frágil mais alto que eu».

Se o ar não tivesse uma densidade leve, teria quebrado
Jade. Jade, que acabara de nascer sobre as bagas purpúreas dos medronhos,
e o ruído dos ramos partidos, já pensava. Um pensa-
mento de leite subia nos sítios pedregosos, fora do local da casa, e da cerca com cerros e penhascos. Ele trazia
nos olhos um instrumento azul para medir o diâmetro do sol, e dos astros; lia-se neles uma linguagem que só
mais tarde, muito mais tarde, encontraria equivalente
na boca:
«o meu pai não existe fora da descrição do Sol; cami-
nho através da murta, do aderno, da aroeira, e avistei
esta serra em que memória vê primeiro o porto de nas-
cer;mal nasci, situei-me, em vida interior, em face do
mar; ergo para a minha dona os meus olhos frágeis,
opondo-me a uma adversária que, de certeza, me ama:
faço-lhe pedidos
luta comigo;
dá-me a sensação de ter saído vencido, mas com rebeldia.»"

Não fiqueis perplexos com o arrimo, arrumo, gráfico deste desconcertante naco de prosa Llansoliana. Ela é muito, mesmo muito, gráfica, quase pictórica.

Os espaços em branco que ela ocupa, ou liberta, fazem parte intrinseca do seu pulsar narrativo, da sua prosódia e aliteração. É mesmo asssim. Tal e qual.


Zé Albergaria

quinta-feira, junho 26, 2008

E esta Turquia merece entrar na Europa?!


A Turquia do futebol, que derrotou a República Checa, a Croacia e se bateu, bravamente, contra a fria e eficiente Alemanha, e só foi abatida pela nossa selecção, não só merece estar na Europa, como lá esteve de plenissimo direito!
Quanto ao outro processo, do alargamento da UE e da compatibilização da Turquia, regime, instituições e etc, já as coisas piam mais fino. No entanto, eu, por todas as razões e mai'la dimensão histórica do dossier, gostaria de ver a Turquia, laica, porta de entrada (e saida) do mundo islãmico, na Europa económica, social, política e, ainda, cultural: Istambul, como o Bósforo, é feita de várias correntes!
JA

terça-feira, junho 24, 2008

Em louvor da Irlanda


Nestes tempos conturbados em que a Irlanda e os irlandeses, os que votaram, os que se abstiveram, os que votaram NÃO e os que votaram SIM - no referendum ao Tratado de Lisboa, têm andado nas bocas do mundo ocidental e europeu por "más" razões ou expúrias questões, esqueci-me do Bloomsday.
Em viagem por um dos meus blogues preferidos, o de Pierre Assouline, jornalista do Le Monde e critico literário, "roubei-lhe" a referência à efeméride.
O herói do Ulisses de Joyce tem o patronímio Bloom e, num dia bem contado, faz a sua "viagem", ao modo homérico, na Dublin de James Joyce. É de tal modo bemquisto, tanto a obra como o personagem que, a data da sua viagem, o 16 de Junho é comemorado, em Dublin, em toda a Irlanda e nomeado de Bloomsday, em honra e louvor do herói joyciano.
Adrede a este facto a singularidade de, na história inglesa haver um dia, o Bloodsday, dia sangrento ou, como ficou registado, "o dia do juízo final" e que, dito, um e outro,este e aquele, têm sonoridades que semelham e que se confundem...
Como diz George Steiner, é pela cultura que a Europa pode e será viável.Em nome dessa cultura, quase universal, aqui fica, um pedaço fora do tempo da efeméride, o meu preito de menagem a James Joyce e á Irlanda.
JA

segunda-feira, junho 23, 2008

Ainda o Tratado de Lisboa, o Instituto do Referendum e a "Ideia de Europa"































1- A REPÚBLICA DA IRLANDA, O TRATADO DE LISBOA E O FUTURO DESTE

O Tratado de Lisboa após a votação referendária na Irlanda, idependente dos ingleses desde 1922, católica, mas com seis condados a Norte, maioritariamente protestantes, ainda integrantes do Reino Unido, sofreu um abalo. Mas,contrariamente ao que se propala,creio eu, não está morto...menos ainda, enterrado.

Os irlandeses gostam tanto de referenda como de cerveja, de literatura e de música.

Pequeno país, com 4 milhões de habitantes na República da Irlanda e 2 milhões na Irlanda do Norte, têm, nada menos, do que quatro prémios Nobel da literatura: Yeats, Bernard Shaw, Samuel Beckett e Seamus Heaney e conta, ainda, na sua história literária, com Bram Stoker, Jonathan Swift, Oscar Wild e, o genial, James Joyce, cujo personagem central (o Ulisses actual)deu dia festivo:Bloomsday (creio eu que é assim que se grafa...). Na música contemporânea: U2, Sinead o'Connor, The Pogues, Bob Geldorf, Van Morisson, The Cranberries. E ainda o actor Peter O'Tool e o pintor Francis Bacon .

Nos EUA 70 milhões de pessoas reinvindicam a sua origem irlandesa. Com a adesão à CEE muitos membros da diáspora irlandesa retornaram e milhares de polacos aqui se vieram instalar. Na década de 90, com os apoios comunitários, a Irlanda cresce ao ritmo de 7,2% ao ano. As previsões para 2008 rondam os 2,3%!...

Recuperando o gosto irlandês pelos referenda e a Europa, vemos o seguinte: em 1972 decidiram aderir à CEE, via referendum; referendaram o Acto Único Europeu, o Tratado de Maastricht e o de Nice. Este foi rejeitado uma vez e, à segunda - foi aceite!

Os 27 países aderentes da UE, em Lisboa, durante a presidência portuguesa, negociaram, entre si, com cedências várias (a mais notória foi a que foi protagonizada então pelos gémeos polacos...) assinaram o dito protocolo do Tratado de Lisboa e, depois, deveriam, em cada um dos países, ratificá-lo, do modo que entendessem. À data, 19 países confirmaram o Tratado. A Irlanda rejeitou-O pela via do reeferendum popular.

A pergunta que se coloca: temos um problema na UE ou, ao invés, têm os irlandeses um problema para resolver?!...A resposta a esta pergunta vai ser determinante para o Tratado de Lisboa.

Eu, pessoalmente, não consegui vislumbrar o que quer que fosse, de "muito" gravoso no Tratado de Lisboa. Isto é assim , como eu sustento, porque a UE vai no bom caminho da consolidação dos adquiridos desde o Tratado de Roma (vivemos em paz, estámos a ganhar massa critica no mundo e precisamos de reformas políticas comunitárias para contarmos mais ainda no concerto das nações). O Tratado de Lisboa tem quase TUDO para a Europa poder CONTAR...de facto!

Então porque é que os irlandese votaram NÃO? Um estudo de opinião, já realizado despois do referendum, aponta para o seguinte:

a/ Cerca de 22% dos NÃO fizeram-no porque desconheciam o conteúdo essencial do Tratado de Lisboa; b/Cerca de 12% dos NÃO fizeram-no para assegurarem a "identidade" irlandesa;c/ A desconfiança em relação à classe política nacional é reponsável por cerca de 5% de NÃO. Acresce a isto alguns tremendos disparates de Brian Cowen, em plena campanha, que terá afirmado não ter sequer lido o texto do Tratado de Lisboa e, mesmo o actual Comissário Irlandês afirmou, e cito "ninguém no seu perfeito juízo" quereria ler o Tratado de Lisboa! Com militantes e arautos destes...para que precisavam os irlandeses de eurocépticos para ganhar o NÃO?!...

2- DO INSTITUTO DO REFERENDUM

As discussões que temos travado, em Portugal, em torno deste instituto dava para um tratadista de direito se deleitar na escrita duma SUMA. Estou certo disso.

A nossa Constituição de 1976 não foi referendada( na Irlanda foi); as sucessivas revisões, também o não foram (na Irlanda qualquer revisão tem de ser referendada);a regionalização, determinação constitucional desde o texto de 1976 - não tem de ser referendada; o Prof. Marcelo, ao tempo Presidente do PPD/PSD, empurrou o eng.º Guterres, então chefe do governo, para uma revisão constitucional (não referendada)"manhosa" que obriga a referendum a "regionalização em concreto"; e então o referendum sobre a IVG? Já não nos lembrámos que, no primeiro, por pesporrência e incompetência das "esquerdas", acrescida da deriva "católica" do chefe do governo e SG do PS à época, o eng.º Guterres, o NÃO ganhou! E o que se fez, após tal desaire? repetiu-se o Refrendum (se bem que o PC achava que não era necessário porque o Parlamento tinha legitimidade, mais que suficiente - para aprovar a despenalização da IVG: lembram-se?...). Entretanto, repetiu-se o referendum e...naturalmente, o SIM venceu!

Quantos Tratados internacionais, foram, ao longo da nossa história nacional e da Europa, em particular, referendados pelos Povos? A última versão da Concordata, celebrada com o Vaticano, foi referendada?!...Os acordos, vários, celebrados, recentemente, entre o engº Sócrates e o Presidente Chavez foram...referendados?!

Eu sei que esta sucessão de perguntas pode parecer ingénua ou até, as perguntas, um pedaço tolas. Mas, nunca, nunca mesmo, fez mal perguntar.


A Europa, A IDEIA DE EUROPA, não tanto a das geografias, mas a da hitória e da cultura, no sentido que os românticos alemães lhe emprestaram, Kultur, foi desenhada, à moda do berço da nossa civilização, a Mesopotâmia, por dois rios. Esta, pelo Tigre e o Eufrates. Aquela, a nossa Europa, foi desenhada pelo duplo poema épico, A Illíade e a Odisseia, de Homero, aedo cego e a Biblia, escrita por deus, invisivel e que não pode ser reproduzido.

Há, pois, dois faróis que iluminaram e continuam a iluminar a nossa Europa: um está em Atenas e, o outro, malgrado TODOS os disparates históricos cometidos pelos próceres do judaísmo e do cristianismo e, agora, do Islamismo, continua firme em Jerusalém.

Johan Polak, judeu holandês, responsável do Instituto Nexus e livreiro em Amsterdão, Athenaeum, em Spui,dizia: "George Steiner tem razão. Culturalmente, a Europa do século XX retrocedeu até à Idade Média. E, tal como os mosteiros de então, é nosso dever preservar a herança cultural e transmiti-la por todos os canais que tenhamos à nossa disposição."


Os responsáveis do Nexus Institute, em vésperas da presidência holandesa de 2004, convidaram Georges Steiner para pronunciar uma lição magistral, A DÉCIMA LIÇÃO, e que se deveria "centrar" na questão "de saber se a Europa continua ou não a ser uma boa ideia e qual é realmente a importância e relevância política do ideal europeu de civilização."

George Steiner, judeu, formado nos USA,retornado à Europa no pós guerra, mas homem de muito mundo e duma erudição enorme, pensador da cultura, com obra vastissima, começa a sua Lição intitulada "A ideia da Europa" desta maneira soberba: "A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequenatdos pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. [...] Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'ideia da Europa.'" E termina dum modo não menos esplendoroso: "Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho de - como Trotsky proclamou - o homem comum seguir as pisadas de Aristóteles e Goethe. Liberto de uma ideologia falida, o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente. É porventura apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido da vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base.É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que 'a vida não reflectida' não é, efectivamente, digna de ser vivida. Pode ser que estas palavras sejam insensatas, que seja demasiado tarde. Espero que não, só porque estou a dizer estas palavras na Holanda, onde Baruch Espinoza viveu e pensou."

Lembremo-nos que este Baruch, não é mais, nem menos, que o "nosso" Bento, filho de judeus da Vidigueira, expulsos, acolhidos na Holanda reformista, mas que foi expulso, por ser livre pensador, da Sinagoga de Amsterdão!

Conclusão (mais do que provisória)

O poste vai longo. Porventura não tem a actualidade que o assunto merecia e mereceu na blogoesfera. Mas preferi que a espuma dos dias, das paixões em carne viva, esmorecessem - p'ra "opinar".

Quero rematar com mais uns quantos singulares pensamentos.

Hérodoto de Halicarnasso, o pai fundador da História, terá afirmado algo que incorpora os espirito e a essência da cultura europeia, ainda hoje: "Todos os anos, enviamos a África os nossos navios, com risco de vidas e de gastos, para perguntar:'Quem são vocês? Quais as vossas leis? Qual é a vossa lingua?' Eles nunca enviaram qualquer navio a interrogar-nos."

Nada nem ninguém, hoje, por mais correcto politicamente que queira ser - consegue destruir esta pergunta. O Farol de Atenas continua a brilhar esplendorasamente!

Steiner conta que esteve na África do Sul, em casa de Nadine Gordimer, em vésperas do fim do Appartheid, numa recepção com gente do ANC e convidados. Steiner decidiu interpelar um dirigente negro, sobre a ausência de mortandade contra os brancos,naqueles dias de euforia... Um dirigente negro do ANC retorquiu-lhe: "Eu posso responder. Os cristãos têm os evangelhos, vocês, judeus, têm o Talmude, o Antigo Testamento, o Mishnah, os meus camaradas comunistas a esta mesa têm Das Kapital. Nós, negros, não temos nenhum livro."

Geoge Steiner dixit: Só os néscios ignoram a importância da tradição, do facto e do conhecimento. Hölderlin:«Wir sind nur Original, weil wir nichts wissen.»*
*«Só somos originais, porque não sabemos nada.»




Zé Albergaria


terça-feira, junho 17, 2008

Eu, ex-quase tudo, me confesso!

Cavalgando a teoria redentora, a que tudo interpretava, a que tudo descodificava e denunciava, e fazia-o de modo a podermos transformar o mundo, milhares de homens e mulheres lançaram-se à conquista dos céus. Nesse exército eu me inclui durante decénios.
Sabe-se que, em vida de Marx, à questão "se ele era marxista" terá respondido:"Não tenho a certeza".
Comemora-se, nas barricadas comunistas, nestes dias, um aniversário qualquer do Manifesto Comunista. Este texto teve a importância que teve e não é meu propósito aqui discorrer sobre tal.

Importa, hoje, interrogar-me sobre a minha própria deriva "ideológica", "utópica" e, dalgum modo, "ucrónica".

Que me lembre, fui militante comunista na década de sessenta em Portugal, pendurei-me nas barricadas parisienses, no Maio de 68, enfileirei-me, informalmente, no movimento operário católico belga e dedilhei teoria do foco guevarista até ao dia redentor: 25 de Abril 1974! Depois...depois disso aproximei-me do PC onde militei severamente, mas sempre (internamente...) livre pensador e "liberal", anti-estalinista convicto e nunca envergonhado (esse foi o meu compromisso individual, comigo mesmo, mas sempre cúmplice do projecto global do PC). Saí sem bater com portas, em silêncio.

Hoje deambulo pela chamada esquerda democrática, mas sem convicções ou certezas ideológicas, a intervir politicamente (ao modo dos gregos - na polis), fazendo coisas num território municipal, a Amadora, faz quase doze anos. Com o meu contributo -melhorando o espaço público, requalificando o parque escolar, criando ferramentas e projectos para erradicar a pobreza e qualificar os activos humanos.... e, individualmente, dirigindo um Centro de Ciência Viva, participando em órgãos sociais das duas maiores colectividades da cidade e, cuidando da minha formação intelectual, a terminar um curso de história.

Cultuo ainda duas tertúlias, uma de amesendação e degustação báquica e, outra de preocupações humanísticas e espirituais.

Direi mesmo que, hoje, não só não tenho ideologia - como rejeito, por utópica, qualquer ideologia de pensamento ÚNICO: ando a encontrar coisas muito interessantes e em muita gente!

Hoje sou, sem sombra de dúvidas e hesitações - um homem livre, livre pensador e, sobretudo, livre examinista: o meu único guia? a minha consciência! É por isto que continuo a gostar da Internacional que diz, algures: "Messias, Deus, chefes supremos/Nada esperamos de nenhum!"

Começámos, todos os que saímos do comunismo, por fazer a critica a Estaline e ao seu embuste, o estalinismo e o comunismo na Rússia; depois, alguns de nós, atrevemo-nos a buscar em Lenine as razões, as causas, as teses que explicam o que sucedeu na Rússia e em quase TODO o século XX e em quase TODO o planeta.

Hoje, a minha preocupação, é tentar colocar o MARXISMO na posição que merece e que a historiografia, não só a das ideias, está em passe de lho atribuir.(...).

Em livro de Dietrich Schwanitz, Cultura: tudo o que é preciso saber, editado pelas Publicações Dom Quixote, pode ler-se: "Trata-se de exploração porque os capitalistas não pagam aos trabalhadores o valor real do seu trabalho, mas apenas um mínimo estritamente necessário à sobrevivência, embolsando a chamada mais-valia, hoje mais conhecida por valor acrescentado, como seu proveito. Esta tarefa é-lhe facilitada pelo facto de difundirem ideologias que obnubilam a realidade, tais como a das [leis objectivas do mercado]; e como o dinheiro baralha o sentido para os valores, o preço duma mercadoria confunde-se com o seu valor real. Na realidade, porém, ele não passa de mais uma forma de encobrimento de relações de produção injustas. A primeira tarefa do marxista consiste, por isso, na destruição das aparências ideológicas. O modo de reconhecer as ideologias como tais, na opinião de Marx, consiste no facto de os capitalistas venderem os seus interesses de classe como se do interesse de toda a sociedade se tratasse. Por isso, toda a cultura burguesa torna-se suspeita. E assim o marxismo converte-se na alta escola do desmascaramento. Os sistemas simbólicos da civilização são postos a nu. Isto produziu gerações inteiras de detectives que desmascaram Deus e o mundo e fizeram da prova da culpabilidade de opressores encobertos a sua ocupação principal. A suspeita ideológica universal dotou o marxismo de um sistema imunológico, porque converteu qualquer opositor num caso de aplicação da teoria: quem está contra, ou é inimigo de classe ou é vitima da obnubilação ideológica."
Creio eu que, muitos de nós, ex-comunistas já não somos estalinistas (sem sombra de dúvidas); alguns de nós, já abandonámos o Leninismo; mas, quantos de nós colocámos em questão Marx e o marxismo?!...
Hoje, para mim, não se pode compreender as derivas das religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo, Islamismo) sem questionarmos os "Pais" fundadores daquelas! Particularmente, no caso de Cristianismo, não possível perceber as malfeitorias da Igreja Católica sem interpelar Cristo e as suas injunções. Ou é possível deixá-lo de fora? Creio que não.
Mutatis mutandi, creio eu, que a mesma metodologia se deverá aplicar a Marx. Em toda a extensão da sua teoria? Não sei. Mas, o que penso que, definitivamente, já sei: o que fizeram os seus apóstolos (Lenine, Estaline, Mao e etc...), usando e, provavelmente, abusando das suas teorias, já a história condenou. Isso eu já sei.
Agora, neste interime, tento aprender mais:interrogando-me e interpelando os textos doutros e dos marxistas...também.
Como diz o meu amigo Pedro Castelhano: " O muito sábio não é o que muito sabe...mas, outrossim, o que muito quer aprender."

JA


domingo, junho 15, 2008

Porque hoje é dia de "eurobocejo": uma curta frase vadia.


"Jesus Cristo já morreu, Karl Marx também e eu próprio não me sinto lá muito bem." Anónimo


JA

sexta-feira, junho 13, 2008

Um olhar a P& B

Faz pouco tempo, em "polémica" com António Barreto (a pretexto da recensão dum livro de memórias sobre Angola ao tempo do vice-almirante Rosa Coutinho...como alto-comissário)nomeei AB, entre outros qualificativos, de fotógrafo.

Eu sabia do que falava/escrevia. Não me enganei.

Ultimamente, no Sorumbático, AB tem brindado os seus leitores/expectadores com alguma das suas obras.

Com a devida vénia ao autor e agradecimentos ao blogue onde ele se publica, aqui deixo uma visão, a preto & branco, duma realidade que bem conheço: o bairro 6 de maio, na freguesia da Damaia, na Amadora.
Esta fotografia remete-nos, "claramente", para as abordagens narrativas de R. Barthes na sua obra de referência "A Câmara Clara", sobre a fotografia como estética, memória, discurso e linguagem. Recordo-me bem dum dos conceitos bartiano aí expendidos: "punctum".
Repare-se que esta fotografia de A. Barreto se organiza, toda ela, em torno da figura humana (o punctum estruturador), apanhada em contra-luz e de quem não se consegue perceber os seus contornos singulares, que lhe atribuiriam uma "personalidade", um "nome", remetendo-a, assim, para um certo anonimato, uma não existência - que estigmatiza quase todos os habitantes do que hoje sobra deste bairro.
JA

quinta-feira, junho 12, 2008

"Mágicos?!": claro que sim

Fanada do "Fait-Divers", com a devida vénia, a minha homenagem à "raça" e aos "raçudos" que ontem alinharam por Portugal no jogo contra a República Tcheca!

Albergaria